Pular para o conteúdo principal

melhores livros, músicas e filmes de 2014

Em 2014, encerrei meu doutorado, publiquei um livro e lancei a "pedra fundamental" do meu projeto musical. Entre pesquisar pra escrever e pesquisar pra dar aulas, entre não ouvir para compor e ouvir para aprender, tive tempo pra ver filmes. Alguns deles, me fizeram considerar melhor a arte, a profissão e a profissão de fé.

Obs: nem tudo o que li, ouvi e assisti foi lançado em 2014, mas só deu pra ter acesso neste ano que se vai.

Livros

Os jesuítas e a música no Brasil colonial (Marcos Holler / Ed. Unicamp) – A atuação pedagógico-musical dos padres da Companhia de Jesus entre indígenas e os recém-chegados europeus é fartamente documentada com cartas e outros textos redigidos ainda no século 16. Tecendo a trama entre religião, arte e cultura, o autor busca explicações para entender porque os nativos aceitaram a cultura musical de seus colonizadores.

Os Irmãos Karamázov (Fiódor Dostoiévski / Editora 34) – Depois de mais de 20 anos, voltei a ler essa obra-prima, agora na premiada tradução de Paulo Bezerra, a primeira feita diretamente do idioma russo original. Quase mil páginas e dois volumes depois, não posso negar que esse livro é gigantesco em todos os sentidos. Partindo dos conflitos familiares que envolvem a família Karamázov – o hesitante Dmitri, o ateu Ivan, o religioso Alieksêi e o dissoluto pai destes três – Dostoiévski aborda a fé, a justiça, a política, os laços familiares, pintando não só um pinel da vida russa no século 19, mas um retrato do ser humano em vários aspectos de sua existência. Não é para ler em uma semana, mas para saborear com vagar e refletir com vigor.
Ah, sim: você não vai encontrar a tão citada frase “se Deus não existe, tudo é permitido”. Dostoiévski nunca disse isso. Alguns personagens do livro é que pensam ter ouvido isso da boca do personagem Ivan em uma das impactantes discussões religiosas da família Karamázov.

Ponto Final: crônicas sobre os anos 1960 e suas desilusões (Mikal Gilmore / Cia. das Letras) – cada capítulo deste livro cobre um músico ou banda significativa das revoluções musicais e culturais dos anos 1960 e 1970: Beatles, John Lennon, Bob Dylan, Bob Marley, Jim Morrison, Led Zeppelin, Pink Floyd, Johnny Cash, a lista segue. O autor, jornalista da revista Rolling Stone, analisa os feitos musicais e as conquistas sociais e políticas que estão relacionadas aos artistas, mas não deixa de fora o lado sombrio da inquietação espiritual, da desilusão política e do mergulho (para alguns daqueles músicos, sem volta) infernal nas drogas.


A religião entre o espetáculo e a intimidade (vários autores) – o espetáculo incide sobre a forma e o conteúdo das crenças? A intimidade tem se constituído em espaço de consumo nos ambientes religiosos? Fui ao Congresso de Ciências da Religião para lançar meu livro “Música e religião na era do pop” e trouxe este, uma reunião de artigos de especialistas participantes do congresso realizado em Goiânia.

O canto cristão na tradição primitiva (Xavier Basurko  / Paulus) – o que se cantava, como se cantava e o que escreviam os chamados Pais da Igreja. Basurko dispõe textos documentais sobre a música sagrada, fazendo desse pequeno livro uma preciosidade sobre a música das primeiras comunidades cristãs.



Músicas

Mistura Brasileira (Turíbio Santos) – um dos grandes violonistas nacionais, Turíbio Santos visita obras de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Tom Jobim, além de composições autorais, e oferece um trabalho primoroso de erudição e sabor popular.


Here’s to the Ones (Rhett Walker Band) – a combinação precisa de country e rock, gêneros primos, celebra a fé e convida à alegria e à reflexão com arranjos pulsantes e vocais vigorosos. Muito mais do que um Gaither Vocal Band turbinado.


Renascido (Daniel Salles) – a black music americana e a canção negra brasileira se encontram para falar de amor romântico e divino, de renascimento físico e espiritual, tudo com letras primorosas e arranjos que se destacam pela leveza.

Condição Humana (Guilherme Arantes) – ele ainda detém o posto de letrista inteligente, que tem soluções musicais bonitas de ouvir, que não vulgariza o pop e sabe cantar as coisas da vida como as duplas sertanejas de agora não sabem (ou não querem).

Herói da Fé (vários) – as letras maravilhosas de Mário Jorge Lima sempre tiveram um ótimo melodista em Lineu Soares. Poeta e músico se unem para contar a história do apóstolo Paulo em forma de oratório moderno. Os cantores convidados são Leonardo Gonçalves, Laura Morena, Joyce Carnassale, Riane Junqueira, Regina Mota e Marcel Freire. Há ecos de cantatas e arranjos da música clássica do século XX (Stravinski e Carl Orff estão entre os facilmente reconhecíveis), mas há também uma sinuosidade melódica nacional que está entre os momentos mais brilhantes dessa obra.


DVD Princípio (Leonardo Gonçalves) – registro ao vivo da musicalidade de um dos cantores mais relevantes da sua geração. Seja em arranjos de banda pop ou arranjos orquestrais, tudo é feito com muita erudição e refinamento. Letras que não falam o “evangeliquês”, e sim saltam os clichês para comunicar pensamentos sobre verdade, bondade, princípio e fim.


Filmes


Boyhood: da infância à juventude - Filmando ao longo de 12 anos, Linklater captou o adolescer em seus fragmentos e estabeleceu um novo paradigma para arte do cinema. As dores, as alegrias, os percalços, os sentimentos confusos, as experiências: está tudo ali, radiografado com precisão e espontaneidade impressionantes, acompanhando o desenvolvimento silencioso de um garoto comum.

Grande Hotel Budapeste - A artificialidade dos planos e cenários do cinema de Wes Anderson é o palco para a profundidade dos dilemas dos personagens. Divertido e terno. 



Os Esquecidos - Uma pequena obra-prima de Luís Buñuel que não desresponsabiliza os pobres pela miséria e pela violência (ao mostrar os pobres explorando os de sua condição também) e mostra uma sociedade patética em suas tentativas de corrigir e reprimir a delinquência juvenil. Não há um justo sequer, não, nenhum.

A Caça - A discussão sobre pedofilia ganha ares de tragédia social quando uma mentira devasta a vida de um professor. O suspense aqui é o horror da dúvida do espectador sobre o que aconteceu.


A Palavra - Um milagre da meditação, da contenção, da sobriedade, da fé, do cinema.

Viver - O mestre Akira Kurosawa dando uma lição de vida e uma aula de cinema. Depois de assisti-lo, você vai se perguntar porque tanta gente só decide viver quando descobre que tem pouco tempo de vida.



César Deve Morrer - A encenação de uma peça de Shakespeare atrás das grades. Homens de força e talento bruto. 

até o ano que vem!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Lutero e a Reforma da música - parte 1

Andreas Karlstadt acaba de publicar em Wittenberg um panfleto com 53 tópicos condenando a liturgia católica, rejeitando seu formato, seu idioma e sua música inacessível ao canto congregacional. Isso foi manchete em março de 1522. Naquele ano, Martinho Lutero, após seu exílio no castelo de Wartburg, voltava para Wittenberg, onde em 31 de outubro de 1517 ele publicara suas 95 Teses. Isso continua sendo manchete há 499 anos. Esperava-se que o Dr. Lutero, o reformador protestante, apoiasse Karlstadt. Mas ao chegar na cidade, Lutero profere uma série de oito sermões com o intuito de corrigir a reforma litúrgica radical de Karlstadt. A reforma luterana deveria ser mais cautelosa e mais conservadora devido 1) à necessidade de reformar o ensino bíblico antes de modificar o ritual e 2) ao apreço de Lutero pelo canto tradicional polifônico. As proposições reformadoras de Lutero cuidaram de preservar o aparato cerimonial da missa católica, cuja música, linguagem e ornamentações possuíam alto valor …

uma imagem que vale mil canções: história da música dos adventistas

A história da música adventista no Brasil passa obrigatoriamente pelos músicos nessa foto, tirada num encontro de músicos no Rio de Janeiro: 1ª fila, da esq. para direita: Mário Jorge Lima, Williams Costa Junior, Jader Santos 2ª fila: Evaldo Vicente, Valdecir Lima, Lineu Soares, Flávio Santos 3ª fila, à direita: Alexandre Reichert Filho
[Não conheço o trabalho de Wilson Almeida e Horly de Oliveira, na 3ª fila, da esquerda para direita. Por isso, vou mencionar somente os demais músicos].
No final dos anos 1970 e início dos anos 80, tendo como epicentro o Instituto Adventista de Ensino (hoje, UNASP-SP), eles viabilizaram uma mudança de paradigma sacro-musical que impactou a estrutura musical e poética tradicional e mobilizou um novo modelo de prática musical para as igrejas adventistas no Brasil.

Trata-se de uma foto carregada de capital simbólico, visto que reúne uma geração espetacular de letristas, maestros, instrumentistas, compositores e arranjadores que deram novos rumos à música…

quando a teologia canta