29 outubro, 2010

o cantor na igreja: com noção ou sem noção

Escolher uma música para cantar na igreja parece ser uma tarefa fácil. Mas não é. O sujeito recebe o convite, preprara uma mensagem musical para o final do sermão de sábado, acerta o tema com o pregador previamente, vai até seu estojo de playbacks, seleciona uma canção, ensaia, decora a letra, chega cedo no sábado de manhã, passa o som do microfone, confirma com o pastor qual o momento certo em que deve subir à plataforma para cantar e... ficou muito bom, obrigado, meu irmão, sua música “casou” com a mensagem, Deus te abençoe.

Essa organização toda que descrevi, nós sabemos, não é comum. Quase sempre aparece o frequentador habitual de muitos cultos: o Improviso dos Santos, um irmão que raramente falta. Sonoplasta atrasado, cabos velhos de microfones, convites em cima da hora, Dá pra você cantar uma música na escola sabatina também?, Mas não preparei outra música, Ah, canta qualquer coisa que você trouxe aí!

Não poucas vezes, o mensageiro se interessa mais pelos ensaios do que pela preparação espiritual. Não medimos esforços para ensaiar durante a semana, mas deixamos de lado a comunhão diária, a orientação divina. Daí que a qualidade técnica avança enquanto a qualidade espiritual fica estacionada. Por isso, às vezes vemos cantores com o “dom” de quebrar a atmosfera de reverência e entrega pessoal com seu repertório e sua forma de cantar. O problema do “cantor sem-noção” é mais espiritual do que musical.

A música para o final do culto, a chamada “música de apelo”, precisa ser muito bem preparada. O estilo da música e a mensagem da letra precisam estar ambas adequadas ao momento. E o jeito de cantar também. Não é preciso encher a canção de melismas do começo ao fim. Nem fica bem uma cantora passar toda a música com os olhos fechados concentrada na música. Fica o cantor lá com sua música e a congregação cá com seus sentimentos. Como diz a canção: "você com a sua música esqueceu o principal". Ainda que não queiram passar essa impressão,  fica parecendo que cantores assim estão mais preocupados com eles mesmos do que com a congregação.

A mesma noção que falta a quem canta uma música de apelo, tipo “Quando Jesus te chama e Tu não vens...”, às 9 da manhã na abertura da escola sabatina, também falta a quem faz os melismas fora de propósito. Repito: fora de propósito. Há quem saiba dominar essa técnica e também colocá-la nos lugares certos e usá-la na hora adequada.

"Eis aqui esses melismas feitos numa sílaba só": toda canção que já virou clássica parece que só pode ser cantada de novo com uma multidão de notas para uma sílaba só. No estúdio de gravação, numa programação em outro horário, ainda vá lá. Mas na hora do apelo pastoral penso que o intérprete pode deixar a música mais limpa, mais clean, aparar as arestas, pronunciar bem as palavras, fazer o menos em vez do mais.

A escolha cuidadosa do repertório, a forma de se vestir e até de fazer os gestos durante a música são detalhes que fazem a diferença para a congregação. Por isso, não deixe para orar na hora da introdução da música. A oração começa bem antes. Lá nos ensaios. Na hora de escolher a música que vamos cantar.

28 outubro, 2010

James Bond encontra a Pantera-cor-de-rosa dentro de um piano

O pianista Richard Grayson é um improvisador. Ele mistura os temas musicais de James Bond e da Pantera-Cor-de-Rosa ao estilo erudito da fuga. Consolidada no período do barroco musical, a fuga é um estilo de composição permeada de contrapontos e imitações de um tema principal. Explicação grosso modo: um tema (ou voz) principal começa e logo é repetido por outras vozes que vão entrando, mudando de tonalidade e se entrelaçando. Ouve-se o tema e uma outra voz como que querendo alcançá-lo, como numa, isso mesmo, fuga.

No caso desse improviso de Richard Grayson, os temas dos filmes são o motivo para uma fuga dupla, ou seja, os temas são desenvolvidos ao mesmo tempo. Às vezes, nesse tipo de fuga, desenvolve-se o tema A, depois o tema B e por fim entrelaçam-se os dois temas. Tava pensando que improvisação é coisa de gente que não estuda? Audioveja o pianista.



Em outro vídeo, Darth Vader encontra Beethoven.

25 outubro, 2010

diante do trono e da mídia

Diante do Faustão, o Diante do Trono me pareceu diferente. As músicas encolheram, ninguém falou em línguas, não teve "unção do Leão". Foi uma dica dos produtores do programa, da gravadora, foi uma percepção de Ana Paula Valadão? 

Ana Paula é uma cantora carismática (em mais de um sentido). Quando respondia às perguntas do Faustão com aquela vozinha meiga nem parecia a pastora que adentra o terreno do êxtase com a mesma facilidade com que sai dele. Talvez por isso haja a crítica às performances teatralizadas da cantora. Quem não se entrega aos seus arroubos emocionados, acaba achando que ali tem muito teatro. Seria uma espécie de encenação da contrição. Olhos fechados, voz chorosa, gestos dramáticos: os DVDs do Diante do Trono estão repletos de cenas assim.

Por que no Domingão do Faustão isso não aconteceu? Por que a cantora não irrompeu no "falar em línguas"? Seria para não espantar os telespectadores não-evangélicos (ou mesmo parte dos evangélicos)? Ou o tempo no programa foi curto?

Quem estava acostumado a ouvir as longas repetições das canções do Diante do Trono viu na TV algo do tipo "Querida, encolhi as canções". O grupo esteve 15 minutos ao vivo no Faustão. Como esse é o tempo que eles levam pra terminar uma só música, certamente tiveram que encolher as canções.

Sem as repetições, as músicas ficaram mais agradáveis. Particularmente, não sou apreciador do estilo do Diante do Trono. Não por causa das letras simples. "Deus é tão bom" é pequena e simples e é bonita. Apenas aprecio outro tipo de música cristã, dou valor a outros quesitos musicais e teológicos. Embora isso não faça de mim um cristão mais justo do que aquele que esteve na multidão em Barretos para a gravação do dvd do Diante do Trono.     

Não há problema algum em cantores cristãos irem aos programas da TV secular. Tem que ir mesmo e estar pronto para falar e cantar. E Ana Paula Valadão esteve contida, com uma expressão simpática, falando sobre seu ministério religioso-musical. Mas a proposta de atingir o maior número de pessoas (o que é bom) levou a cantora a dizer que existe uma igreja para cada tipo de comportamento que se quer manter (o que é ruim). O cristianismo fica parecendo uma vitrine self-service: o cardápio doutrinário fica a gosto do freguês, digo, fiel. E se não agradar, abra-se outro restaurante, digo, igreja. Depois, ela acabou chamando os "adoradores apaixonados" de "fãs". Fecha-se o elo: o fiel se transforma em fã porque trata seu irmão como um ídolo. E vice-versa.

No entanto, a novidade é a senhora da indústria do entretenimento. O que hoje é fashion amanhã acordará obsoleto. Até outro dia era o Padre Marcelo Rossi e sua "aeróbica do Senhor", lembra? Agora é Aline Barros e Diante do Trono. Daqui a cinco, dez anos serão outros. A fila anda.

Que ninguém se iluda de que a grande mídia está abrindo as portas diretamente para o evangelho. Dick Asher,  executivo da CBS, disse certa vez: "Não vou fingir que estamos aqui por alguma explosão de fé religiosa. Estamos aqui pelo potencial de vender discos no mercado gospel". As redes de TV "abrem as portas" pelo mesmo motivo. Então, que os cristãos possam ter sabedoria para falar da sua fé e para cantar do Verbo sem se deixar encantar pelas verbas.

21 outubro, 2010

música encurta viagem

Entre as tantas lendas que cercam os lendários escritores brasileiros, tem uma que conta que o poeta Manoel de Barros estava num barquinho a deslizar no macio de um rio pantaneiro e de repente avistou no convés ninguém mais ninguém menos que Guimarães Rosa. E Rosa mirava o rio. E escutava os sons dos pássaros na margem do rio. Talvez já elocubrando, por que não?, os contos de A Terceira Margem do Rio. Sem saber como se aproximar e como se dirigir ao colega de profissão, Manoel de Barros chegou  mais perto e disse: "Passarinho encurta viagem, não?"

Na cidade, que não tem barquinho mas tem busão, viajamos quilômetros intermináveis. No carro ou no metrô ou no trem, ou tudo isso junto, estamos sempre apertados. Ninguém passa. Nem o tempo. Nessa lentidão arrastada das horas, sem passarinho, resta-nos a música. No trânsito, a música é o melhor amigo do homem.

Quer dizer, às vezes. Se é você quem escolheu o repertório que vai nos seus fones, tudo bem. Pra quem gosta, dá até pra escutar a tal canção do barquinho a deslizar no macio azul do mar. É um contraste saudável para o corre-corre das manhãs lotadas.

Mas se é o seu próximo, e o seu próximo faz questão de celebrar seu próprio gosto musical, e nas lotações os próximos da gente sempre estão próximos demais e nunca têm o mesmo gosto musical da gente, e se esse mesmo dito próximo resolve escutar sem fone o último sucesso do pop-sertanejo, é hora de exercer a paciência dos santos com toda a tua alma e com todo o teu entendimento. Ou então, aumente o volume do seu fone e continue a deslizar.

Em minhas viagens semanais, acabei aderindo aos fones. Tanto que agora, quando me perguntam qual a distância da Estação Campo Limpo à Barra Funda, eu digo: "Dois CDs de doze músicas cada". E de São Paulo à Curitiba? "De avião, pouco menos de um CD. De ônibus, é bom levar sua coleção inteira dos Arautos do Rei".

Voltando ao encontro dos dois escritores lá na cumeeira dessa postagem, não sei se eles se tornaram grandes amigos com aquele início de conversa. Mas com uma companhia dessas quem é que precisa de música e passarinho para passar o tempo?


Imagem daqui.

18 outubro, 2010

comentários à carta de Marina

Em sua epístola aberta aos dois candidatos que disputam a presidência da República, Marina Silva mostra sua estatura ética e sua vereda política. Não é uma carta-bomba. É uma carta que mais parece um bilhete da professora. Como os dois candidatos estão se comportando como alunos em briga de recreio, bem que merecem ouvir. E nós também (Só pesquei e comentei em itálico alguns trechos. A íntegra da carta está aqui).


“Quero afirmar que o fato de não ter optado por um alinhamento neste momento não significa neutralidade em relação aos rumos da campanha. Creio mesmo que uma posição de independência, reafirmando ideias e propostas, é a melhor forma de contribuir com o povo brasileiro”.

Marina fez bem em não alinhar-se a nenhuma candidatura. Ficou do lado certo. O seu. Se ela volta ao PT, vai parecer uma traição aos ex-petistas indignados com a corrupção ativa e passiva no governo. Se ela se aproxima de Serra, suas propostas ambientalistas não ecoam na bancada ruralista do DEM de Ronaldo Caiado e Kátia Abreu.

“É uma ironia da História: dois partidos [PT e PSDB] nascidos para afirmar a diversidade da sociedade brasileira, para quebrar a dualidade existente à época de suas formações, se deixaram capturar pela lógica do embate entre si até as últimas consequências.
A agressividade de seu confronto pelo poder sufoca a construção de uma cultura política de paz e o debate de projetos capazes de reconhecer e absorver com naturalidade as diferentes visões, conquistas e contribuições dos diferentes segmentos da sociedade, em nome do bem-comum”.

O pior é que muitos eleitores de ambos os candidatos entendem a eleição como um torcedor de futebol.  São como aquele torcedor que é mais antivascaíno que pró-flamenguista. Experimente acompanhar uma eleição pelas redes sociais (twitter, orkut) para ver a que extremos de polarização chegam os partidários. Dá pra ver a saliva escorrendo de ódio quando um desses retuita uma baixeza. Voltemos à carta, que Marina diz melhor.

“A permanência dessa dualidade destrutiva é característica de um sistema politico que não percebe a gravidade de seu descolamento da sociedade. E que, imerso no seu atraso, não consegue dialogar com novos temas, novas preocupações, novas soluções, novos desafios, novas demandas, especialmente por participação política.
Paradoxalmente, PT e PSDB, duas forças que nasceram inovadoras e ainda guardam a marca de origem na qualidade de seus quadros, são hoje os fiadores desse conservadorismo renitente que coloniza a política e sacrifica qualquer utopia em nome do pragmatismo sem limites”.

As campanhas do PT e do PSDB fugiram do principal. A primeira pergunta de Serra no primeiro debate do 2º turno foi se Dilma acreditava em Deus. Fernando Henrique Cardoso perdeu uma eleição em São Paulo porque disse que era ateu. A mulher de Serra disse que Dilma mata criancinhas pois seria a favor do aborto. Ruth Cardoso jamais diria que a candidata do PT é uma Herodes comunista a favor da matança de inocentes. Dilma agora deu pra falar mal das privatizações do PSDB. Privatizações aquelas que permitem hoje que ela tenha um celular fácil em vez de uma linha telefônica com preço de carro importado. E assim caminham as duas campanhas, dando corda a spams fundamentalistas e rebaixando as conquistas uns dos outros na disputa pelo trono.

“E quem tentou desqualificar principalmente o voto evangélico que me foi dado, não entendeu que aqueles com quem compartilho os valores da fé cristã evangélica, vão além da identidade espiritual. Sabem que votaram numa proposta fundada na diversidade, com valores capazes de respeitar os diferentes credos, quem crê e quem não crê. E perceberam que procurei respeitar a fé que professo, sem fazer dela uma arma eleitoral.
Os exemplos de cristãos como Martin Luther King e Nelson Mandela e do hindu Mahatma Ghandi mostram que é possível fazer política universal com base em valores religiosos. São inspiração para o mundo. Não há porque discriminar ou estigmatizar convicções religiosas ou a ausência delas quando, mesmo diferentes, nos encontramos na vontade comum de enfrentar as distorções que pervertem o espaço da política”.

Marina assume-se não enquanto liderança evangelizante ou cristianizante, mas como liderança evangélica, cristã, que traz a religião como estilo de vida e não como suporte ideológico. E se Silas Malafaia não a apoia, isso só melhora o currículo de Marina.   

“Não se trata apenas de ter políticas ambientais corretas ou a incentivar os cidadãos a reverem seus hábitos de consumo. É necessária nova mentalidade, novo conceito de desenvolvimento, parâmetros de qualidade de vida com critérios mais complexos do que apenas o acesso crescente a bens materiais.
O novo milênio que se inicia exige mais solidariedade, justiça dentro de cada sociedade e entre os países, menos desperdício e menos egoísmo. Exige novas formas de explorar os recursos naturais, sem esgotá-los ou poluí-los. Exige revisão de padrões de produção e um fortíssimo investimento em tecnologia, ciência e educação”.

Esse é o Desenvolvimento Sustentável para Marina. Mas para os críticos, isso tudo parece a política de Avatar. E como Brasília não é Pandora, Marina quando ministra encontrou forte resistência para aplicar seu pensamento.

“De José Serra guardo a experiência de ter contado com sua solidariedade quando, no Senado, precisei de apoio para aprovar uma inédita linha de crédito para os extrativistas da Amazônia e para criar subsídio para a borracha nativa. Serra dispôs-se a ele mesmo defender em plenário a proposta porque havia o risco de ser rejeitada, caso eu a defendesse. Com Dilma Rousseff, tenho mais de cinco anos de convivência no governo do presidente Lula. E, para além das diferenças que marcaram nossa convivência no governo, essas diferenças não impediram de sua parte uma atitude respeitosa e disposição para a parceria, como aconteceu na elaboração do novo modelo do setor elétrico, na questão do licenciamento ambiental para petróleo e gás e em outras ações conjuntas.

Estou me dirigindo a duas pessoas dignas, com origem no que há de melhor na história política do país, desde a generosidade e desprendimento da luta contra a ditadura na juventude, até a efetividade dos governos de que participaram e participam para levar o país a avanços importantes nas duas últimas décadas.

Por isso me atrevo, seja quem for a assumir a Presidência da República, a chamá-los a liderar o país para além de suas razões pessoais e projetos partidários, trocando o embate por um debate fraterno em nome do Brasil. Sem esconder as divergências, vocês podem transformá-las no conteúdo do diálogo, ao compartilhar idéias e propostas, instaurando na prática uma nova cultura política”.

Esse diálogo algum dia poderá acontecer? Algo de podre está no coração humano quando achamos que a proposta de diálogo pelo bem comum parece ingenuidade. Mas Marina justifica:

“A utopia, mais que sinal de ingenuidade, é mostra de maturidade de um povo cujo olhar eleva-se acima do chão imediato e anseia por líderes capazes de fazer o mesmo. Que Deus continue guiando nossos caminhos e abençoando nossa rica e generosa nação.
Marina Silva”

Mais:
A íntegra da carta, aqui.

Um pouquinho mais:
Marina, o bispo e o banqueiro


15 outubro, 2010

a forma e a essência da adoração

A Revista Adventista de setembro traz uma entrevista que merece reflexão e ação por parte dos líderes e músicos da igreja. O entrevistado, Edemilson Cardoso, pastor da Capital Brazilian Temple, em Washington DC, diz que precisamos repensar nossos modelos litúrgicos. Ele vê que o caminho para o reavivamento dos cultos passa por uma vida de comunhão e pelo resgate dos elementos bíblicos na adoração. Mas ele não descarta os recursos e formas musicais contemporâneas de expressão.

Transcrevo a seguir alguns pontos da entrevista (especialmente os tópicos sobre música).

Importância da música para a igreja
Na maioria dos reavivamentos pelos quais o povo de Deus passou, o ministério da música foi restaurado. Davi, por exemplo, foi o que reestruturou da melhor maneira possível a adoração do seu tempo [...] Também em períodos como a Reforma e o reavivamento americano no século 19, a música acompanhou a Palavra de Deus e novas músicas foram compostas.

Hinos tradicionais e adoração contemporânea
A hinódia tem sua importância porque nos conecta com o legado da igreja. Porém, temos que abrir espaço para os salmos e cânticos espirituais do nosso tempo. Cantamos hinos de movimentos do passado, que têm valor histórico mas não representam a experiência de hoje. É necessário a atualização constante de hinários, para que eles representem o movimento do Espírito de Deus sobre cada geração. 

Música vocal e música instrumental
O pastor Edemilson concorda que a maior valorização da produção vocal, em detrimento do estudo do instrumento musical, limita a adoração na igreja, onde são usados cds e dvds em demasia. Ele diz: Em vez de gastar energia discutindo qual instrumento deve ser utilizado, deveríamos investir esforço e recursos financeiros para treinar jovens instrumentistas.

Remuneração de um ministro da música na igreja
Durante a reconstrução de Jerusalém, os levitas foram reconduzidos ao cargo de músicos. Eles deixaram a agricultura para voltar ao templo a fim de educar o povo na teologia e na música. Qual a importância disso? 1) o músico pode auxiliar o pastor na preparação de programas mais adequados para a igreja, integrando pregação e cânticos; 2) Alguém remunerado pode dar aulas e formar novas gerações de músicos. Quando não se pode ter alguém exclusivo, um ministro de música por Associação poderia educar os voluntários nas igrejas locais, de acordo com a visão bíblica de adoração e louvor.

Formato contemporâneo para a liturgia
É importante que se fale uma linguagem que todos entendam, evitando jargões. A ordem do culto é importante, mas ela não deveria sobrepor-se à adoração. Encontrar o equilíbrio entre formalidade e informalidade é o segredo. [...] Como a questão da ordem do culto não é mandatória bíblica, eu acredito que Deus deu a liberdade de as igrejas entenderem o grupo com que estão trabalhando [a fim] de descobrir como tornar o culto mais relevante para seu contexto.

O lugar da adoração na vida
A adoração é mais do que culto, é um estilo de vida de quem decidiu seguir a Jesus. Não adianta a pessoa passar a semana longe de Deus e procurar compensar esse "déficit" de adoração no sábado. A experiência com Deus não acontece assim. No culto, não apenas recebemos bençãos de Deus, também entregamos a Ele a vida como oferta.

*****
Nota na pauta:  Embora os conteúdos bíblicos sejam os mesmos e a mensagem continue a mesma, a linguagem precisa ser adaptada não a um país inteiro, mas a cada contexto local. Como tornar a velha e feliz história de salvação em algo relevante para gerações nascidas em tempos de ceticismo e entretenimento globalizado? Se estudamos como a internet e os novos meios de comunicação podem ser usados para a evangelização, então a música não pode ser tratada como um acessório, mas como uma ferramenta que precisa ser implementada com estudo e comunhão, que traduza as experiências espirituais do cristianismo contemporâneo, que seja relevante musicalmente e teologicamente para os peregrinos modernos.
    

11 outubro, 2010

a música que não deixa a gente trabalhar

“Não conheço nada mais grandioso do que a Apassionata. Gostaria de ouvi-la todo dia. É uma música maravilhosa, sobre-humana... Mas eu não posso ouvir música com muita frequência, ela me faz mal aos nervos, deixa-me querendo dizer coisas gentis, estúpidas, afagar a cabeça de pessoas que, vivendo nesse mundo tão vil, podem criar tamanha beleza”.

Sabe quem disse isso? Lênin. O comandante da revolução russa não podia ouvir música muito bonita. Se ouvisse, capaz que não fizesse mais revolução coisíssima nenhuma. O que teria sido muito melhor, convenhamos.

Mas dá pra entender o camarada Lênin. Outro dia de manhã cedo tentei trabalhar ouvindo o CD “La legende du piano”. Impossível. Não há escriba que se concentre com as lindezas melancólicas de Chopin. Fui olhar o encarte. O CD tinha um sonata do Scarlatti em fá sustenido menor, uma fantasia de Mozart em ré menor, um prelúdio de Chopin em mi menor, mais Chopin em dó menor, um Tchaikovsky em si bemol menor. Tudo em tom menor. Não era à toa que meu espírito já estava ficando sorumbático como o de um vampiro vegetariano.

Ouça Martha Argerich tocando o Prelúdio nº 4 em Mi menor, de Chopin:

08 outubro, 2010

o getsêmani de todos nós

É num jardim, é noite.
Um homem ora. Dilacerado
Chora
Calem a música, desliguem o riso
Um homem chora num jardim

Seus amigos são os galhos
Sua casa está muda
Seu quinhão, as pedras
Sua casa está cega

Que Pai é esse?
Que paisagem é essa?

Não se entra no Getsêmani para colher flores.
Ali, os joelhos se dobram
É onde se grita sem voz
Lá não há para ti um palco iluminado
Ali se entra descalço e sem gravata.

Eu fui ao Getsêmani e não te encontrei
Mas eu orei por ti
Porque todos têm que passar algum dia
De alguma forma pelo jardim

E quando chegares
Virás com os paredes dos sonhos no chão
E verás com outros olhos, com os olhos do céu,
Que o jardim não seca o ribeiro de lágrimas,
Que o jardim é só outro lado da página
Onde leio o sentido da vida com Deus.

o getsêmani de todos nós
Joêzer Mendonça, fins de setembro, pensando nas dores da irmã, lembrando das dores do Irmão.

04 outubro, 2010

e o vencedor é...


Marina foi a grande vencedora dessas eleições. Será mesmo? Derrotou a candidata do PT e agora será cortejada como uma rainha Elizabeth pelo PSDB. Ela, Marina morena, foi a responsável pelo segundo turno e não a coordenação descoordenada da campanha de José Serra.

Talvez ela seja a grande vencedora. Mas, dos motivos que a levaram ao segundo turno, somente um vale a vitória: a indignação do eleitor com a corrupção petista no governo federal e com o comportamento de Lula na campanha pró-Dilma. O outro motivo é torpe como são torpes todas as calúnias: a satanização de Dilma. Começando pela senhora, Dona Veja, pelos senhores, Folha de S. Paulo e Estadão. Não inventaram fatos, mas exageraram relatos como duas comadres conversando da janela.

Noves fora os mitos e mil spams. Um dizia que Dilma mata criancinhas porque seria a favor do aborto. Outro dizendo que Dilma seria a favor do casamento gay já para ontem. Como se ela fosse correndo oficiar uma cerimônia coletiva de saída de armário como nunca antes na história da República. 

Mas a coisa degringolou mesmo quando os evangélicos entraram de vez na eleição. Pastores transformando púlpito em palanque. Blogueiros e tuiteiros partindo para a baixaria de segunda a sexta. No sábado, tuitavam #tags com temas cristãos. Como se já não fosse suficiente a quantidade de falsos profetas que enlameiam a política e envergonham o evangelho, chegaram a inventar que Dilma falou que "nem Cristo tiraria sua vitória". Ressuscitaram até aquela lorota em que o comandante do Titanic teria dito que nem Deus afundaria o navio.

A gente aqui trabalhando por um Estado laico e de repente eu vejo uma comitiva de bispos, pastores e apóstolos obrigando a candidata a dar explicações de que não fará isso, não fará aquilo. Não foram aos políticos para estudar a Bíblia ou para discutir liberdade religiosa. Foram impor suas doutrinas aos políticos. 

 Mas não duvide que Serra e Dilma não irão correndo até Marina fazer o beija-mão. É capaz que ambos prometam reflorestar a Avenida Paulista e a usina de Angra. Mas se ela apoiar a Dilma, os eleitores evangélicos e os eleitores antipetistas se decepcionarão. Se ela apoiar o Serra, ela terá que engolir a bancada ruralista do DEM. Seu próprio futuro está em jogo.

Por isso, acho que o melhor que Marina faz numa hora dessas é declarar neutralidade. Embora apareçam o prefeito de joelhos, o bispo de olhos vermelhos e o banqueiro com um milhão, não vá com eles não, Marina.

01 outubro, 2010

todas as músicas do mundo



O que é música? Para dois músicos do filme Todas as Manhãs do Mundo, a música tem um valor diametralmente oposto. Sainte-Colombe é um mestre na arte de tocar viola da gamba. Admirado pela corte francesa do século XVII, Sainte-Colombe torna-se um recluso quase intratável  após a súbita morte da esposa. Um homem rude, mas dotado de transbordante criatividade. Passa a tocar solitariamente e dá aulas apenas para suas duas filhas. Resistindo aos convites para tocar na corte, ele reage asperamente: “Prefiro minhas roupas de pano às vossas perucas da moda. Prefiro as minhas galinhas aos violinos do rei”.

O outro músico é Marin Marais, jovem que procura o mestre Sainte-Colombe com a intenção de ser seu discípulo musical. A relação entre eles será sempre tempestuosa. O talento, a dedicação e a visão de mundo de ambos os músicos estará separada por um abismo de consagração: o aluno quer exibir-se para a corte, o mestre quer tão-somente tocar música. Sainte-Colombe: “Jovem senhor, vós fazeis música. Mas não sois músico”. E dirá também: “Senhor, vós agradais a um rei visível. Eu aceno com a mão para algo invisível”.

Quando os anos transcorrem e a placidez da maturidade faz assentar a poeira da soberba juvenil, um agora idoso Marais percebe que foi iludido pelo fogo-fátuo do virtuosismo e do exibicionismo relembra dolorosamente que não tem prazer algum na sua velhice de fama e fortuna na corte. É quando volta ao antigo mestre e, ambos, enfim, retomam o diálogo perdido:

“Senhor, o que procurais vós na música?” – lhe pergunta Sainte-Colombe.

“Procuro os lamentos e as lágrimas” – responde Marais.

Ou então:

“A música nos serve para falar somente aquilo que a palavra não é capaz. Assim, ela não é completamente humana. Descobriste, então, que ela não é para o rei?”

E ambos tocam Le Pleurs (Os prantos), de Sainte-Colombe, música que traduz a intensidade emocional do momento.

Amadeus e O Segredo de Beethoven são filmes sobre personagens musicais. Todas as Manhãs do Mundo é um filme onde a música é o personagem central.  O sentido da arte é o que está em cena.

É como se a história nos perguntasse ao final: “De que vale ganhar o favor do rei e perder a alma?”. Não é que seja fácil ganhar a admiração popular. Porém, mais difícil é fazer a música que não grita, que não busca a emoção gratuita e os favores de um público ávido por fortes sensações musicais, que podem até ser muito divertidas, mas não são belas. O mundo, a rua, a igreja, a sala de concerto e o palco estão repletos de gafanhotos da música. São os que fazem grande alarido, mas apenas berram, devoram e se vão. São esses que fazem música, mas não são músicos. São esses que acenam para um público visível e enlouquecido por fotos, autógrafos e souvenirs – é o público que vai ver o ídolo e não ouvir uma música.

Num discurso para formandos do Conservatório de Música do Rio de Janeiro, Mário de Andrade, que lecionava ali, disse: "Quando pergunto aos alunos o que vieram fazer aqui, todos dizem: Vim estudar piano; vim estudar violino, e assim por diante. Nunca encontrei um que dissesse: Vim estudar música.

É assim ainda. Muitos querem ser cantores, regentes e instrumentistas. Mas quantos querem fazer música?

Dia 01/10: dia internacional da música