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Mostrando postagens de Janeiro, 2008

Hamilton de Holanda: o mundo não acabou

Encerramento da oficina de música de Curitiba. Guaíra lotado para ver música instrumental brasileira. No bandolim, Hamilton de Holanda. E o mundo não acabou. Já explico.

Quantas expressões artísticas podem oferecer tamanha fonte de satisfação como oferece um grupo de bons músicos dispostos a reencantar o mundo? Quantos músicos são capazes de, sem dizer uma palavra, fazer a gente assistir um espetáculo com um sorriso no rosto?

Hamilton de Holanda e seu bandolim carregam a saudade e a tristeza pra lá, dedilhando, girando, tocando. Tanta técnica, mas tanta ternura. Tanto virtuosismo, mas tanta singeleza. A certa altura de uma música, o incrível batera Marcio Bahia entorna o caldo do samba sestroso e, aliados ao baixista André Vasconcelos, todos espancam seus instrumentos como num metal rock estremecedor. Parafraseando Luis Fernando Veríssimo, o músico às vezes precisar fazer isso com seu instrumento que é pra mostrar quem é que manda.

Hamilton conta que essa música nasceu numa noite de domi…

O consumo nosso de cada dia

Vivemos na sociedade do excesso, na sociedade da abundância. Nem que seja excesso de riqueza pra uns e abundância de pobreza pra outros. No meio, uma classe média que tem excesso de desejo e abundância de débito no cartão.

Mas o que define um rico? Eu falo de rico, miliardários. Alguém disse que rico mesmo é aquele que compra uma coisa sem perguntar o preço. Por isso, deve ter muita gente que adentra embevecida os portais da Daslu e leva um vestido sem perguntar quanto é. Para impressionar a amiga, claro (veja aqui esse estilo).

Em recente entrevista, o filósofo Gilles Lipovetsky comentou que a Daslu, onde se pode chegar de helicóptero, por ser uma ilha de prosperidade e exuberância cercada de favelas, é quase uma provocação. Mas este é um luxo voltado exclusivamente para os milionários, que não permite o fácil acesso a quem não tem caráter pecuniário nem moral financeira. Eu (e você?), por exemplo.

Lipovetsky segue dizendo que vivemos na Hipermodernidade, que seria uma modernidade do e…

'Mídia' quem pode, obedece quem não tem 'juiz'

Você já ouviu dizer que a justiça é cega, certo? Pois lhe digo que essa senhora não é cega coisa nenhuma. Aliás, enxerga bem até demais pro meu gosto. Veja-se o caso de Fernando Mattos Roiz Jr., de 19 anos, Luciano Filgueiras Monteiro, de 21 e um menor de idade, presos em novembro de 2007 por agressão a um grupo de prostitutas na Barra da Tijuca. O pai de um daqueles "jovens" comentou que eles não fizeram nada demais e que tudo não passava de uma brincadeira de criança. Só faltou botar o grupo Molejo cantando o refrão “brincadeira de criança / como é bom, como é bom”.

E não é que o juiz Joaquim Domingos de Almeida Neto, do Rio de Janeiro, entrou na brincadeira e decidiu proibir determinados jornais e emissoras de televisão de veicular nome e imagem de dois dos "jovens" condenados por espancamento. O juiz invocou o artigo 198 da Lei de Execuções Penais, que veda a exposição de réus à “inconveniente notoriedade”.

É claro. Os garotinhos do papai estavam sendo zoados na …

O gênero musical do novo século

Ouvindo o tributo de Herbie Hancock em cd dedicado à obra de Joni Mitchell (River), a criatividade de Caetano Veloso e Jacques Morelembaum na recriação de standards americanos no cd A foreign sound, a dissolução da fronteira entre popular e clássico nos cds de Yamandú Costa com Paulo Moura (El negro del blanco) e com Dominguinhos, o encontro delicado e virtuoso de André Mehmari e Ná Ozzetti (Piano e Voz), e ainda a sofisticada elaboração do jazzista Brad Mehldau compondo para a diva da ópera Renée Fleming (Love sublime - com algumas músicas a partir de textos de Rainer Maria Rilke), é de se perguntar que gênero musical parece estar surgindo nos albores do terceiro milênio.

Falando de sua audição dos cds de Herbie Hancock e de Charlie Haden & Pat Metheny (Beyond the Missouri Sky), o musicólogo Gabriel Solis escreve:

“O que são esses trabalhos? Jazz? Ambos envolvem muita improvisação, instrumentação jazzística (i.e., saxofones, violão, baixo, bateria, piano em diversas combinações) i…

Happy new 'ears'

O ano recém-passou e conveniente-mente é hora de eleger novos objetivos e metas. É isso mesmo. Objetivos e metas, como num chato mas funcional plano de ação de uma empresa capitalista. Esqueça seus sonhos. Aquilo de“sonhar não custa nada” é uma meia-verdade, o que na visão de Millôr, não deixa de ser uma mentira inteira. Sonhar não custa nada porque não sai do domínio da fantasia, do reino encantado da imaginação. Um objetivo traçado e metas a cumprir, essas sim, custam alguma (ou muita) coisa, porque com uma chance na mão e um plano na cabeça chega-se a construir algo de sólido: uma carreira, um livro, um cd, uma tese.

Em 2007, tive acesso a discos, livros e filmes que sempre quis conhecer. Selecionei alguns que me proporcionaram um despertamento para novas formas de pensar o de sempre: o homem, sua arte, sua vida; e outros que me deixaram com um sorriso agradecido pelos bons momentos de entretenimento. Também importa que muitos dos selecionados não foram lançados nesse ano que se foi…