30 janeiro, 2008

Hamilton de Holanda: o mundo não acabou


Encerramento da oficina de música de Curitiba. Guaíra lotado para ver música instrumental brasileira. No bandolim, Hamilton de Holanda. E o mundo não acabou. Já explico.

Quantas expressões artísticas podem oferecer tamanha fonte de satisfação como oferece um grupo de bons músicos dispostos a reencantar o mundo? Quantos músicos são capazes de, sem dizer uma palavra, fazer a gente assistir um espetáculo com um sorriso no rosto?

Hamilton de Holanda e seu bandolim carregam a saudade e a tristeza pra lá, dedilhando, girando, tocando. Tanta técnica, mas tanta ternura. Tanto virtuosismo, mas tanta singeleza. A certa altura de uma música, o incrível batera Marcio Bahia entorna o caldo do samba sestroso e, aliados ao baixista André Vasconcelos, todos espancam seus instrumentos como num metal rock estremecedor. Parafraseando Luis Fernando Veríssimo, o músico às vezes precisar fazer isso com seu instrumento que é pra mostrar quem é que manda.

Hamilton conta que essa música nasceu numa noite de domingo de chuva torrencial quando também recebeu um e-mail com fotomontagens de tsunamis sobre as praias do Rio. Passada a chuva e o susto, como se fosse um Noé que sabe que o mundo não iria mais acabar à base de dilúvio, compôs "O mundo não acabou".

O espaço para o improviso, para a brincadeira, para a fraternidade entre os músicos. Vi e ouvi excelentes músicos se comunicando, trocando notas e afeto. Todo o afeto que se encerra num show de grande música. Num desses espaços, um músico cuja profissão e nome são uma aliteração: o gaitista Gabriel Grossi. A gaita, ou harmônica, geme, chora, grita, passeia por toda a tessitura impossível. Mas, como no show inteiro, o choro e o grito são de alegria. De solar alegria brasileira, e não de um anoitecido blues americano.

O que já está muito bom pode ficar melhor? É difícil. Mas não quando o convidado é simplesmente Jacques Morelembaum. Meus olhos caboclos não acreditavam no que viam. Aos primeiros toques de "Passarim", de Jobim, percebi que o negócio era de verdade. Tem coisas que ver não basta. Só ouvindo pra crer.

Se o show já estava num ápice supremo, com a entrada de Renato Borghetti a noite se completou. Sim, a noite é mesmo uma criança. Mas não uma criança que insiste em não dormir - porque raios os bebês tem que chorar quando querem dormir? Não era só fechar os olhos, criatura? Uma criança feliz é o que viramos quando a gaita, ou bandoneón para outros, de Borghetti começou o fole da felicidade geral da platéia. Agora entendi: se não nos tornarmos como crianças, ninguém é capaz de entrar na terra da música bem-aventurada.

Os violonistas Daniel Santiago e Artur Bonilha (não sei se é assim que se escreve o nome dele; também não sei se ele é gaúcho. Mas os gordinhos gaúchos de mão redonda parecem ser excepcionais, vide o gaúcho Yamandú) compartilharam com todos a irmandade festiva dos finais de espetáculo musical. A platéia se sente no palco. Os músicos do palco nos dão boa-noite e agradecem. Que é isso, senhores? Eu é que agradeço. Agradeço principalmente porque o mundo ainda não acabou.

24 janeiro, 2008

O consumo nosso de cada dia


Vivemos na sociedade do excesso, na sociedade da abundância. Nem que seja excesso de riqueza pra uns e abundância de pobreza pra outros. No meio, uma classe média que tem excesso de desejo e abundância de débito no cartão.

Mas o que define um rico? Eu falo de rico, miliardários. Alguém disse que rico mesmo é aquele que compra uma coisa sem perguntar o preço. Por isso, deve ter muita gente que adentra embevecida os portais da Daslu e leva um vestido sem perguntar quanto é. Para impressionar a amiga, claro (veja aqui esse estilo).

Em recente entrevista, o filósofo Gilles Lipovetsky comentou que a Daslu, onde se pode chegar de helicóptero, por ser uma ilha de prosperidade e exuberância cercada de favelas, é quase uma provocação. Mas este é um luxo voltado exclusivamente para os milionários, que não permite o fácil acesso a quem não tem caráter pecuniário nem moral financeira. Eu (e você?), por exemplo.

Lipovetsky segue dizendo que vivemos na Hipermodernidade, que seria uma modernidade do excesso e caracterizada pelo hiperconsumo. Mas a Hipermodernidade é boa. Boa porque permite que bastante gente tenha acesso não apenas a consumo de comida, roupas e entretenimento, mas também a consumo de tecnologia médica e de comunicação. Há mais espaço para liberdade pessoal.

A parte ruim é que essa mesma sociedade que prega o bem-estar, o lazer, o prazer, também experimenta uma grave incidência de perturbações, ansiedades, o que, no fundo, segundo o filósofo, parece nos dizer que “o poder de consumo cresce cada vez mais, mas a felicidade não”.

Nelson Rodrigues dizia que o dinheiro compra tudo, meu filho, até o amor verdadeiro. Para além da galhofa, o que podemos comprar são satisfações, pequenos prazeres, no que não há mal algum. Aliás, o problema estaria em querer comprar a felicidade. Lipovetsky então concorda com Rousseau, pois para ambos a felicidade está na relação da pessoa com ela mesma e com os outros. Uma pessoa em conflito consigo mesma não consegue ser feliz, compre o que comprar – ou por isso mesmo ela compra o que consegue comprar. E a coisa piora quando não consegue pagar.

A questão é que se os outros podem nos dar grande felicidade, principalmente (ou somente?) quando o amor é recíproco, os outros também nos causam os maiores sofrimentos (não custa lembrar que você é o “outro” para alguém). Daí Sartre nem pestanejar em dizer que “o inferno são os outros”.

Voltando ao vil metal, é fácil dizer que há um acesso muito grande ao sonho de consumo. Mas também ainda há muita desigualdade de oportunidade para se realizar esses sonhos. Pode-se culpar a publicidade e o dinamismo do consumo que estariam atiçando o consumo e corrompendo os costumes. Mas o pior mesmo é ver como as marcas se tornaram o sentido da vida para muita gente.

Mas não é demonizando o luxo ou condenando moralmente a publicidade e as marcas que o problema se resolve. É preciso preencher a vida com objetivos (espirituais, profissionais, sociais) que relativizem o consumo. Como diz Lipovetsky, “não há drama no fato de alguém não poder comprar marcas e luxo; o drama é a vida não ter outro ideal senão o consumo”.

É óbvio que tem aquele assalariado cheio de graça que vem e que passa na loja mais chique, mas seu comportamento "consciencioso" (um mão-de-vaca mesmo) o leva qual um zumbi direto à promoção da Renner. Para equilibrar o orçamento, temos do outro lado as assalariadas do tipo consumidoras compulsivas, também conhecidas como clientes que sempre dizem sim. Sim, eu vou levar esse sapato (e a bolsa) mesmo. Sim, meu marido vai acabar pagando mesmo (calma, isto é válido apenas para esse tipo de consumidoras, como me alertam os comentários).

Sabe-se que para cada ação humana tem sempre um árabe que criou um provérbio. Embora a TV não se canse de mostrar que os judeus são engraçados e os árabes mal-humorados, convenhamos que há mais piadas entre a Galiléia e o Golfo Pérsico do que imagina nosso vão preconceito.

Pois um desses provérbios diz assim: “Bem-aventurado o homem que consegue ganhar mais do que sua mulher é capaz de gastar. Mais bem-aventurada é a mulher que encontra tal homem”.

Me diga que civilização machista pode ser feliz desse jeito? Nem a judaico-cristã-ocidental, nem a muçulmano-hindu-oriental.

16 janeiro, 2008

'Mídia' quem pode, obedece quem não tem 'juiz'

Você já ouviu dizer que a justiça é cega, certo? Pois lhe digo que essa senhora não é cega coisa nenhuma. Aliás, enxerga bem até demais pro meu gosto. Veja-se o caso de Fernando Mattos Roiz Jr., de 19 anos, Luciano Filgueiras Monteiro, de 21 e um menor de idade, presos em novembro de 2007 por agressão a um grupo de prostitutas na Barra da Tijuca. O pai de um daqueles "jovens" comentou que eles não fizeram nada demais e que tudo não passava de uma brincadeira de criança. Só faltou botar o grupo Molejo cantando o refrão “brincadeira de criança / como é bom, como é bom”.

E não é que o juiz Joaquim Domingos de Almeida Neto, do Rio de Janeiro, entrou na brincadeira e decidiu proibir determinados jornais e emissoras de televisão de veicular nome e imagem de dois dos "jovens" condenados por espancamento. O juiz invocou o artigo 198 da Lei de Execuções Penais, que veda a exposição de réus à “inconveniente notoriedade”.

É claro. Os garotinhos do papai estavam sendo zoados na escolinha por essa súbita e “inconveniente notoriedade” e todo o rico dinheirinho da família destinado ao pagamento da faculdade seria desperdiçado com essa chatice de advogado, custas de processo e congêneres inconvenientes.

É claro. A justiça enxergou muito bem a cor e a classe social desses "jovens" tão inocentemente tragados pela delinqüência típica do agitamento hormonal da idade, tadinhos.

É claro. O baronato da mídia atendeu docilmente ao cala-boca judicial e não perdeu a chance tão rara de ficar calada. Um texto da ABI aqui, um resumo dos protestos da Abert ali, mas nada que ocupasse fotos, espaços e horários nobres. Afinal, não era nenhuma cartinha indignada do Luciano Huck, nem era o governo supostamente amordaçando a liberdade de imprensa para que merecesse um editorial.

Assim é que o caso, para o papai: foi só uma brincadeira dos seus ótimos meninos - não que ele deva se perguntar “onde foi que eu errei?”, mas passar a mão na cabecinha do agressorzinho desse jeito é um crime de lesa-filho;
para o juiz: meninos de tão boa família não podem ser incomodados e não se deve mencionar seus nomezinhos em vão, se eles fossem como os desalmados filhos do casal Richthofen, vá lá, mas bater em prostitutas, pôxa vida, isso é de alta classe, isso é muito natural;
e para a mídia: mesmo que o juiz tenha violado a Constituição impondo uma censura prévia, pra que fazer escândalo?, deixa isso pra lá, mas o que é tem, os jovens não fizeram nada (canta o pai) nem o juiz também (cantam todos).

Lição conhecida: manda quem pode, obedece quem tem juízo.
Versão na linguagem de hoje: mídia quem pode, obedece quem não tem juiz.

Mais sobre o crime, o castigo e a censura no panóptico e no observatório da imprensa.

10 janeiro, 2008

O gênero musical do novo século


Ouvindo o tributo de Herbie Hancock em cd dedicado à obra de Joni Mitchell (River), a criatividade de Caetano Veloso e Jacques Morelembaum na recriação de standards americanos no cd A foreign sound, a dissolução da fronteira entre popular e clássico nos cds de Yamandú Costa com Paulo Moura (El negro del blanco) e com Dominguinhos, o encontro delicado e virtuoso de André Mehmari e Ná Ozzetti (Piano e Voz), e ainda a sofisticada elaboração do jazzista Brad Mehldau compondo para a diva da ópera Renée Fleming (Love sublime - com algumas músicas a partir de textos de Rainer Maria Rilke), é de se perguntar que gênero musical parece estar surgindo nos albores do terceiro milênio.

Falando de sua audição dos cds de Herbie Hancock e de Charlie Haden & Pat Metheny (Beyond the Missouri Sky), o musicólogo Gabriel Solis escreve:

“O que são esses trabalhos? Jazz? Ambos envolvem muita improvisação, instrumentação jazzística (i.e., saxofones, violão, baixo, bateria, piano em diversas combinações) interpretação de canções por músicos criativos, com ou sem vocais, harmonia tonal expandida, preponderância rítmica baseada no ‘groove’, sensibilidade métrica, um aparente desejo de se comunicar com o público, e o senso de que estamos ouvindo uma comunicação entre os músicos. Mas cada um a seu modo se parece com música pop, e cada um talvez se pareça ainda com música clássica contemporânea” (o autor ainda cita Ornette Coleman e Elvis Costello como músicos que apresentam gravações com tais qualidades). Aqui no Brasil, procure ouvir o belo trabalho da Orquestra Popular de Câmara, que inclui ainda acordeom, cello e percussão.

Solis está convencido de que essa música pode ser “bom jazz, bom pop e boa música clássica ao mesmo tempo”. Poderíamos falar aqui de uma fusão de gêneros e estilos musicais, mas o musicólogo prefere o termo “síntese”, porque isso representaria uma gama de “músicos encontrando coisas em comum entre múltiplas tradições, ou talvez quebrando as barreiras entre elas”.

Como a criação de subgêneros parece estar supostamente se exaurindo, isto é, com um esgotamento de estilos advindos de fusões, justaposições ou aglutinações (samba-rock, samba-reggae, todos os gêneros de metal rock, latin jazz, bossa’n jazz, mangue beat), alguns músicos parecem dirigir-se a uma mistura de supergêneros. Isto é, a aproximação da cultura pop com a cultura erudita, e estes integrados numa perspectiva jazzística – alguns denominariam “crossover”.

Há alguns anos se falaria do encontro entre alta e baixa cultura, mas esses termos soam hoje como palavrões politicamente incorretos. Além do que, basta aparecer um Roy Lichtenstein, um Arrigo Barnabé, um Frank Zappa, livros como O Nome da Rosa ou Os Jardins de Kensington, para fundir a cuca dos críticos que vivem em busca do rótulo perdido. Esses autores e obras que citei são apenas alguns dos que transcendem o pop e a cultura erudita para entregar um terceiro produto que surge dessa síntese cultural.

Este fenômeno pode ser mais bem visualizado atualmente. Porém, tanto Duke Ellington quanto Pixinguinha (ouça o cd Bach e Pixinguinha, de Mario Sève – flauta e sax - e Marcelo Fagerlande - cravo) também souberam retrabalhar a infinitude de sons que vinha das ruas por meio de uma técnica de arranjo e composição fixada em livros. Ou seria o contrário? A técnica erudita do contraponto é que teria passado por modificações por causa da singularidade dos ritmos populares?

De certa forma, George Gershwin e Cláudio Santoro também partilharam dessa integração de supergêneros ou culturas musicais distintas, mas não opostas – o primeiro, com ápice na ópera Porgy e Bess, e o segundo com as canções pré-bossa feitas sobre versos de Vinicius de Moraes (ouça essas músicas no cd Canções de amor, interpretadas pela soprano lírica Rosana Lamosa e pelo pianista Marcelo Brattke. Este, inclusive, com trabalhos que têm superado as fronteiras musicais).

Sobre a incidência no século XXI de trabalhos nessa linha, Gabriel Solis diz que esses músicos seriam como “anfitriões de tradições mortas”. Ele explica que o jazz como um aparato de marcadores sonoros (progressões de II-V, linhas melódicas de bop), tal como ensinado nas escolas, está acabado; a música erudita/de concerto contemporânea é um gênero para quase ninguém; e o canto pop tem muito mais possibilidades do que o pessoal da indústria frequentemente permite que apareça.

Para Solis, o melhor desses novos trabalhos (entre os quais eu acrescentaria aqueles que citei na cumeeira dessas mal-traçadas) parece estar libertando a música da “tirania do gênero” do século XX. Hancock disse em entrevista sobre o seu álbum River: the Joni Mitchell letters que ele estava apenas tentando fazer música – um pouco de jazz, um pouco de música clássica, um pouco de pop, um pouco disso e daquilo.

O gênero é um atalho de vendas para a indústria fonográfica. Porém, como até o papel das gravadoras e distribuidoras está em cheque – num dia o Arctic Monkeys vira febre pela internet, em outro o Radiohead vende as próprias canções na web -, será que o rótulo fácil pode estar também com os dias contados? Talvez não. Comentando a tática do Radiohead de deixar que o cliente diga quanto vale o produto, acho que foi Lily Allen que disse que se no armazém ninguém diz quanto quer pagar por ovos, então porque o cliente deve dizer quanto quer pagar por música?

Vamos esperar um pouco mais e ver se mais artistas vão dar um passo de independência em relação à indústria de estratégia mercadológica engessada e também desligar-se da filiação a gêneros de imediata identificação nas estantes das lojas.

Confira aqui o texto no original em inglês de Gabriel Solis.

Acima, obras da artista Maj Menezes, que usa o disco de vinil como suporte para sua arte chamada de Divercity, em exposição em Curitiba até 25 de janeiro.

03 janeiro, 2008

Happy new 'ears'



O ano recém-passou e conveniente-mente é hora de eleger novos objetivos e metas. É isso mesmo. Objetivos e metas, como num chato mas funcional plano de ação de uma empresa capitalista. Esqueça seus sonhos. Aquilo de“sonhar não custa nada” é uma meia-verdade, o que na visão de Millôr, não deixa de ser uma mentira inteira. Sonhar não custa nada porque não sai do domínio da fantasia, do reino encantado da imaginação. Um objetivo traçado e metas a cumprir, essas sim, custam alguma (ou muita) coisa, porque com uma chance na mão e um plano na cabeça chega-se a construir algo de sólido: uma carreira, um livro, um cd, uma tese.

Em 2007, tive acesso a discos, livros e filmes que sempre quis conhecer. Selecionei alguns que me proporcionaram um despertamento para novas formas de pensar o de sempre: o homem, sua arte, sua vida; e outros que me deixaram com um sorriso agradecido pelos bons momentos de entretenimento. Também importa que muitos dos selecionados não foram lançados nesse ano que se foi.

Discos:
Beethoven Piano Sonatas – Nelson Freire
Cláudio Santoro, Sinfonias nº 5 e 9 – Osesp
Haydn, As 7 Últimas Palavras de Cristo na Cruz
Schumann e Shubert – Antonio Meneses e Gerard Wyss
Que Estranho Belo Dia pra se Ter Alegria – Roberta Sá
Careless Love – Madeleine Peyroux
River, the Joni Letters – Herbie Hancock e convidados
Bach & Pixinguinha – Mário Sève e Marcelo Fagerlande

Livros:
O Mal-Estar da Pós-Modernidade – Zygmunt Bauman
Music Matters: a new philosophy of music education – David Elliott
Apocalípticos e Integrados – Umberto Eco
Dois Irmãos – Milton Hatoum
Lendo Música – Arthur Nestrovski
Música Sacra, Cultura e Adoração – Wolfgang Stefani
A Cultura da Mídia - Douglas Kellner
O Século da Canção – Luiz Tatit

Filmes:
O ano em que meus pais saíram de férias (Brasil) – Cao Hamburger
A vida dos outros (Alemanha) – Florian von Donnersmarck
Volver (Espanha) – Pedro Almodóvar
A conquista da honra e Cartas de Iwo Jima (EUA) – Clint Eastwood
Maria (EUA) – Abel Ferrara
Brilho eterno de uma mente sem lembranças (2004) – Michel Gondry
Andrei Rublev (Rússia, 1966) – Andrei Tarkovski
A regra do jogo (França, 1939) – Jean Renoir

Vi, li, ouvi. Com novos olhos e ouvidos é que posso dizer alea jacta est – a sorte está lançada – para este ano que se inicia. Talvez melhor que "a sorte está lançada", seja a semente está plantada. No decorrer do estudo venho semeando novos grãos, colhendo de tudo e joeirando o que convém, o que é apropriado, o que deve ser feito.

Seguindo Murray Schafer, pedagogo da música, deixemos pra trás essa conversa de que é necessário conhecimento e sensibilidade para se entender a arte. Melhor falar em curiosidade e coragem. Curiosidade para ouvir e ver o novo e coragem para afirmar ou mudar de opinião. O novo de que falo não é o último lançamento, a última moda, o último grito. O novo pode ser uma antiga luz sobre o que já se leu ou uma nova interpretação do que já se cantou.

Então, estendamos a mão ao novo sem deixarmos de ouvir o que parece velho. Porque é quando mais confiamos na supremacia do agora é que não damos o justo valor ao que passou.

John Cage, o músico que deu o grito silencioso de independência da música, costumava desejar aos amigos o trocadilho happy new ears. É o que desejo a todos nós. Feliz ouvidos novos no novo ano.

*Reprodução do quadro de Juan Gris, Guitarra e partitura (1927)