29 dezembro, 2011

as músicas de 2011


Alguns dos álbuns que ouvi esse ano, e que considero importantes e bons, eu já gostei na primeira audição, como, entre outros, os trabalhos de Fernando Iglesias, Daniel Lüdtke e Athus (este, por se tratar de músicas já consagradas e ainda com aquelas pequenas joias musicais infantis). E alguns precisaram de mais audições. Faltou escutar outras músicas e cantores, mas aí está minha lista do que consegui ouvir quando meus filhos deixam eu mudar de cd em casa ou no carro:
Um CD que celebra o encontro entre a musicalidade popular e a sofisticação orquestral: Peças de Francis Hime e Nelson Ayres, gravadas pela OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo)

Dois gigantes da música instrumental brasileira na interpretação de dois grandes músicos: GismontiPascoal – A música de Egberto e Hermeto, de André Mehmari e Hamilton de Hollanda

Um CD com obras de um gênio do Romantismo interpretadas por um gênio do recato do sentimento: Chopin – The Nocturnes, de Nelson Freire

Um DVD que vale a pena ouvir de novo e que agrada todas as faixas etárias aqui de casa: Vai Começar, do Quarteto Athus

Um CD calmo, sereno e tranquilo; e inspirador: Madrugada, de Fernando Iglesias

Um CD que entende que a música pop contemporânea pode estar a serviço do evangelho se houver integridade e refinamento artístico: Daniela Araújo 

Um CD que é um bem-vindo sopro de novidade para as melodias de louvor congregacional acompanhado de um DVD que motiva a adoração reverente e alegre: Salmos, de Daniel Lüdtke

Quando voz, poesia e estilo se equilibram em um CD sem medo de ser feliz e cristão: Multiforme, de Paulo César Baruk

Um CD menos preocupado com modernidade sonora e mais centrado numa poesia que foca o amor perdoador e a comunhão: Quem Imaginou, de Vagner Dida

Não é um CD, mas é um testemunho de vida que tem muito mais a dizer que todo um catálogo de extravagância gospel: Rodolfo Abrantes no programa Altas Horas (veja aqui)

os filmes de 2011

Mais lentos e reflexivos, mais ágeis e divertidos, mais recentes, mais antigos, que comovem com sinceridade, que fazem sorrir sem vulgaridade: esses são os melhores filmes que assisti em 2011. 


Meia Noite em Paris, de Woody Allen – Uma fábula sobre o tempo, sobre o modo como idealizamos o passado, sobre o consumismo alienante contra a contemplação da beleza da arte e da vida. E ainda é romântico e engraçado onde as novas comédias americanas só são vulgares.

O Palhaço, de Selton Mello – Que palhaços escondem sua melancolia todos sabemos. Que essa melancolia vá aos poucos dando lugar à ternura, ao amor entre pai e filho, à reconciliação consigo mesmo, tudo isso sem perder a piada (e sem deixar de ser “censura livre”) é uma proeza.

Homens e Deuses, de Xavier Beauvois – A história dos monges ameaçados por terroristas islâmicos na Argélia não é contada como um filme de ação, mas de reflexão. Apesar da morte anunciada, aqueles homens não perdem a fé em Deus, buscam a fraternidade entre os homens e enxergam a beleza divina numa paisagem, numa ceia simples, numa música de Tchaikovski.

Inverno da Alma, de Debra Granik – Numa América miserável cuja face é pouco vista no cinema, uma adolescente terá que virar adulta bem cedo ao lidar com a pobreza extrema, com a ameaça de perder a casa, com o cuidado dos irmãos mais novos, com as tentações da corrupção. Uma jóia de espírito nobre e raro.

A Árvore da Vida, de Terrence Mallick – O que é o homem diminuto diante do universo infinito? Por que ser bom, se Deus nem sempre parece bondoso? Devemos viver a vida pela carne ou pela graça? Sem a menor pressa, este filme nos faz essas perguntas ao mostrar cenas da criação do mundo e cenas da criação dos filhos, momentos de busca pelo detalhe e de encontro com o transcendente.

Passagem para a Índia (1984), de David Lean – Uma viagem ao interior da Índia colonizada pelos ingleses é capaz de revelar o preconceito atrás da fachada de civilidade. Uma história de bondade e humildade contada por um gigante da narrativa como David Lean é imperdível.

O Veredito (1982), de Sidney Lumet – O grande Paul Newman interpreta um advogado decadente que precisa vencer uma batalha jurídica e a batalha contra seu alcoolismo. É ótimo assistir Paul Newman no tribunal e é fascinante ver um homem erguendo-se do seu vício.

Luz de Inverno (1962), de Ingmar Bergman – Um pastor não consegue confortar sua igreja porque está perdendo sua fé e ainda é rude com quem lhe dá afeto. Quando encontra alguém que não questiona a existência de Deus e nem lamenta a própria deficiência física, mas lhe diz que Cristo sofreu muito mais por causa da solidão da cruz, o pastor volta a sua fé. Lento, austero, mas repleto de descobertas e revelações espirituais.

Ladrões de Bicicletas (1949), de Vittorio de Sica – Na Itália empobrecida do pós-guerra, pai e filho percorrem as ruas em busca do homem que roubou sua bicicleta, sem a qual perderá seu emprego. Um dos filmes mais tocantes que já vi em sua simplicidade de narrativa e grandeza de sentimentos.

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Mais:
As músicas de 2011
Os livros de 2011

28 dezembro, 2011

os livros de 2011

Tem hora que meus estudos exigem tanta bibliografia, que já não sei se estou lendo para estudar ou se estou estudando para ler. Na hora de peneirar o trigo e o joio, separei abaixo dez livros lidos em 2011:


Um livro de fácil leitura de um biofísico e teólogo que desmonta um a um os argumentos de outro livro (Deus, um delírio): O delírio de Dawkins, de Alister McGrath.

Um livro de um ateu que mostra como os bestsellers ateístas promovem uma caricatura da realidade religiosa e como a ciência e a religião têm traído seus ideais: O debate sobre Deus: razão, fé e revolução, de Terry Eagleton.

Um livro que abandona a história da música contada em linha reta e une estética e politicamente blues e Bach, ópera e Bob Dylan, John Cage e Kurt Cobain: Escuta Só: do clássico ao pop, de Alex Ross 

Um livro que descortina uma percepção sábia da música e nos apresenta uma ideia rica e inclusiva da prática musical: A Música Desperta o Tempo, de Daniel Barenboim

Um livro que apresenta os diversos estilos de louvor e culto e não se furta a dar conclusões: Adoração ou Show: críticas e defesas de seis estilos de culto, de Paul Basden (org.)


Uma pequena obra-prima sobre a fragilidade da inocência e da virtude numa sociedade corrompida: Billy Budd, o Marinheiro, de Herman Melville

Um livro que mostra 13 pessoas, entre eles, Tolstoi, Dostoievski, Martin Luther King, Chesterton e até Gandhi, cuja vida e fé cristã são alento e inspiração: O título não é “13 pessoas e um segredo de fé”, mas  Alma Sobrevivente, de Philip Yancey

Um livro que analisa o relativismo e o ceticismo que têm paralisado a vida espiritual do cristão contemporâneo: Marcados pelo Futuro, de Douglas Reis

Um estudo imparcial de um período em que as dificuldades culturais e geográficas do trabalho de evangelismo eram acompanhadas de exclusivismo religioso e sectarismo social: O Celeste Porvir: a inserção do protestantismo no Brasil, de Antonio Gouveia Mendonça

Um livro que mostra as divergências e convergências entre as práticas musicais populares e eruditas e ainda desmistifica a origem e o uso da síncope na canção brasileira: História e Música no Brasil, de José Geraldo Vinci de Moraes e Elias Thomé Saliba (orgs.)



22 dezembro, 2011

Charlie Brown e o verdadeiro sentido do natal

Em 1965, foi ao ar um dos programas especiais mais amados de todos os natais televisivos, "A Charlie Brown Christmas" (O Natal do Charlie Brown). O produtor do especial, Lee Mendelson, conta que Charles Schulz, o criador dos Peanuts (a turma do Charlie Brown), insistiu que o programa deveria ser sobre o verdadeiro significado do Natal. De outro modo, "por que se importar em fazer um especial de Natal", Schulz teria dito a Mendelson.

Quando os produtores lhe perguntaram se ele realmente queria incluir um texto bíblico na animação de Natal, Schulz respondeu: "Se nós não fizermos, quem fará?" E assim ficou a marcante cena em que Charlie Brown pergunta se alguém pode lhe explicar qual o verdadeiro sentido do Natal e Linus responde entrando num palco e recitando com inocência cativante a passagem de Lucas 2:8-14. Lee Mendelson considera que esses são "os dois minutos mais encantadores da história da animação na TV".

Ao escrever sobre os Peanuts no especial "Manhood for Amateurs", Michael Chabon, que se descreve como um "judeu liberal agnóstico empirista", disse ainda: "Eu ainda sei de cor aquele capítulo e versículo do Evangelho de Lucas. E não importa a quantidade de desilusão posterior com o comportamento de confessos cristãos, ou com a comercialização progressiva que em 1965 já havia partido o coração de Charlie Brown, nada disso roubou do milagre central do cristianismo o seu poder de me comover de um modo como nenhuma outra história verdadeiramente grande é capaz".

A resposta à pergunta de Charlie Brown está no vídeo. E eu fico com a pureza da resposta das crianças:



A tradução está em Lucas 2:8-14:
Havia pastores que estavam nos campos próximos e durante a noite tomavam conta dos seus rebanhos.
E aconteceu que um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor resplandeceu ao redor deles; e ficaram aterrorizados.
Mas o anjo lhes disse: "Não tenham medo. Estou lhes trazendo boas novas de grande alegria, que são para todo o povo:
Hoje, na cidade de Davi, lhes nasceu o Salvador que é Cristo, o Senhor.
Isto lhes servirá de sinal: encontrarão o bebê envolto em panos e deitado numa manjedoura".
De repente, uma grande multidão do exército celestial apareceu com o anjo, louvando a Deus e dizendo: "Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens". 

Um feliz você nesse Natal!

Matéria completa no Washington Post

19 dezembro, 2011

quando a esmola da Globo é demais, o crente desconfia


A música gospel se tornou a espinha dorsal de uma indústria cujos altos cifrões de vendagem e baixos números de pirataria chamaram a atenção da indústria musical secular. 

O potencial consumidor do mercado musical evangélico chamou a atenção da Rede Globo, a partir do seu braço musical, a Som Livre. O resultado foi a produção e exibição do Festival Promessas, que contou com os nomes mais conhecidos do gospel nacional.

Então, as desavenças históricas entre a Globo e os evangélicos (leia-se “entre Globo e Edir Macedo”, leia-se, Globo e Record) são coisa do passado? Não se engane. Nessa diplomacia religiosa há muito de disputa comercial. As TVs vivem de audiência e nada mais natural que a Globo veja os evangélicos não como um campo missionário, mas como seara pronta para a ceifa de lucros e dividendos.

E o que faz o cristão quando se vê como um componente do jogo de mercado? Dá as costas e vai procurar sua turma? Dá uma lição nas víboras capitalistas e vai vender geleia Real de porta em porta? Aproveita a chance de apresentar sua mensagem na maior rede de TV do país?

Mas, qual a mensagem apresentada pelo gospel na Globo? Pergunto isso porque, apesar de Ana Paula Valadão recitar João 3:16, falar da cruz e cantar do Apocalipse como algo a não temer, o que se assistiu antes em boa parte do programa foram alguns cantores falando “derrama, derrama”, “tira o pé do chão, igreja!”, “declare para o Brasil inteiro ouvir”, “levante as mãos que o helicóptero está filmando”.

Para a Globo é bom: o povo adora, ela explora e ainda tira aquela pecha de “emissora do capeta” que algumas igrejas lhe davam. Para o gospel é bom: o cantor vende e ora, o fiel compra e chora; mas nunca é demais lembrar que há vozes honestas e corações sinceros.

E para o evangelho? Há o cristão que vê a mão bem visível do mercado do entretenimento tomando para si a música destinada ao louvor e adoração a Deus. Talvez porque, quando a esmola da Globo é demais, o crente desconfia. E há o cristão que acredita que o evangelho está abrindo portas para chegar ao conhecimento de muito mais gente.

Mas, qual evangelho? O do pula-pula e do oba-oba ou o do chamado à reflexão? O do evangelho de mercado ou o do evangelho apesar do mercado? O do culto à canção ou o do culto com pregação? O do sucesso ou o do serviço? São duas faces da mesma moeda, ou do mesmo evangelho?

A Globo quer audiência e uma fatia do lucrativo mercado musical evangélico. Ponto. Então, caro cantor gospel, vá lá, cante e dê sua mensagem. Só não dá pra dizer, caro cantor, que agora o Brasil é de Jesus, porque não é bem assim que as coisas acontecem.

"Gospel" quer dizer também "evangelho". Os mais empolgados cantaram uma importante vitória desse "gospel" evangelizador. Gospel afirmou-se também como sinônimo de uma produção musical industrial em série. Como embalagem, os mais cautelosos desconfiam que Globo e gospel tem tudo a ver; enquanto mensagem, eles creem que Globo e evangelho não tem nada a ver.

Enfim, a suma de tudo o que ouviste pela voz do gospel na Globo é esta: quem é evangélico e gosta do estilo, assistiu e se emocionou; quem não é evangélico, deve ter mudado de canal; e quem é evangélico e não gosta do estilo, ficou constrangido. Mas, gostando ou não do estilo, deixemos o povo cantar. “Se for de Deus, prosperará; se não for de Deus, ...”

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Estão dizendo que o idealizador do programa foi o pastor Silas Malafaia, que teria “profetizado” que um dia estaria falando na TV Globo. Essa informação levou  o pastor Vicente Sabbatino a declarar: “O profeta de nossa geração disse que um dia estaríamos na Globo. O Festival Promessas é apenas o primeiro ato de uma sinfonia de vitória”. Cada geração tem o profeta que merece? Bem, parece que alguns estão bem seguros de que só Jeová é Deus e Malafaia é seu profeta. 

14 dezembro, 2011

eu odeio música clássica

"Eu odeio música clássica: não a coisa, mas o nome. Há pelo menos um século, a música tem sido escrava de um culto elitista medíocre que tenta fabricar autoestima agarrando-se a fórmulas vazias de superioridade intelectual. Pensem nos outros nomes que lhe dão: música "erudita", música "séria", "grande" música, "boa" música. 

"Os compositores foram traídos por uma gente bem-intencionada que acredita que a música deveria ser comercializada como um bem de luxo, que substitui um produto popular inferior. Esses guardiões dizem: "A música que você adora é lixo. Em vez disso, ouça nossa grande música erudita". Mas a música é um meio pessoal demais para sustentar uma hierarquia absoluta de valores.

"Ao ouvir a palavra "clássica", muita gente só pensa em "morta". A música é descrita em termos de sua distância do presente, sua diferença da massa".

Esse foi um resumo canhestro das primeiras duas páginas do ótimo "Escuta Só: do clássico ao pop", livro de Alex Ross (Cia. das Letras). Concordo com ele sem tirar nem por.  

E eu também odeio a música clássica quando alguém me diz que:

1) A música de Mozart me deixa mais inteligente [curioso que não fez do próprio Mozart alguém sensato! Fora que o genial Mozart estava mais para um roqueiro irreverente ou um sambista boêmio].

2) A música clássica faz bem para a saúde [ah, claro, Beethoven virou mingau de aveia. No máximo, a música de Haydn é boa para a digestão. Aliás, uma enorme parte de sua obra era composta para ser tocada após as refeições do príncipe Ezterhàza que o sustentava financeiramente]

3) A música clássica eleva a alma [só que tem música que eleva a alma, mas torra a paciência. Tem gente que diz adorar música clássica, mas em casa só aguenta ouvir cinco minutos de cada sinfonia].

4) A música clássica ilumina o espírito [deve iluminar só o espírito, porque o corpo apaga devido ao ataque de bocejos generalizado. Pior só o ataque de tosse que acomete a plateia entre um movimento e outro de uma peça]

5) A música clássica é dos homens de bem [que o digam dois ilustres amantes da música erudita, Hitler e Stalin]

Para mim, a música de Chopin, Bach, Shostakovich, Beethoven e cia. está bem viva e não tem nada a ver com esse museu [ou cemitério] que criaram para ela. Amo a música clássica, mas não espalho por aí que ela é a única música que merece a posteridade. Muitas vezes ela é vista como a panaceia da educação musical, como a redentora do gosto cultural. Só que acabam fazendo dela uma ditadura tão agressora quanto a tirania absolutista do hit parade popular.

08 dezembro, 2011

perdoa-me por não consumir


Logo após a II Guerra Mundial, o mundo estava falido, faminto e sem crédito. Mesmo o vigoroso parque industrial dos Estados Unidos via seu futuro ameaçado. Quem compraria os produtos fabricados pelos EUA? E onde os milhares de soldados que voltavam pra casa iriam trabalhar?

A solução veio de Victor Lebow, um consultor norte-americano especializado em varejo. A saída era a aceleração do ciclo de produção e consumo: “Nossa economia enormemente produtiva requer que façamos do consumo o nosso modo de vida, que convertamos a compra e o uso de mercadorias em rituais, que busquemos a nossa satisfação espiritual ou do nosso ego no consumo. Nós precisamos de coisas consumidas, destruídas, gastas, substituídas e descartadas numa taxa continuamente crescente” (Carta Capital, ed. 675).

E assim se fez. Houve tardes e manhãs e substituiu-se a “economia de abastecimento” pela “economia de consumo”. E o parque industrial “curtiu” muito tudo isso.

A média de durabilidade de 99% dos produtos comercializados nos EUA é de seis meses. Antigamente, as pessoas compravam bens duradouros. Hoje, precisamos retornar constantemente às lojas. Não para reclamar de defeitos do produto, mas para adquirir o mesmo produto agora com outra cor, outro tamanho, outro acessório. O tempo de fossilização de um telemóvel (o celular) ou de um automóvel se conta em lapse-time, o lapso de tempo das imagens aceleradas.

A esse processo de rápido envelhecimento dos produtos chamamos de obsolescência planejada. Parece teoria da conspiração, mas na verdade, foi uma solução bem prática para o mercado. A questão não era mais só abastecer/vender para pessoas que não tinham determinado produto. O negócio do século XX foi vender o mesmo produto várias vezes para as mesmas pessoas.

Nossa economia está organizada para vender produtos para a porcentagem da humanidade que é capaz de comprar. Claro que sempre vai ter gente que faz como fazem os países falidos do Euro: tomam empréstimos para pagar dívidas. Ou seja, são cidadãos e governos que vivem de acordo com suas posses, ainda que tenham que se endividar para fazê-lo!

O círculo produção-consumo viciou a população: o povo para de comprar, o setor industrial para de produzir, o governo diz “sim” ao lobby dos eletrodomésticos e das montadoras e lá vem de novo a gritaria dos comerciais de carro, fogão e TV. Quer pagar quanto?

Mas eu já tenho! Mas o seu não faz isso, nem isso, nem é assim! Mas eu não posso! Mas nós parcelamos em suaves prestações! E aí, mesmo sabendo que “suaves prestações” são duas palavras tão inconciliáveis quanto “puxe/empurre”, você leva o produto.

Já nos deram espelhos e vimos um mundo doente. Agora, nos dão cartões de plástico. E isso divide a doença em 24 vezes.

Mas se eu paro de ir às compras, a loja despede funcionários, e é mais gente que não irá mais ao shopping, e então as indústrias pedem um corte de juros ao governo, que corta os juros, o que me levará ao shopping, o que aumenta minha dívida no cartão, o que me fará parar de ir às compras, fará a loja demitir...

Parece até que a culpa pela falência mundial do capitalismo é minha. Endividado, vou lá quitar a honra do planeta. Digo ao atendente: “Perdoa-me por não consumir”. E pago. O gerente olha o débito quitado e me diz “Perdoadas estão tuas dívidas”. E saio. Uma voz difícil de atender me diz “Vai e não consumas mais”. E volto pra casa contrariado, mas aliviado. 

05 dezembro, 2011

a ética de Sócrates e o calcanhar de Aquiles


Sócrates, o filósofo grego, morreu envenenado por uma bebida feita de cicuta. Sócrates, o genial jogador, faleceu envenenado pela bebida alcoólica. Nessa óbvia e trágica conexão greco-tupiniquim, o nosso Sócrates, rei do calcanhar no futebol, tinha também seu calcanhar de Aquiles. Como ele mesmo viria a admitir nos últimos meses, ele abusou do álcool e seu corpo começou a cobrar essa dívida que, em geral, se paga com a vida.

É claro que nenhuma cervejaria convidou Sócrates para protagonizar seus comerciais. Até porque em propaganda de bebida alcoólica só tem povo sarado e “guerreiro”. E Sócrates não era um guerreiro de futilidades: assim como lutou pela participação dos jogadores nas decisões importantes do clube (criou a chamada Democracia Corintiana), ele lutou também pela participação popular no processo democrático brasileiro. As Diretas Já não vieram a tempo, em 1985, mas foi só uma questão de tempo.

Assim como Antonio Carlos Brasileiro Jobim, Sócrates também tinha o Brasileiro no nome. Os dois tinham uma profunda ligação com o Brasil, com a arte musical brasileira, com o futebol-arte brasileiro. As melodias simples e assobiáveis de Tom camuflavam a invenção genial. O simples toque de calcanhar de Sócrates era um desafio à lógica. As invenções mais geniais são as mais óbvias.

Jogador de poucos e essenciais toques na bola, Sócrates fez da simplicidade a sua marca. Não era um malabarista. Às vezes parecia até desengonçado, talvez porque fosse difícil para um homem de 1,90 m equilibrar-se em pés tamanho 37.

Mas resolvia as dificuldades em campo com uma tranquilidade desconcertante. Mesmo seu célebre toque de calcanhar não era um enfeite; era refinado e prático, utilizado para desmontar a razão pura dos zagueiros. Por isso, os adversários não lhe roubavam a bola facilmente. Achavam que Sócrates iria recuar ou perder a bola, quando na verdade o Magrão estava preparando com uma falsa lentidão seu bote final.

Antes de tomar o cálice de cicuta e morrer, Sócrates, o filósofo grego, disse ao amigo Críton: “Devemos um galo a Asclépio; não te esqueças de pagar essa dívida”. A ética do filósofo não morria com ele. 

Após a conquista do bicampeonato paulista em 1983, um repórter perguntou a Sócrates Brasileiro qual o jogador determinante para aquele triunfo. Sócrates disse que foi o artilheiro Casagrande, o incansável Biro-Biro, o organizador Zenon? Nenhum deles. Sócrates cravou: “Foi Émerson Leão. Sem ele, acho que não chegaríamos ao título”. Só que o goleiro Leão era o maior opositor de Sócrates na Democracia Corintiana. A voz honesta e a ética de Sócrates, o Brasileiro, eram ainda maiores que seu extraordinário futebol. Valeu, Doutor!