Em 2014, encerrei meu doutorado, publiquei um livro e lancei a "pedra fundamental" do meu projeto musical. Entre pesquisar pra escrever e pesquisar pra dar aulas, entre não ouvir para compor e ouvir para aprender, tive tempo pra ver filmes. Alguns deles, me fizeram considerar melhor a arte, a profissão e a profissão de fé.
Obs: nem tudo o que li, ouvi e assisti foi lançado em 2014, mas só deu pra ter acesso neste ano que se vai.
Ponto Final: crônicas sobre os anos 1960 e suas desilusões (Mikal
Gilmore / Cia. das Letras) – cada capítulo deste livro cobre um músico ou banda
significativa das revoluções musicais e culturais dos anos 1960 e 1970:
Beatles, John Lennon, Bob Dylan, Bob Marley, Jim Morrison, Led Zeppelin, Pink
Floyd, Johnny Cash, a lista segue. O autor, jornalista da revista Rolling
Stone, analisa os feitos musicais e as conquistas sociais e políticas que estão
relacionadas aos artistas, mas não deixa de fora o lado sombrio da inquietação
espiritual, da desilusão política e do mergulho (para alguns daqueles músicos,
sem volta) infernal nas drogas.
Boyhood: da infância à juventude - Filmando ao longo de 12 anos, Linklater captou o adolescer em seus fragmentos e estabeleceu um novo paradigma para arte do cinema. As dores, as alegrias, os percalços, os sentimentos confusos, as experiências: está tudo ali, radiografado com precisão e espontaneidade impressionantes, acompanhando o desenvolvimento silencioso de um garoto comum.
A Palavra - Um milagre da meditação, da contenção, da sobriedade, da fé, do cinema.
Viver - O mestre Akira Kurosawa dando uma lição de vida e uma aula de cinema. Depois de assisti-lo, você vai se perguntar porque tanta gente só decide viver quando descobre que tem pouco tempo de vida.
Obs: nem tudo o que li, ouvi e assisti foi lançado em 2014, mas só deu pra ter acesso neste ano que se vai.
Livros
Os jesuítas e a música no Brasil colonial (Marcos Holler / Ed. Unicamp)
– A atuação pedagógico-musical dos padres da Companhia de Jesus entre indígenas
e os recém-chegados europeus é fartamente documentada com cartas e outros
textos redigidos ainda no século 16. Tecendo a trama entre religião, arte e cultura,
o autor busca explicações para entender porque os nativos aceitaram a cultura
musical de seus colonizadores.
Os Irmãos Karamázov (Fiódor Dostoiévski / Editora 34) – Depois de mais
de 20 anos, voltei a ler essa obra-prima, agora na premiada tradução de Paulo
Bezerra, a primeira feita diretamente do idioma russo original. Quase mil
páginas e dois volumes depois, não posso negar que esse livro é gigantesco em
todos os sentidos. Partindo dos conflitos familiares que envolvem a família
Karamázov – o hesitante Dmitri, o ateu Ivan, o religioso Alieksêi e o dissoluto
pai destes três – Dostoiévski aborda a fé, a justiça, a política, os laços
familiares, pintando não só um pinel da vida russa no século 19, mas um retrato
do ser humano em vários aspectos de sua existência. Não é para ler em uma
semana, mas para saborear com vagar e refletir com vigor.
Ah, sim: você não vai encontrar a tão citada frase “se Deus não existe,
tudo é permitido”. Dostoiévski nunca disse isso. Alguns personagens do livro é
que pensam ter ouvido isso da boca do personagem Ivan em uma das impactantes
discussões religiosas da família Karamázov.

A religião entre o espetáculo e a intimidade (vários autores) – o
espetáculo incide sobre a forma e o conteúdo das crenças? A intimidade tem se
constituído em espaço de consumo nos ambientes religiosos? Fui ao Congresso de
Ciências da Religião para lançar meu livro “Música e religião na era do pop” e
trouxe este, uma reunião de artigos de especialistas participantes do congresso
realizado em Goiânia.
O canto cristão na tradição primitiva (Xavier Basurko / Paulus) – o que se cantava, como se cantava e o que escreviam os chamados Pais da Igreja. Basurko dispõe textos documentais sobre a música sagrada, fazendo desse pequeno livro uma preciosidade sobre a música das primeiras comunidades cristãs.
Músicas
Mistura Brasileira (Turíbio Santos) – um dos grandes violonistas
nacionais, Turíbio Santos visita obras de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e
Tom Jobim, além de composições autorais, e oferece um trabalho primoroso de
erudição e sabor popular.
Here’s to the Ones (Rhett Walker Band) – a combinação precisa de
country e rock, gêneros primos, celebra a fé e convida à alegria e à reflexão com arranjos pulsantes e vocais vigorosos. Muito mais do que um Gaither Vocal Band turbinado.
Renascido (Daniel Salles) – a black music americana e a canção negra
brasileira se encontram para falar de amor romântico e divino, de renascimento
físico e espiritual, tudo com letras primorosas e arranjos que se destacam pela
leveza.
Condição Humana (Guilherme Arantes) – ele ainda detém o posto de
letrista inteligente, que tem soluções musicais bonitas de ouvir, que não
vulgariza o pop e sabe cantar as coisas da vida como as duplas sertanejas de
agora não sabem (ou não querem).
Herói da Fé (vários) – as letras maravilhosas de Mário Jorge Lima
sempre tiveram um ótimo melodista em Lineu Soares. Poeta e músico se unem para
contar a história do apóstolo Paulo em forma de oratório moderno. Os cantores
convidados são Leonardo Gonçalves, Laura Morena, Joyce Carnassale, Riane
Junqueira, Regina Mota e Marcel Freire. Há ecos de cantatas e arranjos da
música clássica do século XX (Stravinski e Carl Orff estão entre os facilmente
reconhecíveis), mas há também uma sinuosidade melódica nacional que está entre
os momentos mais brilhantes dessa obra.
DVD Princípio (Leonardo Gonçalves) – registro ao vivo da musicalidade de um
dos cantores mais relevantes da sua geração. Seja em arranjos de banda pop ou arranjos
orquestrais, tudo é feito com muita erudição e refinamento. Letras que não
falam o “evangeliquês”, e sim saltam os clichês para comunicar pensamentos
sobre verdade, bondade, princípio e fim.
Filmes
Boyhood: da infância à juventude - Filmando ao longo de 12 anos, Linklater captou o adolescer em seus fragmentos e estabeleceu um novo paradigma para arte do cinema. As dores, as alegrias, os percalços, os sentimentos confusos, as experiências: está tudo ali, radiografado com precisão e espontaneidade impressionantes, acompanhando o desenvolvimento silencioso de um garoto comum.
Grande Hotel Budapeste - A artificialidade dos planos e
cenários do cinema de Wes Anderson é o palco para a profundidade dos dilemas
dos personagens. Divertido e terno.
Os Esquecidos - Uma pequena obra-prima de Luís Buñuel que não
desresponsabiliza os pobres pela miséria e pela violência (ao mostrar os pobres
explorando os de sua condição também) e mostra uma sociedade patética em suas
tentativas de corrigir e reprimir a delinquência juvenil. Não há um justo sequer, não, nenhum.
A Caça - A discussão sobre pedofilia ganha ares de tragédia
social quando uma mentira devasta a vida de um professor. O suspense aqui é o
horror da dúvida do espectador sobre o que aconteceu.
César Deve Morrer - A encenação de uma peça de Shakespeare atrás das grades. Homens de
força e talento bruto.
até o ano que vem!
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