18 setembro, 2013

o que ninguém mais tem

No mundo,
tudo tem,
embora
nem todo mundo
tenha.
O que ninguém
tem mais
no mundo é silêncio.

12 setembro, 2013

toda nudez será consagrada

Nas sociedades antigas, não havia dicotomia entre “vida religiosa” e “vida secular”. A religião ou o trabalho não eram aspectos compartimentados da vida, mas constituíam uma só esfera integrada, holística. Essa é a compreensão na cultura islâmica e também nas religiões de raiz africana.

Na visão tradicional judaica, por exemplo, as atividades humanas são realizadas para a glória de Deus e “em tudo” se dá graças a Deus. A procriação, o casamento, a refeição, o sono, o trabalho e o lazer, a música e as leis, são dádivas celestes e oportunidades para se cooperar com a bondade e a justiça divinas. 

A ética calvinista sublinhava a motivação dos protestantes anglo-saxões do século 18 quanto a trabalhar honestamente, poupar rigorosamente e a divertir-se de maneira frugal. De um certo modo, era uma visão que admitia um forte senso da presença de Deus, que também era um juiz a observar as práticas dos indivíduos e a quem se devia oferecer o tempo e os melhores empreendimentos.

Em nossa época, as atitudes de vários grupos cristãos demonstram que a ética calvinista da poupança foi substituída por uma ética evangélica de consumo. Além disso, a diversão e o entretenimento fazem parte dos novos comportamentos evangélicos que passam a ter um envolvimento ativo com o variado universo do entretenimento pop. Esse envolvimento se dá em face de um maior abrandamento dos costumes e abandono de restrições. 

Como "testemunha" (e não ré, por favor) desses novos comportamentos, está a evangélica Aline Franzoi, modelo que atua como ring girl, a garota que levanta as placas nos ringues/octógonos do UFC. Ela afirmou não ver problemas em ser uma ring girl porque “religião e profissão são áreas diferentes”.

A fala de Aline Franzoi reproduz uma tendência dos cristãos na modernidade, a de que se possui uma vida dupla, isto é, uma para Deus e outra de ordem individual. Talvez um bem social legítimo e necessário como a laicidade, a separação entre Igreja e Estado, tenha contribuído para o desenvolvimento de uma "dupla" consciência individual, em que a religião está isolada da "vida secular". Nesse sentido, uma fração dos evangélicos se sente livre para se envolver em atividades profissionais que outros segmentos cristãos considerariam impróprias.

As lutas do UFC, nas quais há competidores que agradecem a Deus após "finalizarem" o adversário, também atraem espectadores evangélicos. E agora é possível que mais garotas evangélicas venham a participar como ring girls e a se tornar também musas do UFC.

Aline Franzoi já havia feito fotos sensuais para a revista VIP, garantindo que não posaria jamais como veio ao mundo. Mas esse limite foi superado, pois ela acabou de se tornar a “primeira evangélica capa da Playboy”. Sabendo que no meio evangélico toda nudez midiática será castigada, ela se justificou: “Deus vê o coração e a nossa intenção”.

O recurso a essa citação bíblica é um expediente que tem sido usado como atenuante para qualquer prática controversa entre os evangélicos. Em todo caso, a modelo parece ciente de que Deus vê o coração dos indivíduos enquanto os indivíduos só podem mesmo contemplar a criação divina. Soa como uma contradição irônica e até casuística: ela sabe que Deus olha o coração e que os homens, não.

Numa época em que belas mulheres que foram capa de “revistas masculinas” se convertem ao cristianismo, Aline estaria percorrendo exatamente o caminho contrário? É que esta também é a época em que se consolida uma cultura evangélica que adere à modernidade somente no que ela oferece de diversão, consumo e culto à celebridade. Em outros aspectos e debates, prevalece o obscurantismo teológico e o fundamentalismo ideológico.

Há uma mentalidade no cristianismo que reprime brutalmente o corpo. Muitos castigam o corpo como repositório de todo o mal. Uma outra mentalidade abdica de velhas restrições e assume maior liberdade de exibição do corpo. Desse modo, o corpo é o objeto utilizado para punir ou estimular o desejo e o prazer.

Esses dois pensamentos opostos resultam do mesmo equívoco filosófico e teológico: a teoria de que o corpo é uma coisa e a “alma” é outra, de que o corpo seria para atividades seculares/"mundanas" e a mente/alma para Deus. O dualismo dos gregos antigos, que separa o corpo da alma, ainda frequenta o pensamento cristão. Talvez por isso alguns entendam que é possível ganhar o “mundo”, perder o corpo e salvar a alma.

06 setembro, 2013

PREpara que a música ainda vai ficar pior

Melhor cantor do ano: Luan Santana
Melhor cantora do ano: Ivete Sangalo
Melhor videoclipe: “Show das Poderosas” (Anitta)
Música-chiclete: idem

Esse foi o resultado da votação popular do Prêmio Multishow 2013, que ainda premiou o Sorriso Maroto como Melhor Grupo. Veja que foi o voto popular que elegeu os melhores do ano. Como não é o caso de ficar falando mal do povo e do gosto popular, vamos pensar em algumas perguntas:

Quem é que está votando?
Não sei. Talvez seja o mesmo pessoal que votaria em “Crepúsculo” ou “Velozes e Furiosos trocentos” como melhor filme. Ou são os mesmos que acham que o humor da turma do Porta dos Fundos é a coisa mais inteligente e divertida que há.

Não havia concorrentes melhores?
Não. Luan Santana disputava o prêmio com Fiuk, Thiaguinho (que ganhou o prêmio de Melhor Música com “Buquê de Flores”) e o vocalista do NX Zero, enquanto o funk de Anitta concorria com representantes da fina flor da música brasileira, como “Camaro Amarelo” e “Gatinha Assanhada”.

Por que esses artistas foram considerados os melhores?
É provável que, em vez de analisar itens ultrapassados como refinamento de letra e inventividade melódica, os eleitores do Multishow valorizem mais certos fatores indispensáveis para uma canção, como: número de caras e bocas do cantor por frase cantada, profundidade do decote, capacidade de se aprender a coreografia, refrão com a onamatopeia mais maliciosa. Em resumo, está claro que qualidade musical tem outra definição nos dias de hoje.

Nossa música popular está em decadência?
A música brasileira não teve só Noel Rosa, Ary Barroso, Tom Jobim, Chico Buarque ou Gilberto Gil. Há 30 anos, Gretchen rebolava na TV ao som de “Conga la conga”, e se na época houvesse um prêmio de “música-chiclete” do ano, ela (ou Sidney Magal) venceria. Mas me parece que a música popular mais sofisticada perdeu o vigor e a música popular menos inteligente perdeu a vergonha.

A música pop estrangeira é melhor do que a brasileira?
Descontando o fato de que música ruim é sempre a dos outros, música ruim é música ruim em qualquer parte do mundo. Mas para um país que já exportou “Aquarela do Brasil”, “Tico-Tico no Fubá” e “Garota de Ipanema”, ver o mundo inteiro dançando “Ai se eu te pego” e o Bon Jovi cantando “Camaro Amarelo” é constrangedor. Ou pelo menos era pra ser constrangedor.

O que aconteceu com a música brasileira?
Talvez tenha ocorrido um processo de franco emburrecimento da pátria. Décadas atrás, músicos sem maior instrução escolar, como Adoniran Barbosa, Luiz Gonzaga e Tonico & Tinoco produziam bonitas canções. Hoje, são os cursos universitários que promovem festas à base de Naldo, Luan Santana, Sorriso Maroto e outros congêneres que rebaixaram tanto o nível que Reginaldo Rossi parece o Stevie Wonder perto deles.

Pior do que está não fica?

Ah, fica. Não é que esses artistas lancem produtos mal-acabados. E nem é correto avaliar uma canção popular com os critérios de avaliação de estruturas musicais diferentes, como a “música clássica”, por exemplo. Mas como tudo que está ruim sempre pode ficar pior, então, se PREpare!