31 dezembro, 2008

Pra não dizer que não falei do novo ano

Ano novo. Vida nova? Muita gente vai pular sete ondas, vestir roupa nova e branca, rezar três Ave Marias, acender um incenso, fazer uma corrente, abrir champanhe, dar um beijo durante os fogos da TV. Com exceção do beijo (não necessariamente durante os fogos de Copacabana – prefiro os daqui da vizinhança mesmo), não consigo acreditar no resto. Se o ano novo é encarado como um ritual de passagem, que seja um ponto de partida para o auto-aperfeiçoamento e não como aquelas resoluções de segunda-feira. Toda segunda-feira tem alguém começando o regime, a malhação, a boa vontade entre os homens. Na quinta, já estão quase todos obesos, flácidos e iracundos como dantes.

Resoluções que dão certo começam no minuto posterior a tomada de decisão. Carpe diem, aproveitem o dia, como dizia o professor Robin Williams em sociedade dos poetas mortos. Mas, como vivemos no país que sempre deixa para amanhã o que devia ter feito ontem...

No ano que se vai, completei bravamente (ok, nem tanto) um ano sem carteira assinada e a experiência me deixou ainda mais perto dos meus filhos. Entre um varrer de casa e um estender de roupas, sobrou tempo para a correção e o ensino. E, claro, para umas jogadinhas no Playstation que nenhum homem-do-lar é de ferro. Calma, profetas. Este jogo tinha dia e hora pré-determinadas e rolava também o futebol real com a petizada, embora as frias tardes de Curitiba nos implorassem pelo futebol virtual.

Falando em virtual, a internet me deu a chance de conhecer (no que é possível conhecer via web) pessoas como André Gonçalves, Douglas Reis, Jayme Alves, Michelson Borges e Matheus Siqueira. Gente de fina estirpe de pensamento que me deu o privilégio do diálogo. Paro por aqui ou essa postagem não termina (também agradeço as palavras gentis de Regina Mota, Cândido Gomes, Sérgio Maia, Lívia, Marla, Danilo, Leonardo Martinelli, Daniel Spencer e Levi Tavares).

Amigos face a face também os houve, certamente, que sou mestrando mas não moro num mosteiro com internet wireless. A música me possibilitou a alegria de reencontrar César Marques (fui seu colega de quarto num curso de música no longínquo verão de 98 no UNASP), acompanhar ao piano o craque Allan Breno, ouvir o grupo Amor em Voz cantando minhas canções (singelas, ops, mas de coração) e ter a amizade de Daniel Salles – no início, eu sem coral, ele sem pianista, o inesperado nos fez uma surpresa e virei pianista do Curitiba Coral (hum, pianista é muito. Pianeiro, amigo acompanhador ou coisa que o valha).

Não creio em reformas de sistemas e estruturas sociais sem uma revolução moral e espiritual no coração dos homens e mulheres. Então, façamos do ano que vem um ano melhor do que este que se vai sem nos esquecermos do Deus que nos quer dar não um ano novo, mas um novo coração.

A todos os que, recomendados ou inadvertidamente, conheceram este blog e seu escriba,

um feliz VOCÊ em 2009!

P.S.:Volto a escrever no blog a partir do dia 05 do novo ano. É uma segunda-feira? Tudo bem, esta não é uma resolução de ano novo.

29 dezembro, 2008

Meninos, eu vi [livros]







O ano da graça de 2008 já se vai sem deixar muitas saudades na área cultural. O que, de grandioso, de excelente, se realizou? Como sou daqueles que elegem as novidades de ontem em vez das velharias de hoje, o que li, assisti e ouvi nem sempre foi o último grito da moda cultural, porque preferi atracar no porto seguro de livros, filmes e músicas até com mais idade que eu (principalmente em se tratando dos dois últimos itens).

Com a permissão de Gonçalves Dias, de quem empresto o famoso “Meninos, eu vi” do épico I-Juca Pirama, segue uma lista avarenta de atividades culturais, começando pelos livros. Poucos, mas bons.

Meninos, eu li

Música, história cultural, mídia e sociologia da religião foram as áreas mais acessadas. Até porque a gravidade de uma dissertação não me permite outros cuidados. Ou se a termina ou ela nos extermina. Por isso, destaco obras como A religião na sociedade pós-moderna, de Stefano Martelli, e o já clássico A sociedade do espetáculo, de Guy Debord e sua leitura pessimista e apocalíptica da relação mídia-espectador. Ambas, para ler com distanciamento crítico mais que apurado.

Enfatizo também Reading Pop, edição organizada por Richard Middleton que é ótima introdução ao campo da análise textual da música popular, e Hibridismos Musicais, de Herom Vargas, que parte da cena musical recifense de meados dos anos 90 para explicar as misturas culturais que estão no caldo da invenção musical popular.

No estudo da música gospel nacional, ponto central da minha pesquisa, Magali Cunha, professora da Universidade Metodista (SP), publicou sua tese com o título Explosão Gospel, uma investigação vigorosa dos traços de uma cultura gospel identificada com o consumismo e o mercado. Já no livro Apostles of Rock (sem tradução no Brasil), os autores Jay Howard e John Streck dissecam as estruturas do gospel norte-americano ao examinar seu desenvolvimento e sua interação com a cultura pop bem como o diversificado entendimento dos músicos cristãos sobre a música (incluindo aquela visão excessivamente utilitária da música).

Fora do âmbito da dissertação, no campo da religião destaco Ortodoxia, de G. K. Chesterton, pensador católico que, no início do século XX, era um inteligentíssimo apologista do cristianismo, e Mensageira do Senhor, de Herbert Douglass, um exame acurado, amplo e essencial para se compreender a vida digna e a natureza da obra da escritora adventista Ellen White.

Sobrou tempo para ler (de tempo não pude reclamar) O Som e o Sentido, de José Miguel Wisnik, um escritor que cumpre o que promete no subtítulo, a saber, apresentar “uma outra história das músicas”; e, ainda Vida Líquida, do meu sociólogo de cabeceira, como disse o amigo virtual Douglas Reis.

A dissertação ocupou quase o total da literatura a que tive acesso. Assim, nunca li tão pouca ficção desde que devorei a coleção de Jules Verne do meu pai nos antediluvianos anos 80. Os dois únicos: Os Tambores de São Luís, de Josué Montello, com o período da escravidão na capital maranhense servindo de fundo para a emocionante história pessoal de um ex-escravo, e a releitura - interrompida - de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, escritora que sabia dosar como poucas uma aguda inteligência na condução dos romances e uma fina ironia na observação dos costumes sociais (comecei a reler esse livro por causa de um ótimo filme homônimo baseado nessa obra).

Para 2009, desejo a todos nós happy new books. Mas, acima de tudo, que possamos desenvolver felizes olhos novos e deixarmos este ensaio de uma cegueira em que vivemos a fim de enxergarmos com os olhos da razão onde a razão é necessária e com os olhos da fé quando a fé está esquecida.

Acima, serigrafia de Amir Brito Cadôr (à direita) sobre detalhe de pintura de Boticelli (à esquerda).

24 dezembro, 2008

o blog volta no dia 29

Desejando boas festas e celebrações a todos os amigos do nota na pauta, voltarei só no dia 29 com uma lista de melhores livros e músicas a que tive acesso em 2008.

E que Cristo, e não o 'espírito de natal', esteja conosco!

22 dezembro, 2008

Falecimento de Samuele Bacchiocchi

Um dos gigantes da erudição bíblica, o Dr. Samuele Bacchiocchi faleceu no sábado, dia 20, aos 70 anos de idade. Professor de teologia aposentado da Andrews University, no Estado do Michigan, passou seus últimos momentos em casa com a esposa e seus três filhos, na véspera do aniversário de 47 anos de casamento.

Bacchiocchi foi o primeiro não-católico a formar-se na Pontifical Gregorian University em Roma, tendo recebido uma medalha de ouro do Papa Paulo VI por conquistar a distinção acadêmica summa cum laude. Sua tese: “From Sabbath to Sunday: A historical investigation of the rise of Sunday observance in Early Christianity” (Do sábado ao domingo: uma investigação histórica do surgimento da observância do domingo no cristianismo primitivo).

Nesse trabalho, Bacchiocchi, um adventista do sétimo dia, mostrava que não havia nenhuma ordem escriturística para mudar ou eliminar a guarda do sábado e apontava o papel preponderante da Igreja Católica na efetivação dessa mudança.

O professor indicava ainda o anti-judaísmo e a adoração pagã ao sol como fatores de abandono do sábado e influência na adoção do domingo. Ele evidenciava o anti-judaísmo latente nos escritos de alguns líderes cristãos do segundo século que “testemunharam e participaram no processo de separação do judaísmo que levou a maioria dos cristãos a abandonar o sábado e adotar o domingo como novo dia de adoração”.

Bacchiocchi apontou também a influência do culto pagão ao sol como “explicação plausível para a escolha do domingo” e cujo efeito teria se estendido a marcação do Natal como data do nascimento de Jesus. “A adoção do dia 25 de dezembro como celebração do Natal é talvez o exemplo mais explícito da influência do culto ao sol sobre o calendário litúrgico cristão”, escreveu Bacchiocchi. “É conhecido o fato de que a festa pagã do Dies Natalis Solis Invicti – o dia do nascimento [aniversário] do Sol Invencível, acontecia naquela data”.


Entre outras publicações, Bacchiocchi também foi organizador do livro Christian and Rock Music. Autor de sete dos doze capítulos da obra, Bacchiocchi faz uma análise dos aspectos filosóficos, éticos, sociais e religiosos do rock e procura oferecer uma resposta cristã aos valores predominantes propagados pelo rock. O livro rema na contramão da corrente moderna que faz uso evangelístico da música pop e critica o utilitarismo do proselitismo religioso.

Alguns capítulos ou pontos da pesquisa podem ser vistos como conservadores ou até mesmo destoantes dos estudos culturais contemporâneos ao negar um posicionamento ativo do espectador/ouvinte de música pop e de música gospel. Porém, os argumentos de Bacchiocchi para uma teologia da música adventista (capítulo 6) são pertinentes e válidos como reflexão sobre os usos e recursos da música na igreja.

Os capítulos 10 (Música Popular e o Evangelho), escrito pelo Dr. Calvin Johansson, 12 (O rock e a Cultura), de Eurydice Osterman, e 13 (Música e Moralidade), escrito pelo erudito Wolfgang Stefani, oferecem boas pistas para o debate sobre a música pop no contexto cristão-evangelístico. Eles questionam a conformação musical cristã à estética musical pop, confrontando o meio e a mensagem da música das mídias.

Para além da discussão fundamentada em gosto pessoal, esses estudiosos buscam trazer luz para o debate, providenciando bases bíblicas e sociológicas para o esclarecimento de questões prementes.

Você pode ler uma tradução autorizada no site música e adoração.

19 dezembro, 2008

Falai de Deus

Como apresentar Deus para um mundo que é tão superficialmente religioso? Como falar de Deus para uma sociedade que celebra a inexistência de Deus? Quem ainda quer ouvir de religião, se tantos, em Seu nome, fazem da fé uma profissão, envergonhando o simples evangelho de Cristo, prometendo o paraíso para quem pagar mais e primeiro?

Como falar de Deus, se a cruz pende no colo da moça desnuda, se o bispo chuta a santa, se a santa é uma ilusão de pedra, se a primeira pedra é atirada pelo bispo? Como falar de Deus para o pobre que quer doar pra ficar rico e para o rico que se esqueceu de Quem lhe deu?

Por que tantos se escondem em músicas, vestes e enfeites e se disfarçam feito agentes secretos para que ninguém saiba da sua fé? Por que se escondem, por que não vivem o que cantam?

Quando falar de Deus, se tantos gritam Seu nome pelas ruas durante o dia e muitos só querem a embriaguez do entretenimento durante a noite? Por que ainda falar, se tantos O aceitam ao entrar na igreja e outros tantos O negam ao entrar em casa?

Entre as respostas possíveis estão os versos de Cecília Meireles:

Falai de Deus com a clareza
da verdade e da certeza:
com um poder
de corpo e alma que não possa
ninguém, à passagem vossa,
não o entender.

Falai de Deus brandamente,
que o mundo se pôs dolente,
tão sem leis.

Falai de Deus com doçura,
que é difícil ser criatura:
bem o sabeis.

Falai de Deus de tal modo
que por Ele o mundo todo
tenha amor
à vida e à morte, e de, vê-Lo,
o escolha como modelo superior.

Com voz, pensamentos e atos
representai tão exatos
os reinos seus,

que todos vão livremente
para esse encontro excelente.
Falai de Deus.

18 dezembro, 2008

A vez da música e a voz do coração

Meninos carentes e marginalizados, uma escola em ruínas, funcionários desmotivados, um diretor autoritário. Quem poderá salvar essa escola? Um professor obstinado e cheio de amor pra dar. Aliás, cheio de música pra cantar. O messias é quase sempre um professor de música, anônimo, rejeitado, uma abelhinha laboriosa capaz de transformar a escola e a vida dos meninos.

Esse é o argumento de filmes como Mr. Holland – Adorável Professor (1990), Música do Coração (1998) e de A Voz do Coração (Les choristes, França, 2004). Cada um desses filmes apresenta um cenário semelhante de desordem escolar e problemas individuais e juvenis.

No primeiro filme, Richard Dreyfuss é um professor de música perfeccionista que leciona numa escola pública que lhe disponibiliza uma sala específica e instrumentos para os alunos – no Brasil, isso seria uma realidade remotíssima.

Em Música do coração, uma professora de violino consegue montar uma pequena orquestra numa escola da periferia, a custo de muito suor e lágrimas (dos atores e dos espectadores). A grande atriz Meryl Streep evita a pieguice e injeta até certa rudeza na interpretação da violinista, o que a torna mais próxima de um ser humano. Porque convenhamos, é muito difícil ser como aquele professor de Sociedade dos Poetas Mortos o tempo todo.

Falando nisso, os professores brilhantes que fazem alunos vencedores são um híbrido da nobreza de Sidney Poitier em Ao Mestre com Carinho, do auto-sacrifício de Conrack e da simpatia do prof. Freddy Shoop em Curso de Verão.

Os franceses também têm seus problemas com educação escolar. E professores devem assistir à Quando Tudo Começa (1999) para confirmar que o assunto ‘educação’ foi relegado a segundo plano mesmo nos países do chamado Primeiro Mundo. Voltando para A Voz do Coração, que se passa na França em 1949, o professor Clement Mathieu irá, com todo o afeto que se encerra, mudar o caótico cenário que encontra na escola.

A música é usada pelo professor não apenas para aliviar a brutalidade a que os alunos são submetidos, mas também para fazer com que eles possam evitar o destino de delinqüência que os espera. Para alguns daqueles meninos, a música não é apenas uma saída. Mas a única saída para transcender aquele ambiente opressivo.

O filme é esquemático como todo filme edificante. Mas, peraí? Qual o problema com os filmes com mensagem edificante? Todo filme com mensagem é acusado pela crítica intelequitual de sentimentalismo e moralismo. Reconhecendo que muitos são assim mesmo, pergunto: Será que é necessário encher o filme de cortes e diálogos espertinhos, luzes e contraluzes, câmera trôpega e montagem não-linear, enfim, todo filme tem que ser feito com o barroquismo e o exagero insuportáveis da série Capitu, por exemplo?

A Voz do Coração quer apenas contar linearmente uma história e chamar a atenção para o valor da música como agente transformador. Esse filme não se dirige para os cínicos de plantão que ficam nas academias vivendo da “música pela música” enquanto a realidade cruel toma conta das comunidades em risco social. De fato, o filme tem lá suas pequenas fraquezas assim como há organizações fraudulentas que abusam da pobreza para faturar com seus projetos de inclusão social.

Mas há seriedade também, tanto no aspecto da civilidade desenvolvida com o auxílio da arte, como mostra o filme, quanto na luta cotidiana de profissionais da música envolvidos com crianças cuja saída (às vezes, a única) da situação em que se encontram está em fazer música, em tocar um instrumento na orquestra ou banda, em cantar num coral.

Como o maestro do recente (e brasileiro) Orquestra dos Meninos ou o professor de A Voz do Coração, há professores que não tem a pretensão de mudar o mundo ou ficar famoso com suas composições. Muitos deles querem apenas fazer valer o resultado de seu trabalho. E quando uma criança está envolvida numa orquestra ou num coral, ela pode estar começando a superar sua herança opressiva e recriar seu destino.

Atualização: o título do filme com Meryl Streep é Música do Coração, e não O Som do Coração, como eu havia postado anteriormente.

16 dezembro, 2008

Todo mundo odeia o Bush


George W. Bush sairá da vida na Casa Branca para entrar na história. Na história das anedotas e piadas. Algum outro presidente foi tão satirizado, criticado e odiado quanto o filho de George Bush I?

Qualquer Forrest Gump percebeu que o atual presidente passou os dois mandatos esforçando-se tenazmente para angariar o rancor e o ressentimento do mundo. Nenhum foi tão bem-sucedido em ativar o anti-americanismo latente em todas as nações que vivem na esquizofrenia de amar e odiar a América ao mesmo tempo.

Rememoremos algumas das peripécias de George W. Bush no comando da nave imperial:
1) Seus espias e arapongas não se prepararam devidamente para o súbito ataque terrorista de 11 de setembro.
2) Passou meses caçando em vão o inimigo público #1, Osama Bin Laden.
3) Fez da invasão ao Iraque um canteiro de obras para as empreiteiras ligadas ao lobby de políticos republicanos.
4) Chafurdou num atoleiro à la Vietnã ao subestimar a capacidade de retaliação iraquiana, cujos homens-bomba iletrados e desempregados são usados como literais buchas de canhão pelos islâmicos mais belicistas e fanáticos.
5) Foi acusado de negligência no socorro às vítimas do furacão Katrina.
6) Não ganhou mas levou a reeleição. Se isso tivesse ocorrido numa republiqueta sul-americana, a região teria sido infestada de inspetores da Transparency International.
7) Vai deixar o trono com o país financeiramente nocauteado. A culpa pelo caos econômico não é só de Bush. A política financeira americana vem há décadas abusando de períodos de vacas gordas, com pequenos sustos aqui e acolá. Como nenhum outro presidente fez o dever de casa antes, a crise estourou no colo de Bush. Nunca na história da república americana houve homem mais errado na hora mais errada no local mais errado.
8) Foi o marechal de Guantánamo, a terra sem lei.

Como se vê, se a ONU fosse o DETRAN, Bush teria sua carta de motorista da máquina americana tomada por imprudência, imperícia e negligência.

Depois de ser retratado (exageradamente, muitas vezes) como um político sem dotes, como um Jerry Lewis mais apalermado, como um Chuck Norris piorado, enfim, após tantos equívocos e subterfúgios, o homem chegou ao grau máximo de descrédito. Porque se não fossem seus movimentos friamente calculados, Bush teria levado uma sapatada de um jornalista iraquiano, que ainda o chamou pelo insulto sórdido de “cão”. Perto dos epítetos pelos quais a comunidade ocidental andou lhe chamando, o xingamento canino chega a ser reconfortante.

É triste ver um homem que não consegue fazer amigos. Se bem que, no Dia de Ação de Graças deste ano, Bush seguiu a tradição e perdoou um peru aliviando-o da panela certa. Pelo menos com um amigo ele poderá contar.

PS: eu demorei mais que vocês pra perceber que, na foto "Um presidente no jardim-da-infância" (na cumeeira desta postagem), Bush segura o livro em posição pouco ortodoxa.

15 dezembro, 2008

Cem Palavras: espetáculo e consumo

O espetáculo apresenta-se como uma enorme positividade indiscutível e inacessível. Ele nada mais diz senão que "o que aparece é bom, o que é bom aparece". A atitude que ele exige por princípio é esta aceitação passiva que, na verdade, ela já obteve pela sua maneira de aparecer sem réplica, pelo seu monopólio da aparência.

(Guy Debord, em A sociedade do espetáculo, p. 13)


O ideal da estética da mercadoria é justamente fornecer o mínimo de valor de uso ainda existente, atado, embalado e encenado com um máximo de aparência atraente que deve se impor, o mais possível, por empatia, aos desejos e ansiedades das pessoas.

(Wolfgang Haug, em Crítica da estética da mercadoria, p. 80)

12 dezembro, 2008

Música sacra através dos tempos


Entreouvido num auditório de uma importante universidade do interior paulista onde um grupo vocal acaba de testar a comunhão da platéia.
“Esse novo grupo está trazendo a música popular para a igreja. Música sacra era mesmo no tempo dos discos dos Heritage Singers”.

Em um templo dos anos 80:
“Esses Heritage Singers são a cópia dos Carpenters. Música sacra mesmo era nos tempos de Henry Feyrabend e os Arautos do Rei”.

Em uma igreja dos anos 60:
“Esses que se dizem Arautos do Rei são uns arautos é da tradição dos quartetos de barbearia dos Estados Unidos. Música sacra mesmo existiu nos tempos de Ira Sankey”.

Em um acampamento de reavivamento durante a Grande Depressão em 1929:
“Agora temos que cantar essas valsas de Ira Sankey. Só ouvi música sacra quando cantávamos os hinos de Lowell Mason”.

Em encontro de ministros de música americanos em 1890:
“Esse Lowell Mason imita a tradição européia daqueles músicos maçons. Bom mesmo é quando adaptávamos as canções tipicamente americanas de Stephen Foster”.

Em uma congregação na Chicago de 1860:
“Como podemos adorar com esse piano de cabaré e estas canções adaptadas do teatro de Stephen Foster? Ah, como era bom quando erguíamos nossa voz ao som dos hinos dos irmãos Wesley”.

Em uma palestra sobre música em 1800:
“Irmãos, abandonemos esse cancioneiro popularesco dos Wesley e adoremos com os antigos e sacros hinos do doutor Isaac Watts”.

Nos cultos dos recém-independentes americanos em 1776:
“Essas notas do irmão Watts ferem os ouvidos mais convertidos. Música sacra eram apenas os salmos de João Calvino. Oh, que belos hinos se cantam lá na Europa”.

Em uma igreja luterana alemã de 1730:
“O novo organista, o tal Bach de quem falam, tem um estilo um tanto ultrapassado e escreve notas demais nas suas cantatas. Por que ninguém compõe mais como Lutero?”

Em um concílio eclesiástico no século XVI:
“Esse Lutero destruiu a beleza da santidade da liturgia. Agora o povo anda a cantar melodias de cavaleiros”.
“E, como se não fora o bastante, cantam em língua de homens! Por isto e muito mais, excomunguemo-lo”.

Do lado de fora do templo de Salomão recém-inaugurado:
“É, a música é decerto boa. Mas o pai dele escrevia letras mais sacras”.
“Davi? Qual o quê! Fomos obrigados a cantar salmos com a melodia de ‘Os lírios’ ou de ‘Os lagares’, lembra?”.
“É que as pessoas aprendem um cântico novo mais rápido quando já conhecem a melodia”.

“Aquietem-se, os dois! Vós sois jovens em demasia. Se a ciência já tivesse se multiplicado eu vos mostraria uma gravação do tempo dos cânticos de Moisés. Aquilo, sim, é que era a verdadeira música sacra”.


Acima, a tela "Anjos cantando e tocando música", 1432, de Jan van Eyck.

10 dezembro, 2008

Intolerância musical

Por ouvir rap alto demais, homem é condenado a escutar música clássica

Uma punição estranha para um homem condenado por ouvir rap alto demais em seu carro. Uma juíza do condado de Champaign, em Ohio, determinou que o acusado, multado em US$ 150, poderia se livrar de parte substancial da multa caso aceite passar 20 horas ouvindo música clássica.

Andrew Vactor foi condenado por perturbar a tranquilidade na cidade de Urbana ao andar, em julho, com as janelas de seu carro abertas e o som do carro tocando rap no último volume.

Caso tivesse aceito a proposta da juíza, ele precisaria pagar apenas US$ 35 de multa. Vactor, no entanto, não aguentou ficar 15 minutos ouvindo Bach, Beethoven e Chopin.

Segundo ele, a música não era o problema. “Não tinha tempo para ficar cumprindo a pena. Decidi apenas pagar a multa”, afirmou. Vactor, 24 anos, afirmou que no dia proposto pelo juiz para a sessão de música clássica, ele teria que treinar basquete com sua equipe na universidade.

A juíza Susan Fornof-Lippencott disse que a idéia era obrigar Vactor a ouvir uma música que não fosse de seu interesse. Assim, ele se sentiria como boa parte dos moradores de Urbana, “obrigados” por ele a ouvir rap. “Ninguém gosta de ouvir algo forçado”, afirmou a juíza.

Fonte: G1

*****

Como disse a juíza, o problema é ter que ouvir uma música que não seja do interesse pessoal. O que só ocorre devido ao volume ensurdecedor da música que sai dos carros. E pode ser qualquer música. Uma coisa é certa, porém: quanto maior o sucesso de uma canção, maior a probabilidade de ela ser tocada em altíssimo volume. Para quem é intolerante aos gêneros musicais da moda, a audição à força é realmente um suplício.

O que leva uma criatura a aterrorizar a cidadela com seus cem mil alto-falantes? O exibicionismo mais rasteiro? A necessidade de transgressão gratuita? Ou a potência do som está só compensando algo que não ousa dizer seu nome?

É possível fichar o indivíduo médio que transita livremente contribuindo para o aumento da poluição sonora. É homem, entre 16 e 30 anos, não dirige sem óculos escuros (e os prende à testa nas horas vagas), tem um braço fixo na janela do carro, costuma cantar pneus e garotas à esmo, mais amante dos carros que dos homens, não tem intolerância à gaviões e aviões do forró, não morre de amores por calypsos - mas como seu alvo feminino sabe todas as coreografias de cor..., não pensa em processar Latino por danos à música e, graças ao volume sonoro que vem de seu carro e o anuncia de longe, sua reputação sempre o precede.

Schopenhauer disse que a sensibilidade do homem para a música varia inversamente de acordo com a quantidade de ruído com a qual é capaz de conviver. Ele estava dizendo que quanto mais somos seletivos musicalmente, mais nos sentimos incomodados por sons que perturbam o silêncio ou a audição concentrada.

Leia uma fábula menor sobre o último pedido (musical) de um condenado.

E também: "Os hits e os invasores de ouvidos" - partes 1 e 2

08 dezembro, 2008

Cem Palavras: a felicidade e as coisas

"Quando perguntaram a Sócrates: ‘Entre os homens mortais qual pode ser considerado o mais próximo dos deuses em felicidade?’, ele respondeu: ‘Aquele homem que carece de menos coisas’. Em sua resposta, Sócrates deixou a critério dos seus interlocutores saber se a falta de carecimentos que conduziria à felicidade significava a amplidão de posses ou a contração do desejo. E, de fato, existe tão pouca diferença entre eles que Alexandre, o Grande, declarou que aquele que tem um barril por moradia é o mais próximo do senhor do mundo e que, não fosse ele Alexandre, desejaria ser Diógenes".

(Samuel Johnson, 1753)

"As coisas de que o corpo precisa são facilmente obtidas por todos sem labor ou dificuldade; as coisas que exigem labor e são difíceis de obter e oneram a vida são desejadas, não pelo corpo, mas por um estado ruim da mente".

(Demócrito, século V A.C.)
Fonte: O Livro das Citações

05 dezembro, 2008

Fé cega sem futebol afiado

Jogos decisivos de futebol cansam de mostrar imagens de jogadores com as mãos para o alto. Alguns estão agradecendo. Outros, se perguntando por que, santo Deus, não me abençoaste agora e na hora do meu gol. Nas arquibancadas, o mesmo torcedor que despejou xingamentos impublicáveis para nossos ouvidos de Jane Austen, é capaz de, no instante da vitória, se tornar um cordeirinho de lábios puros e gratos ao Pai.

Dizia-se que, se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano só terminava empatado. Com a conversão fenomenal de jogadores ao cristianismo e a continuação da petição por milagres e bençãos, entende-se, então, que o campeonato brasileiro de 2008 vá terminar com 16 campeões. Sim, porque quatro do total de 20 clubes cairão para o limbo da segunda divisão onde rangerão dentes e canelas por muito tempo. Se teu time é um destes, não temas, nem te espantes, porque o lago de fogo da Série B não é eterno. Taí o Corinthians, recém-alçado ao paraíso da primeira divisão.

Porém, esse cenário de inferno-limbo-paraíso é uma metáfora muito católica para a maioria dos novos conversos do mundo da bola, que talvez não leram Dante e são evangélicos (Evangélico é a forma genérica que se refere à pentecostais e protestantes, apesar das muitas diferenças doutrinárias e comportamentais entre eles). Perdoada essa licença conceitual, adiante. Católicos seguem em romaria às capelas para pedir que os santos entrem em campo com eles, evangélicos vão aos cultos pedir a unção sobre suas luvas e chuteiras. Há quem, por via das dúvidas, se divida entre dois senhores e ainda agende uma consulta em tenda de astrólogo.

Os críticos vão dizer que Deus tem mais o que fazer do que ficar ajeitando pé torto de artilheiro ou esticando braço de goleiro. Para os atletas de Cristo, entretanto, Deus é fiel e justo no momento de honrar os que Lhe honram.

Talvez não haja diferença entre o taxista que ora antes de encarar um dia inteiro à espera de passageiros, o vendedor de livros que roga que Deus abra portas e corações, o empresário que pede pela abertura de bons negócios e o jogador que suplica pela benção quando adentra o estádio.

A chuva cai sobre justos e injustos, mas, ou o goleiro defende ou o atacante marca seu tento. Somente um dos dois sairá vitorioso dali. Para uns, será uma tarde de divina comédia. Para outros, uma tragédia grega. Aconteça o que acontecer, a reação do torcedor comum é de proporções bíblicas. A diferença pode estar em porque pedir e como receber a resposta.

Uns tratam a fé como um amuleto. Técnicos carregam seus terços nos bolsos e os apertam na hora do sufoco. Boleiros vestem uma camisa com dizeres do tipo “100% Jesus”, mas treinaram pouco durante a semana. É como a estudante agoniada no vestibular que implora pelas respostas certas sem ter estudado o suficiente.

Esse domingo de decisões mostrará multidões ora aflitas ora felizes, esquecidas das contas e dívidas, dos maus patrões e dos maus funcionários. Haverá zagueiros e atacantes de fé tão cega quanto seus chutes e esbarrões. Porque esse é o atual retrato do futebol brasileiro: muita emoção, mas pouca técnica; de fé cega sem futebol afiado.

E se Deus estará em campo? Ora, sabeis dos afazeres e do poder de Deus. Torcedores, não invoquem Seu nome em vão para um campeonato que maltratou a bola. Atletas, se não sabem, fiquem hoje sabendo que Deus não joga dados e nem bate pênaltis.

03 dezembro, 2008

O salto de fé

Michael Jackson se converteu ao islamismo, segundo o tablóide inglês The Sun. Em cerimônia particular e trajando a indumentária islâmica tradicional, o popstar participou de um ritual realizado na casa de um amigo em Los Angeles. Diz o jornal, conhecido pela língua ferina, que o cantor está atravessando problemas legais, sendo processado em uma corte em Londres por Abdullah bin Hamad al-Khalifa, xeique do Bahrein. Jackson teria dado um calote de 7 milhões de dólares no xeique, a título de adiantamento em 2005 para gravar um novo CD. Al-Khalifa diz que o cantor nunca cumpriu sua parte no acordo, e quer o dinheiro de volta.

A família de Michael Jackson era da igreja das Testemunhas de Jeová, o que não impediu o sucesso dos Jackson Five (Michael e seus irmãos) na música pop americana dos anos 70. Mas o cantor que aos 24 anos se tornou o ídolo do álbum mais vendido da história (42 milhões de cópias e projeções de quase 100 milhões até hoje), nunca mais foi capaz de repetir o êxito.

De menino-prodígio à mega-star, do sucesso à ruína moral e financeira, sua vida se tornou um refrão ruim e infinito de fiascos musicais, processos e dívidas. Segundo o tablóide, por interesse comercial, segundo os amigos, por necessidades espirituais, Michael Jackson teria adotado a religião islâmica, passando a se chamar Mikaeel -nome de um dos anjos de Alá.

Há um longo histórico de conversão de famosos às religiões cristã e islâmica. Quase sempre quando estão no fundo do poço financeiro ou então quando desprezados pela mídia. Em todo caso, não custa lembrar que a máscara do artista só dura no palco (máscara que ele é obrigado a mostrar sempre para os fãs). Nos bastidores ou em casa é que se revela sua verdadeira face; face que pode esconder atribulações e infelicidade dentro da alma, a despeito de sucessos ou fracassos. É então que ele decide dar um salto. Um salto em direção ao que muitos acham o mais improvável. Nesse salto, ele acredita cair nos braços de um Deus de amor, que lhe acalma, que apaga suas transgressões como a névoa, que lhe dá um novo sentido na vida.

Não faço a menor idéia de qual seja a motivação real do salto de Michael Jackson, nem se ele saltou de fato. Mas às vezes, de tanto ouvir falar em alguém, parece que conhecemos mais os outros do que a nós mesmos. Mas, e o nosso salto de fé, porventura, continua valendo? Ou nossa fé tornou-se um salto alto de arrogância e aparência de piedade? Estamos tentando sair dos Braços para os quais saltamos com a fé ainda cega mas já afiada ou nos aninhamos diariamente nAqueles braços?

"Examine-se, cada um, a si mesmo".

02 dezembro, 2008

A recessão americana e o futuro duvidoso

Para quem achava que o pior já tinha passado, olha a recessão aí, gente! Contrariando as previsões otimistas, os Estados Unidos acabam de assumir que atravessam uma dura recessão. Virá a depressão?

Se o amigo, a amiga ainda não decoraram todas as novas palavrinhas do dicionário do caos financeiro, como subprime, crédito hipotecário, ativo lastreado e liquidez, posso pelo menos dizer qual a diferença entre recessão e depressão. Recessão é quando seu vizinho perde o emprego. Depressão é quando é você quem perde o emprego.

Em entrevista ao jornal Estado de S. Paulo (30/11), o economista americano Michael Pettis, professor de Finanças da Universidade de Pequim, analisa a situação global [grifos meus]:

Qual é o papel da China na solução da crise mundial?

Os dois principais atores do desequilíbrio global são Estados Unidos e China. Os Estados Unidos porque durante dez anos consumiram muito além do que produziam e a China porque durante dez anos produziu muito além do que consumia. O excesso de produção da China era consumido pelo excesso de demanda americano. Havia certo equilíbrio, mas ele era insustentável. Ele implicava que os Estados Unidos teriam enormes déficits comerciais para sempre e a China teria enormes superávits comerciais para sempre. A questão era qual dos dois seria interrompido primeiro. A parada veio nos Estados Unidos e o excesso de consumo americano está se reduzindo.

Da maneira como o equilíbrio global funciona, se a demanda das famílias americanas cai, tem de haver um ajuste em algum outro lugar. O consumo caiu e agora a produção está muito alta.

O consumo privado nos Estados Unidos não vai aumentar. As famílias precisam poupar mais e consumir menos para quitar suas dívidas. Isso deixa a tarefa para o governo. Mas temos de ser muito cuidadosos porque, se apenas substituirmos as famílias pelo governo no excesso de consumo, não estaremos resolvendo o problema. Vamos apenas adiar o ajuste. Por isso, precisamos que o consumo aumente em outro lugar, e esse lugar é a China.

E o governo?

Se assumirmos que o consumo das famílias americanas vai cair 5% do PIB dos Estados Unidos, isso significa que o consumo na China deve se expandir em 17% do PIB chinês para compensar a queda. É muito, especialmente quando consideramos que o consumo na China gira em torno de 40% do PIB. Nós precisaríamos que o consumo aumentasse entre 30% e 40% para compensar a retração nos Estados Unidos. Isso não vai acontecer.

O sr. espera uma recessão global ainda mais severa?

Sim, vai haver uma desaceleração no mundo e nós temos de lembrar que, em 1930, o pior aconteceu nos países que tinham superávits em conta corrente. Eu acredito que a mesma coisa se repetirá agora.

O pacote de US$ 586 bilhões anunciado pela China há três semanas é suficiente para evitar uma forte desaceleração da economia?

Não. O pacote envolve grande quantidade de dinheiro, mas não sabemos os detalhes. De qualquer maneira, há um problema de timing. A demanda americana está se contraindo muito rapidamente. Portanto, a fonte alternativa de demanda deveria se expandir no mesmo ritmo. Isso é muito difícil. Acredito que o próximo ano vai ser bem mais difícil para a China do que muitos esperam.

Nesse link, a entrevista completa.

*****

A suma de tudo que lestes é: o professor diz que nosso futuro é duvidoso. Ele vê grana [pouca] e dor [muita]. Ou seja, não é só em Wall Street que haverá choro e ranger de dentes.

01 dezembro, 2008

Cem Palavras: História

"Nenhuma história universal faz com se passe da selvageria ao humanitarismo, mas existe uma história que está mudando do estilingue para a bomba de megaton... O Todo que continua se desenrolando até hoje - com eventuais pausas para respirar - seria teleologicamente o absoluto do sofrimento."

Theodor Adorno - citado por Terry Eagleton, em As ilusões do pós-modernismo, p. 56


"Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas.
O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado.
Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés.
Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las.
Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso."


Walter Benjamin, Obras Escolhidas, p.226.

28 novembro, 2008

Devastação em Santa Catarina: relato de um amigo

A internet nos providencia novos amigos a cada dia. Ou, pelo menos, amigos virtuais. Um destes é Douglas Reis, jovem blogueiro e professor de Religião em Itajaí, Santa Catarina. Em seu relato, que reproduzo integralmente direto do seu blog, ele conta como enfrentou a cruel realidade das enchentes que submergiram quase toda a cidade. Amigo, sei que o modo como você reagiu a essa tragédia é uma Questão de Confiança. São pessoas assim que irão corajosamente reconstruir suas vidas e as vidas dos semelhantes.



Foto da casa de Douglas Silva.

"A decisão mais importante que tive de fazer de domingo para cá foi, sem dúvida, a de subir os móveis.

Contrariando a máxima segunda a qual “ninguém é uma ilha”, vários municípios catarinenses foram vitimados por enchentes, ocasionadas pelas fortes chuvas que sobrevieram à região.

No sábado à noite, durante uma programação regional da igreja, fiquei sabendo da gravidade do problema das enchentes. O presidente da Associação Catarinense dos Adventistas, Pr. Lorival Gomes, informou-nos da situação do município vizinho de Joinville; o Colégio Adventista Central da cidade já fora afetado pelas enchentes e houve perda de recursos. Confesso que, até então, ainda era impossível prever o que me aconteceria. Averiguamos, mais por curiosidade, através da internet, a situação calamitosa de cidades vizinhas, como Brusque, Blumenau, Joinville, etc.

Na manhã seguinte, um de meus amigos, o professor Jean Benassi, que trabalha no mesmo colégio que eu, ligou para minha casa. Ele precisava do telefone do diretor (cuja residência fica em cima da minha), porque seus irmãos estavam desabrigados e ele próprio temia ficar ilhado. Quase em seguida, uma das coordenadoras da escola nos ligou, recomendando que deixássemos nosso veículo em frente à prefeitura. Ela já havia tomada a mesma medida, prevendo que a água do rio entrasse em sua casa.

Ainda incrédulos, eu e minha esposa consultamos o diretor e a dona da casa em que moramos. Dona Terezinha, moradora antiga da cidade, nos garantiu que a água poderia subir ao nível da metade de nosso quintal, sem, contudo, chegar a entrar em nossa casa (que é mais alta do que as demais da rua).

Eu e minha esposa fizemos um “tour”, verificando as ruas próximas a nós que estavam afetadas. Voltamos para casa e logo o pesadelo ganhou contornos realísticos.

O nível da água começou a subir em nossa rua. Ficamos na casa do diretor do Colégio Adventista de Itajaí, Pr. Sonir Brum. Acompanhamos durante boa parte da tarde e noite a cobertura da TV Brasil Esperança, emissora local, sobre os resultados da enchente na cidade.

Vimos lanchas socorrendo idosos em bairros nos quais a água invadiu completamente as residências. Abrigos indicados pela Defesa Civil eram recomendados à população, que ouvia a instrução: “Se a água subir, levante os móveis e saia de casa”.

O apresentador Delísio cobrava a todo instante a prontidão das autoridades – bombeiros, Defesa Civil, Prefeitura –, além de convocar voluntários para socorrer os telespectadores que ligavam dando seus endereços e contando de sua situação. Fomos informados de saques feitos às casas que eram deixadas pelos moradores temerosos. Políticos eram contatos para dar a desculpa rotineira: “Eu não sabia…”

Neste contexto, eu e minha esposa ficamos decidindo o que faríamos com nossos móveis. Se por um lado, tínhamos a garantia de Dona Terezinha de que a água não entraria em nossa casa, acompanhávamos o nível da água subir, chegando mesmo a invadir nosso quintal progressivamente. Não parava de chover desde sábado à noite.

Os carros, por precaução, foram colocados na parte superior do quintal, para evitar possíveis avarias com a subida do nível da água.

A igreja Adventista central de Itajaí tornou-se um posto para atender os desabrigados, sob os cuidados da ADRA. O pastor Paulo Predebom, distrital de São Vicente, o outro distrito da cidade de Itajaí, arrumou um caminhão para fazer mudanças das famílias mais atingidas pela crise.

Acabamos indo dormir. A preocupação nos levou a acordar de hora em hora, durante madrugada, para acompanharmos o avanço do nível da água. Lá pelas 4 da madrugada, percebendo que corríamos o risco de ver nossa sala alagada, chamamos nossos amigos e erguemos os móveis. A geladeira ficou postada sobre as quatro cadeiras da cozinha, enquanto os dois sofás foram apoiados em quatro outras cadeiras emprestadas. Somente depois disto, pudemos dormir em relativa paz.

Pela manhã, o Pr. Sonir e o Emerson, diretor de disciplina do colégio, saíram para ver a situação da escola. O Emerson passara a noite na casa do diretor, e ambos já haviam visitado o colégio várias vezes ao longo do domingo, sem detectar a menor probabilidade de a enchente atingir a instituição. Porém, ao saírem de casa, com a água batendo em suas cinturas, acabaram encontrando uma triste realidade: a área da Educação Infantil, juntamente com os laboratórios (de Ciências e de Informática) e a cozinha do colégio, estavam com mais de um metro de água. Computadores, a geladeira, os materiais das salas – tudo foi perdido, devido à vala próxima que transbordou, trazendo suas águas fétidas para a área mais baixa do colégio.

Próximo das dez da manhã, eu e minha esposa levamos o colchão, roupas, alimentos e materiais de escola para a casa do Pr. Sonir e sua família. As gavetas mais baixas foram postas no estrado da cama. Já estávamos sem energia elétrica.

Passamos o dia recebendo ligações de parentes e amigos, informando e sendo informados sobre a situação dos moradores de Itajaí. Tínhamos alimento abundante, pela Providência divina. Infelizmente, víamos transeuntes vagando com seus apetrechos, enquanto outros deixavam a vizinhança sem muita expectativa de salvar seus pertences.

Acompanhávamos o trânsito de pessoas pela rua, tendo que atravessar a água quase à cintura. Botes salva-vidas, lanchas, caiaques e Jet-sky transitavam por nossa rua, agitando uma marola repugnante. O reflexo da água, sob o sol que abriu, era visto serpenteando pelas paredes das casas, como se a rua toda se tornasse uma imensa piscina marrom. O nível da água em nosso quintal era rigorosamente fiscalizado através das lajotas que levam da garagem a minha porta: contávamos quantos lajotas ainda faltavam para a água chegar à porta de casa.

Somente à tarde, a água invadiu minha casa, através de uma infiltração localizada no pequeno escritório. Como a sala fica em um plano mais alto que o restante dos cômodos, era justamente a sala que ficou incólume ao líquido podre e habitado por baratas. Minha esposa teve de me convencer (e ela pode dizer que não foi fácil) a retirar nossos criados-mudos do quarto e levá-los para a sala enxuta.

Somente a partir de umas 17 horas, começou o recuo da água. A energia elétrica voltou quatro horas depois. Recebemos as primeiras informações: de toda a Santa Catarina, colocada sob estado de emergência pelo governador Fernando Henrique no sábado, Itajaí fora a mais afetada, com cerca de 90% da cidade tomada pela enchente. E os relatos comoventes continuam: agora a pouco homens uniformizados retiraram uma mulher em serviço de parto em um edifício vizinho de onde estamos (minha esposa e a Profª Eude Bahia acompanharam a empreitada, saudada com palmas por populares).

Ainda não sabemos o que nos acontecerá. Só tenho a agradecer a Deus pelos cuidados dispensados a minha família e amigos. Também conto com as orações e apoio material a todos aqueles que perderam tudo naquela que pode ser a mais trágica enchente a afetar o estado catarinense. Oramos para que Deus cuide de vidas que podem se perder sem tempo para conhecê-Lo".

Direto do blog Questão de Confiança

Serviço:
Já são 99 mortos e mais de 78 mil desabrigados em Santa Catarina.
Contas do Fundo Estadual da Defesa Civil, CNPJ 04.426.883/0001-57:
Banco do Brasil - Agência 3582-3, Conta Corrente 80.000-7
Besc - Agência 068-0, Conta Corrente 80.000-0.
Bradesco - Agência 0348-4, Conta Corrente 160.000-1

26 novembro, 2008

Muito barulho por nada

Se houve um tempo em que as pessoas iam aos cinemas para entrar em outro mundo, conhecer outras realidades ou simplesmente escapar da dureza da vida real nem que fosse por duas horinhas, esse tempo parece cada mais longe.

Ninguém precisa entrar num cinemark pra entender isso. Críticos comentam que muita gente não se desliga do mundo lá fora e continua com os celulares ligados. A atenção dedicada é menor. Noutro dia, uma matéria na TV mostrou um cinema em que a platéia era formada de pais com seus bebês. Amamentava-se, trocavam-se fraldas, se ouviam choros, tudo para alimentar o modismo e a satisfação de dizer aos amigos e amigas que se foi a um cinema com um bebê de colo. Em outro cinema, pessoas assistiam ao filme numa galeria onde podiam pedir bebidas, quitutes e conversar. Para quê ir, então, se não se vai assistir o filme?

Nunca entendi porque é preciso encher o estômago enquanto se vê um filme. Talvez, com o cérebro dividido entre ordenar o delicioso caos nutricional e entender os enredos implausíveis, seja possível deixar os neurônios nadando em banho-maria.

O comercial do visa el*ct*on é sinalizador da nossa era de desatenção, gula e desrespeito. Um casal já chega atrasado para a sessão. Aliás, na propaganda, todos os espectadores estão atrasados. Logo começa uma luta renhida para se entrar a tempo na sala. Litros de refrigerante, baldes de pipoca, salgadinhos, chocolates, um arsenal de guloseimas. Dá pra imaginar as dentadas, mastigadelas, ruídos de embalagens sendo abertas, o cheiro impregnante, possíveis arrotos, ringtones dos celulares tocando, enfim, uma sucursal do inferno em forma de sala multiplex.

Pouca gente se importa com isso. Com a desculpa de que se trabalha arduamente e que tudo que se quer é uma sessão de cinema descerebrada, assiste-se a filmes dos quais não se lembrará nem do título. São confusões de estudantes no colégio, explosões em supercâmera lenta e som mixado em 128 canais, profusão de olhares 43, mocinhos gritantes, mocinhas berrantes. É só isso que se exige do cinema? Por acaso, é só a música barulhenta e sexista que existe? A literatura se reduz às fantasias de Sidney Sheldon e aventuras de bruxinhos juvenis?

Há tempo para tudo debaixo do sol, até para o entretenimento light e indolor. Não há quem viva só de preocupações metafísicas e denúncia social. Mas é inegável que muitos filmes estão se beneficiando de platéias com a mentalidade e a exigência estética estacionadas nos 6 anos de idade. É a infantilização do cinema.

Uma pirueta, duas piruetas, bravo, bravo! Três beijos, trinta carros, trezentos mortos, trezentos milhões na conta! Se os romanos e os visigodos saíssem das catacumbas, eles só estranhariam os cortes velozes e furiosos da montagem do filme, pois o tema e o desenrolar das histórias são os mesmos. É o pão e o circo que se materializaram em pipoca e cinema.

É uma pena quando tudo o que se pede da arte é que ela nos entretenha. É uma questão de educação para a arte? De acesso ao questionamento crítico? De simples desconhecimento de um outro tipo de filme? Mas o público mimado não pode atender a nenhum chamado para a reflexão sob o risco de estragar a digestão.

Leia também "Meu reino por um transformer"

24 novembro, 2008

Cem Palavras: religião

"A religião, na verdade, é a consciência da insuficiência humana, é vivida na admissão da fraqueza (...) Nós deparamos com dois caminhos inconciliáveis de aceitar o mundo e a nossa posição nele, nenhum dos quais pode ufanar-se de ser mais 'racional' do que o outro... Uma vez feita, qualquer escolha impõe critérios de julgamento que, infalivelmente, a apóiam numa lógica circular: se não há Deus, só critérios empíricos devem guiar-nos o pensamento, e critérios empíricos não conduzem a Deus; se Deus existe, Ele nos dá pistas sobre como perceber Sua mão no curso dos acontecimentos, e com a ajuda dessas pistas reconhecemos a razão divina do que quer que aconteça".

(Leszek Kolakowski, em Religion: If there's no God... On God, the Devil, Sin and other Worries of the so-called Philosophy of Religion - citado por Zygmunt Bauman, em O mal-estar da pós-modernidade)

21 novembro, 2008

Fábulas menores de moral mínima - 5

Há tempos que não escrevo novas Fábulas Menores de Moral Mínima, embora o ambiente esteja inspirador. Mas é que até o Chávez anda se comportando direitinho... ou esquerdinho.
O homenageado da vez é John Cage, o compositor que libertou a música das amarras da partitura com sua obra 4'33 (uma peça em que os músicos entram no palco, abrem as partituras e não tocam nada por 4 minutos e 33 segundos - o som ficaria por conta da reação da platéia ao silêncio). Mas ele também transformou a experiência musical em mero happening, aquele tipo de evento que acha que a banalidade é genial.


COMO ENCHER UM SILÊNCIO SELVAGEM

Os músicos entram, se sentam, abrem as partituras e... Após os 4 minutos e 33 segundos de silêncio naquela sala de concerto, um distinto cavalheiro, temendo romper o clima pós-moderno, cochicha num discreto tom menor:
- É bonitinho! Mas é arte?
Um mancebo de penteado dodecafônico e cacófato perfume, que nunca tinha ficado calado por 4 minutos e 33 segundos na vida, se exalta glorioso como num finale beethoveniano:
- Repete isso, que eu duvido!
- Não repito nada porque eu não falo em ritornello, mauricinho vanguardista!
Ao ouvirem a palavra “vanguarda”, duas veneráveis assinantes de carnês de concerto agarram-se uma a outra esperando o pior, esperando Godot ou simplesmente esperando, esperando, esperando...
No ato, uma garota se levanta dizendo que tinha feito o curso de formação de platéia e que aquela algazarra toda não era comportamento de gente civilizada e que paga doze reais a hora do estacionamento.
- Tire ao menos o fone do iPod dos ouvidos, minha filha – avisam à moça queixosa.
- Só tiro quando o concerto começar.
Nesse instante, todos os olhares se voltam para a moçoila dos fones. São olhares cruéis, mais cruéis do que aqueles olhares dirigidos violentamente a quem aplaude entre os movimentos de uma sinfonia.
Tentando salvar a moça, um senhor de idade e meia:
- Já fui moço e agora sou velho. Mas se era pra ouvir o som do silêncio num concerto antes tocassem The sound of silence, de Simon e Garfunkel.
- Senil e gentil homem, você não sabe o que é arte. Arte não é para entender. O silêncio é um manifesto contra os ditames da massa sonora estupidificante que alicerça a corporalidade pós-orgânica contemporânea inserida na contextualização disfórica das mutações sócio-culturais da pólis.
Ao ouvirem tantos polissílabos de uma só vez, as duas veneráveis assinantes de carnês de concertos agarram-se uma a outra esperando...
- Meu senhor, dou um boi pra ter silêncio, mas dou uma boiada pra não sair de uma discussão sobre estética.
- Cai dentro.
A confusão é total, a baderna come solta, o violoncelista aproveita e sai correndo pra casa a fim de assistir o episódio de Lost que esquecera de deixar gravando. Logo irrompem nas salas dois seguranças estupefatos.
- Que discussão é essa? – pergunta o estupefato segurança A.
- É porque você não entende o que é arte. Arte não é para entender. O silêncio é um manifesto contra os ditames...
O estupefato B não consegue completar a frase do folder do concerto que já tinha decorado porque é atingido pelo próprio companheiro iletrado.

Moral mínima da fábula menor: “O silêncio vale ouro, mas a ideologia estética não tem preço”.

19 novembro, 2008

Eram os deuses mercadores?


“A todos os Homens e Mulheres de Deus, cujo Espírito Santo despertou, venha trabalhar conosco para tomarmos posse da terra prometida”.

Esse é um apelo para evangelizar a Palestina? É um chamado avivalista para a conversão? Nada disso. É apenas a convocação de distribuidores do refrigerante Leão de Judá Cola. A terra prometida é anunciada no site da empresa: o mercado de refrigerantes no Brasil que movimentou 19 bilhões de reais em 2007.

O irmãozinho, a irmãzinha tem dúvidas sobre a garantia do negócio? A empresa, não. Segundo informa, “o Espírito Santo já nos confirmou que Ele tem 7 MIL Distribuidores Leão de Judá somente no Brasil, que o próprio Deus escolheu para trabalharmos juntos”.

Para ratificar a segurança do negócio, a empresa cita um verso bíblico: “Também conservei em Israel SETE MIL, todos os joelhos que não se dobraram a Baal, ... (I Reis 19:18).

O Leão de Judá Cola é a proposta do empresário Moisés Magalhães para dominar o mercado mundial, sim, mundial, de refrigerantes. De volta ao site: “Assim como o Senhor Jesus dividiu a história em antes e depois Dele, determinamos em nome do Senhor Jesus dividirmos a história do refrigerante em antes e depois do Leão de Judá Cola”. Se parece um plano projetado pela dupla Pinky e Cérebro, aqueles ratinhos megalomaníacos que querem dominar o mundo, veja como a Alfa Gold, a empresa que distribui a bebida, pretende realizar os treinamentos:

“A Alfa Gold utiliza o mesmo sistema de treinamento que o Senhor Jesus utilizou para formar os 12 apóstolos – o Discipulado”.

Para ninguém duvidar da liderança do empresário Moisés Magalhães, mais emprego da Bíblia para ungir a missão do Leão de Judá Cola: “Como fui com Moisés, assim serei contigo; não te deixarei, nem te desampararei” (Josué 1:5). Esse parece um empresário que não cabe em si de tantas comparações, mas que tem seu lado humilde, pôxa vida! Direto do site:

“Não temos prata nem ouro, não vamos viver juntando tesouros na terra e sim no céu”, pois “o Senhor Jesus é o Dono e Senhor da marca Leão de Judá e da empresa Alfa Gold”. Como a missão é da mais alta nobreza evangelística, o empresário anunciou que vai doar para projetos sociais 10% da renda obtida com as vendas da bebida.

Apesar de não querer ajuntar tesouros onde a traça e os juros altos corroem, o desejo da empresa não podia ser mais explícito: “Vamos conquistar cada consumidor no Brasil e no mundo”. É a santificação da megalomania. Mas não se pode criticar o que vai no coração, não é, irmão, não é, irmã?

O que vale é a intenção? Então, que tal verificar a seção “Nossa Missão” no site da empresa? O primeiro item diz: “Refrigerar o consumidor no Brasil e no mundo – corpo, alma e espírito”. Hesitações quanto à sinceridade? O site declara: “Somos dizimistas fiéis”.

Tem ainda os 10 Mandamentos do refrigerante Leão de Judá. O décimo mandamento: Crescimento Global”. Contenha o riso, por favor. O segundo “mandamento” ordena: “Amar ao Próximo: amarmos nossos consumidores como a nós mesmos”. Fique à vontade.

Essa espécie de marketing bíblico-agressivo tem se tornado um padrão no mercado evangélico neopentecostal. Basta um novo comerciante, um novo cantor, um novo bispo ou pastor/a dizer que o CD/DVD-gravado-ao-vivo-com milhares-de-fiéis está “ungido” e acredita-se que o objeto está mesmo. A “santificação” de qualquer acessório vira um penduricalho de Jesus, um balangandã do Senhor. Se é feito em nome da divindade, se é para alcançar os inalcançáveis, não se pode questionar os meios porque os fins são “santos”.

Desnecessário dizer que o mercado religioso tinha pouca possibilidade de escapar do processo de industrialização. O problema não está no crescimento desse comércio, nem mesmo no termo “comércio”. Problemas surgem quando uma empresa se presta a declarar em seu site que “toda nossa estratégia de fabricação, venda e mídia vem da Bíblia”, “que a marca Leão de Judá nasceu de uma fé sacrificial”.

Critica-se o governo, a polícia, a televisão e, principalmente, os técnicos de futebol. Mas não se pode pôr em dúvida as estratégias do mercado “cristão”.

“Temos que lutar e perseverar para transformar o mundo pela renovação de nossa mente”. Não, não é um conselho meu. É mais uma frase contraditória da propaganda do refrigerante Leão de Judá Cola.

Oops, I did it again. Desconfiei de novo dos intuitos da empresa. Aí vai meu incentivo, então:

“Parem as máquinas! Rasguem as vestes! Bebam Leão de Judá Cola!”

17 novembro, 2008

cem palavras: ninguém nasce musical

Ninguém nasce musical. Em vez disso, as pessoas nascem com capacidades de atenção, consciência e memória que as habilita a aprender a pensar musicalmente - fazer e ouvir música de forma competente, senão proficiente. A musicalidade é adquirida por meio do ensino e aprendizagem de música; não é dom nem talento. Na verdade, alguns parecem ter altos níveis de inteligência musical e alto nível de interesse em aprender a fazer/ouvir música. Esses fatores podem capacitar tais pessoas a desenvolver musicalidade e criatividade musical de forma mais profunda e abrangente que outras. Entretanto, a maioria das pessoas tem suficiente inteligência musical para obter um mínimo de nível competente de musicalidade através de um programa sistemático de educação musical.

(David Elliott, em Music Matters)

14 novembro, 2008

O Messias: música humana e divina

300 anos antes dos clubes ingleses de futebol nadarem em dinheiro, inflacionarem o mercado da bola com contratos milionários e disputarem a tapas e libras o passe dos craques, os teatros ingleses de ópera inflacionavam o mercado lírico e disputavam o passe das divas e maestros da música.

Foi para esse paraíso musical e financeiro que George Friedrich Haendel decidiu levar seus dotes. Músico excepcional, empresário nem tanto. Enfrentando os rivais italianos - Haendel era mais um concorrente; os rivais ingleses – Haendel era alemão; e os credores - sua casa de ópera fracassava, Haendel foi à falência por duas vezes. Pior, sofreu uma paralisia no lado direito do corpo e foi proibido de encenar suas óperas no palco.

Escreve, então, óperas de enredo bíblico para salas de concerto: são os oratórios, obras que lhe granjearam a fama e o fez passar “de indivíduo à instituição e, finalmente, a uma completa indústria”, define o músico e biógrafo Christopher Hogwood. O homem do “Aleluia de Haendel” faleceu num Sábado de Aleluia, fizeram-lhe uma estátua em Westminster e 3.000 pessoas presenciaram seu funeral em 1759.

Haendel, o músico devoto, era um antropofagista das próprias obras, usando sem pudor as mesmas melodias tanto para fins sacros quanto profanos. Porém, basta escutar suas composições cheias de pompa e circunstância encomendadas ao rei ou suas melodias plenas de pietismo religioso para notar que a bagagem luterana de Haendel não lhe permitia tomar uma dança saltitante e inseri-la nos temas de O Messias ou nos quatro Coronation Anthems (hinos da coroação).

Mas nem tudo foram rosas e resoluções consonantes na tônica. Os oratórios estavam entre a cruz dos templos e a caldeirinha dos teatros: sendo óperas com enredo bíblico, nem eram encenadas na igreja devido ao teor teatral demais, nem no teatro devido ao tema ser religioso demais. Histórias do Velho Testamento recebiam uma forma operística e se revestiam de grande emoção religiosa. Josué, Jefté, Saul, Sansão, foram obras recebidas ao mesmo tempo como dramas espirituais do povo hebreu e epopéias triunfais da nação inglesa.

No oratório Israel no Egito, o personagem principal é o povo e seu desejo de liberdade. Assim, há poucas árias (solos) e muito coro, o que confere à obra uma intensidade dramática advinda do canto coral coletivo – como as futuras óperas Fidelio, de Beethoven, e Boris Godunov, de Mussorgski, em que a massa coral representa a força e a vontade popular guiadas por um grande líder.

O Messias é o ponto mais alto da cordilheira que foi a carreira de Haendel. O lirismo, a inspiração cristã, as árias sublimes (como He Shall Feed His Flock, The Trumpet Shall Sound ou I Know my Redeemer Liveth) e os coros grandiosos (For unto us a Child is Born e, claro, o Hallelujah) entraram direto para o hit parade clássico e estão lá há 250 anos consecutivos.

As três partes do oratório baseiam-se em versos transcritos fielmente para o libreto dotado de firme convicção aos princípios do cristianismo – começa com as profecias sobre o Messias vindouro e o nascimento de Jesus; a segunda parte trata da paixão de Cristo; e por fim, o tema celebra a redenção. A música é ora vibrante e magnificente, ora é plácida e meditativa, mas sempre na medida das obras extraordinárias.

Se eu fosse comprar um cd pela capa, esse ao lado já estaria descartado. Mas com os nomes de Al Jarreau, Stevie Wonder e Quincy Jones, essa versão black pop-christian de O Messias parece ter seus encantos. Será mistura demais? Que o diga quem já conhece.

Há três anos, assisti em dvd (capa) a versão com a orquestra e coro da Academy of St.Martin-in-the-Fields regida por Neville Marriner na comemoração aos 250 anos da obra. Emocionante e gloriosa.

Há uns 10 anos, vi em VHS a versão “música cristã contemporânea”. Tem grandes momentos, como Larnelle Harris cantando “Ev’ry Valley Shall Be Exalted”, Steve Green e “I Know my Redeemer Liveth”, Sandi Patti e Steven Curtis Chapman no dueto de “He Shall Feed His Flock”. Estão ainda Carman (não ficou tão bem), Michael English, Twila Paris, 4Him, Brooklyn Tabernacle Choir e outros mais.

Quanto a mim, solos de guitarra não vão me conquistar, mas, calma, a obra não foi “profanada”. Há um respeito ao tema e à música handeliana, remodelada segundo os estilos musicais dos cantores convidados e refeita com tintas da cultura musical pop. Mas se todo pop gospel tivesse essa qualidade de música, letra e interpretação...

12 novembro, 2008

Escritores em busca do Deus perdido

Anne Rice está de novo na lista de best-sellers, mas não se trata de mais um romance da saga de vampiros que chegou a vender 75 milhões de cópias. Desta vez, a autora lança seu livro de memórias, Called out of darkness: a spiritual confession (Chamada para fora da escuridão: uma confissão espiritual), e procura ser reconhecida como uma escritora cristã séria.

"Meu objetivo é simples: escrever livos sobre nosso Senhor vivendo na Terra e fazê-lo real para as pessoas que não acreditem nele; ou pessoas que nunca tentaram acreditar", diz a autora. E reforça: "Eu tornei os vampiros em algo crível para mulheres adultas. Agora, se eu pude fazer isso, eu posso fazer nosso Senhor Jesus Cristo crível para as pessoas que nunca acreditaram".

Mesmo que não pretenda impressionar os críticos, no site de Anne Rice, há colunistas que apreciaram a nova empreitada da escritora. O jornal Los Angeles Times: "As memórias de Rice mostram o que uma crença verdadeira envolve". O Chicago Sun-Times: "É a história vívida da jornada de uma alma em direção à luz". O Herald Tribune não demonstrou entusiasmo com o estilo que chamou de "aborrecido".


Os filmes do roteirista Joe Eszterhas (foto) renderam aproximadamente 1 bilhão de dólares. Ele também escreveu um livro confessional em que conta sua trajetória: Crossbearer - A memoir of faith (Carregando a cruz - uma memória de fé). Jornalistas notaram que o autor de Flashdance e Showgirls teve a coragem de desnudar a alma publicamente, mas o estilo literário não tem força. É bem provável que, olhando os títulos dos hits do roteirista, críticos dirão que sua "força literária" vinha da voltagem erótica e da violência gráfica que Eszterhas impunha a suas narrativas.

O que Rice e Eszterhas têm em comum, além do fato de terem sido dois autores pop de sucesso? Infância católica, alcoolismo, doenças e morte de parentes. A filha de Rice, de apenas 5 anos, teve leucemia. Depois, ela perdeu seu marido de longa convivência. Eszterhas perdeu a neta para uma doença degenerativa. Ambos os escritores enfrentaram graves doenças. Rice entrou em coma diabético do qual demorou a sair e Eszterhas perdeu 80% da garganta para um câncer de laringe. Para os dois, a palavra "milagre" explica seu restabelecimento e conforto nos momentos de maior definhamento emocional e físico.

A capa do livro de Rice mostra a escritora ao lado de uma imagem católica e, em suas páginas, ela conta seu desejo infantil de ser uma santa e também revela o que chama de epifanias. Segundo o G1, uma dessas teria acontecido no Rio de Janeiro, onde ela diz ter sentido um "delírio" e ver as nuvens do céu se abrindo para mostrar a estátua.
Joe Eszterhas, que chegou a ser o roteirista mais bem pago de Hollywood (ele ganhou 3 milhões de dólares por Instinto Selvagem), abandona seus vícios e o enorme ego que lhe trouxe desafetos e está trabalhando em histórias sobre o combate às drogas e thrillers políticos. Ele diz à reporter do New York Post que não permitirá que seus filhos vejam certos filmes que produziu antes de completarem 18 anos. E completa: "Não fui lobotomizado, mas não vou criar mais histórias como aquelas que fiz antes de minha conversão".

10 novembro, 2008

Cem Palavras

A música não deve ser praticada por um só tipo de benefício que dela pode derivar, mas por usos múltiplos, já que pode servir para a educação, para proporcionar a catarse e, em terceiro lugar, para o repouso da alma e a suspensão das fadigas.

Aristóteles, em Arte Poética

Todo homem que em si não traga música
E a quem não toquem doces sons concordes,
É de traições, pilhagens, armadilhas.
Seu espírito vive em noite obscura,
Seus afetos são negros como o Érebo:
Não se confie em homem tal.

William Shakespeare, em O Mercador de Veneza


A série Cem Palavras começa hoje aqui no Nota na Pauta. Nessa seção, farei um controlC + controlV de citações, dizeres e pensamentos que valem uma reflexão. Porque não há nada de novo debaixo do sol nem dentro dos blogs.

07 novembro, 2008

Canção Cristã e Cultura Brasileira

Por que a maioria dos protestantes brasileiros aprecia uma hinologia ou um conjunto de músicas de origem americana ou européia mas demonstra pouca tolerância para com as canções religiosas de estilo popular nacional?

Esta é uma pergunta para a qual podemos dar várias respostas erradas, como: é uma questão de gosto, ou, é o respeito às tradições litúrgicas, ou ainda, é devido ao preconceito em relação à cultura brasileira, e a pior de todas, deve-se a uma alienação cultural americanizada e pequeno-burguesa.

Vou procurar algumas respostas que podem explicar esse tema que divide gerações de fiéis.

Gosto (o bom e o mau, se me permitem os relativistas mais ferrenhos) é algo que se constrói socialmente. Para Pierre Bourdieu, as diferenças entre os gostos musicais não se assemelham às diferenças de paladar alimentício – este estaria mais profundamente inscrito em nossos corpos que o paladar musical. O estudioso francês acrescenta que os diferentes gostos musicais não remetem unicamente a “preferências últimas e inefáveis, mas a diferenças no modo de aquisição da cultura musical” (Sociología y cultura, p. 178).

Como a hinologia protestante foi "adquirida", então? Para alguns pesquisadores, como Prócoro Velásques e Antonio G. Mendonça, as missões norte-americanas tinham um pendor eurocêntrico e entendiam que sua cultura era superior a dos povos da América do Sul. Assim, a dominação econômica encontrava um correspondente na dominação cultural e religiosa, dominação essa que repudiava a música local e favorecia a adoção de uma hinologia euro-americana/estrangeira (ver Introdução ao protestantismo no Brasil, dos dois autores; ou O celeste porvir, de Antonio G. Mendonça).

Essa visão está bem simplificada aqui, mas traduz teoricamente a essência de um pensamento amparado no discurso nacionalista e marxista que procura explicar os fenômenos sociais pela ótica do conflito de classes. Esse argumento consolidou-se no Brasil dos anos 1960, quando a dicotomia nacional-popular versus cultura anglófona chegou ao ridículo de promover uma marcha dos artistas contra a guitarra (era um instrumento do rock, que nasceu nos EUA, que eram o império colonialista, etc) e ao mesmo tempo coroava-se como “legítimo” e “autêntico” o estilo de raiz nacional (baião, sertanejo, samba).

Esse discurso, que conferia autencidade e legitimidade somente às músicas fiéis a uma tradição cultural de origem brasileira, ao espaço sociogeográfico das classes populares (o sertão, o morro) e ao argumento de independência cultural em relação ao mercado e às nações dominantes, chegou às igrejas protestantes nos anos 1970 refletindo o pensamento sociológico da época e modificando os padrões de composição de canções religiosas.

Com 30 anos de atraso, o mesmo discurso só agora alcança algumas igrejas adventistas e luteranas, por exemplo. A música de “raiz” nacional procura seu espaço na hinologia protestante. Porém, as justificativas encontradas são obsoletas. Primeiro, porque “cultura brasileira” não é um conceito monolítico que uma vez erguido estará consolidado para sempre. Ao contrário, trata-se de um conceito extremamente fluído e contraditório (quem diria, nos anos 60, que surgiria algo como rock “nacional” ou funk “carioca”). Em segundo lugar, o público, em especial a juventude, não se importa com questões de identidade nacional, mas prefere os símbolos e objetos mundializados, os gêneros e as performances transmitidos via mídia, remontando-os em perspectiva diversa da original.

A música popular brasileira é um referente atual para a música cristã. Essa perspectiva pode expressar pontos positivos (e há músicos capazes para tanto), mas também pode gerar problemas quando a renovação musical se dá por meio de um pragmatismo evangelístico entusiasticamente abraçado ou quando se acredita que a totalidade de uma cultura é plenamente aceitável ao ser transladada para o espaço da adoração cristã.

Voltando a questão no topo da página – o porquê da aceitação da hinologia tradicional em detrimento de uma música cristã popular brasileira –, nota-se que o argumento da autenticidade e legitimidade faz pouco sentido no espaço cultural hiper-globalizado. O debate marxista de conflito de classes, isto é, missionários a serviço do imperialismo norte-americano impingindo uma cultura “importada”, é um raciocínio que padece de xenofobia e descarta a reação e os anseios dos novos conversos, tratando-os como meros receptores passivos.

Michel de Certeau afirma que o sentido e o uso dos produtos culturais, dos sons musicais, na vida individual e social das pessoas não podem ser completamente determinados (A invenção do cotidiano, 1994). Assim, deve-se levar em conta também outros fatores para a adoção da hinódia euro-americana pelos primeiros protestantes brasileiros:

a) A ausência de referências sociogeográficas: os novos conversos desconheciam a origem da música (se era um folk irlandês, uma marcha da Guerra Civil americana, uma balada do teatro, uma canção de saloon), mas podiam aceitá-la pelo simples motivo de que era diferente das canções dos festejos a que estavam acostumados antes da conversão;

b) A noção protestante do sagrado: o “sagrado” significava algo que era “separado” para as atividades religiosas. A hinódia euro-americana recebida pelos novos protestantes expressava um caráter diferenciado ao ser cantada no local de adoração. Assim, modelava uma liturgia distanciada de práticas musicais sincréticas que serviam tanto para as festividades religiosas quanto para a diversão mais sensual.

Se lembrarmos também do preconceito e da marginalização sofridos pelos conversos no período de inserção do protestantismo no Brasil, veremos que a adoção daquela hinologia “importada” marcava uma construção de identidade coletiva interna e também uma diferença externa em relação aos cultos afro-brasileiros e católicos. Não se pode negar que houve (e há) certo sectarismo nessa perspectiva.

Por outro lado, havia (e há) uma clara relação de estilos musicais com atividades que se opunham frontalmente aos princípios cristãos, o que pode ter motivado tanto a recusa de determinados gêneros como o seu afastamento social. Assim, esse afastamento precisa ser revisto pela ótica da segregação sofrida e da auto-preservação moral.

São questões candentes que valem uma reflexão a respeito. E o primeiro passo para o entendimento possível é o diálogo. Meu objetivo não é conceder as únicas respostas, mas espero fazer as perguntas certas e até esquecidas.

A pergunta inicial foi feita noutro dia na caixa de comentários pelo amigo André Gonçalves, que escreveu no seu multiply um comentário gentil sobre este blog.

05 novembro, 2008

Uma carta para Obama


Comenta Idelber Avelar, brasileiro, professor em Tulane University, eleitor de Barack Obama:

“É de se comemorar, por si só, o fim do regime mais desastrado, inepto e mentiroso da história da república norte-americana. É de se celebrar o surgimento de um verdadeiro estadista, um homem que, no pódio da vitória, não esfrega seu sucesso na cara dos outros, não tripudia sobre os vencidos, não joga seus apoiadores contra os seguidores do candidato derrotado, mas opta pelo caminho oposto: a reconciliação, a união, a possibilidade do diálogo”.

Quando Obama nasceu, os negros eram proibidos de usar os mesmos bebedouros públicos dos brancos e obrigados a dar lugar aos brancos nos ônibus. Por isso, essa vitória é também de Martin Luther King, o líder cristão que praticava a não-violência e a desobediência civil para com leis injustas, e Rosa Parks, a mulher negra que não levantou para dar seu assento a um homem branco e foi presa. Mas o dia 4 de novembro de 2008 torna-se histórico porque estabelece o dia em que os eleitores deram um recado claro: não há raça, não há cor, existem americanos dispostos a trabalhar para modificar o modo de fazer política, mudar a maneira de dialogar com os habitantes dos Estados Unidos e os países do mundo.

Rosa Parks e Luther King (ao fundo).

Se as mudanças serão de fato efetivadas? Sabemos que no jogo político as boas propostas nem sempre estão acompanhadas de vontade política ou gentis intenções. Uma regra política é aquela mencionada pelo príncipe Salinas no livro/filme O Leopardo: “É preciso mudar para que tudo fique como está”.

Porém, nunca se viu tanto desejo de mudanças reais; nunca se viu um candidato a presidente com tamanho poder de catalisar a atenção das pessoas; nunca se viu um eleitorado motivado para enfrentar filas com o intuito de fazer valer seu voto. Anciãos, jovens, deficientes físicos, negros, hispânicos (como são classificados todos os latino-americanos), grupos sociais historicamente marginalizados projetaram em Obama o melhor deles. Esta é a imagem que Obama soube transmitir, a de alguém que saiu da adversidade, das beiras da sociedade, e com capacidade e ousadia chegou ao ponto mais alto da carreira política americana.

Por isso lhe escrevo, Obama, sem oba-oba: "Caro Mr. presidente, antes de cada assinatura de papéis, lembre-se do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas que se dispôs a sair e confiar em você. Obama, não se permita a beligerância para com o forasteiro, antes, porém, o trate com a decência e a correção que você recebeu de eleitores anônimos e famosos. Por último, Barack, honre o significado do seu nome, “abençoado” em árabe, e procure ser a benção prometida. Há uma crise financeira difícil de se debelar, são décadas de uma política externa engessada e há quem lhe veja como fator-chave para que se comece a respirar novos ares de democracia.

"Talvez os eleitores não voltem para a letargia política em que hibernavam. Talvez o discurso de tolerância e conciliação, e não a retórica assassina das armas, mude a relação com os “inimigos da América”, para que não se planeje o aniquilamento do estrangeiro, mas uma abertura de diálogo e resolução conjunta de problemas. Talvez alguns jovens das tantas comunidades pobres nos EUA queiram se espelhar em você e não em certos ídolos machistas e exibicionistas. Talvez algumas mocinhas vejam em Michelle Obama uma razão para se afirmar enquanto mulheres inteligentes e amadas e não como corpos que desfilam por baladas sem fim. Se o slogan “yes, we can” está por trás disso tudo, que você o faça valer, então.
"Na certeza de que você não lerá, mas que receberá outras tantas cartas mais bem escritas,
um torcedor e observador distante".



fotos via G1 e Lucia Malla

03 novembro, 2008

Todas as músicas do mundo

O que é música? Para dois músicos do filme Todas as Manhãs do Mundo, a música tem um valor diametralmente oposto. Sainte-Colombe é um mestre na arte de tocar viola da gamba. Admirado pela corte francesa do século XVII, Sainte-Colombe, após a súbita morte da esposa, torna-se um recluso quase intratável, um homem rude, mas dotado de transbordante criatividade. Passa a tocar solitariamente e dá aulas apenas para suas duas filhas. Resistindo às tentações da corte, ele reage asperamente: “Prefiro minhas roupas de pano às vossas perucas da moda. Prefiro as minhas galinhas aos violinos do rei”.

O outro músico é Marin Marais, jovem que procura o mestre Sainte-Colombe com a intenção de ser seu discípulo musical. A relação entre eles será sempre tempestuosa. O talento, a dedicação e a visão de mundo de ambos os músicos estará separada por um abismo de consagração: o aluno quer exibir-se para a corte, o mestre quer tão-somente tocar música. Sainte-Colombe: “Jovem senhor, vós fazeis música. Mas não sois músico”. E dirá também: “Senhor, vós agradais a um rei visível. Eu aceno com a mão para algo invisível”.

Quando os anos transcorrem e a placidez da maturidade faz assentar a poeira da soberba juvenil, um idoso Marais percebe que foi iludido pelo fogo-fátuo do virtuosismo e do exibicionismo, relembra dolorosamente que não tem prazer algum na sua velhice de fama e fortuna na corte. É quando volta ao antigo mestre e, ambos, enfim, retomam o diálogo perdido:
“Senhor, o que procurais vós na música?” – lhe pergunta Sainte-Colombe.
“Procuro os lamentos e as lágrimas” – responde Marais.
Ou então:
“A música nos serve para falar somente aquilo que a palavra não é capaz. Assim, ela não é completamente humana. Descobriste, então, que ela não é para o rei?”

E ambos tocam Le Pleurs (Os prantos), de Sainte-Colombe, música que traduz a intensidade emocional do momento.

Amadeus e O Segredo de Beethoven são filmes sobre personagens musicais. Todas as Manhãs do Mundo é um filme sobre a música e seu significado. A música é o personagem central e o sentido que a arte merece é o que está em jogo aqui.

É como se a história nos perguntasse ao final: “De que vale ganhar o favor do rei e perder a alma?”. Não é que seja fácil ganhar a admiração popular. Porém, mais difícil é fazer a música que não grita, que não busca a emoção gratuita e os favores de um público ávido por fortes sensações musicais. Tudo isso pode ser muito bonito, mas nada tem de belo. O mundo, a rua, a igreja, a sala de concerto e o palco estão repletos de gafanhotos da música. São os que fazem grande alarido, mas apenas berram, devoram e se vão. São esses que fazem música, mas não são músicos. São esses que acenam para um público visível e enlouquecido por fotos, autógrafos e souvenirs – é o público que vai ver o ídolo e não ouvir uma música.

A trilha sonora do filme que comento é obra do gênio catalão Jordí Savall (foto), que recuperou e interpretou as músicas do barroco francês, período em que viveram os compositores Sainte-Colombe e Marin Marais. Savall é destas figuras raras e imprescindíveis que fazem música e são músicos, cujo primor, dedicação e honestidade artística seguem lado a lado.

Serviço:
Amanhã (terça-feira, dia 04), às 22 horas, a Rádio Cultura FM 103,3 (SP) transmitirá o concerto de Jordí Savall (regência e viola da gamba) e os musicistas da Hèsperion XXI realizado em São Paulo nos dias 16 e 18 de setembro. Você pode ouvir o concerto pela internet no site da Cultura FM.