22 novembro, 2006

M DE MOZART E MARACATU NO MARANHÃO

M DE MOZART E MARACATU NO MARANHÃO

Antonio Rayol respirava ansioso no camarim do Teatro São Luís. Eleito vice-diretor da Academia de Música do Rio de Janeiro, o maranhense voltava à cidade natal para uma série de concertos. Não bastasse ter de estar à altura do sofisticado público ludovicense, lembrar que uma de suas peças escolhidas, a Serenata Brasileira, não seria apresentada devido à gripe contraída pela soprano, só não o deixava estressado porque stress era uma palavra desconhecida na época. Mas, entre um compositor barroco e um Mozart, afinal, era o ano de 1891 e lembrava-se naquela noite o centenário da morte do gênio de Salzburgo, a platéia aplaudiu freneticamente a polka Pastorinhas, obra do agora mais calmo Rayol.
A história acima pode ter acontecido ou não na São Luís novecentista, cujos espectadores do século XXI reviveram noites gloriosas da música de concerto, comum no outrora chamado Teatro São Luís, ainda esporádico no Arthur Azevedo. Na noite de quarta-feira passada, 24 de maio, a platéia foi inebriada pelo arranjo secular de Max Bruch sobre a melodia tradicional judaica Kol Nidrei. A orquestra, regida por Antonio Del Claro, construía uma via dolorosa em que o violoncelista maranhense Joel Costa fazia a melodia caminhar trágica, dilacerante.
Infelizmente, não foi possível ouvir a Serenata Brasileira, de Antonio Rayol (a história da gripe, neste caso, é real), mas a polka Pastorinhas foi apresentada, inclusive no bis final. Foi bom ser reapresentado ao tenor e compositor Rayol, que não era um nacionalista fervoroso, daí esta
peça não ter o mencionado "sabor da terra", a não ser o da pátria dos Strauss e dos von Trapp.
No filme Amadeus, de 1984, um Salieri já senil toca algumas de suas composições, sucessos em sua juventude, para um único ouvinte num sanatório. Este, entretanto, não reconhece uma obra sequer. Porém, quando ouve os compassos iniciais da Pequena Serenata Noturna, se põe a cantarolar e pergunta, maravilhado: "É sua?". Não, foi a resposta; é de Mozart, rival de Salieri mais no roteiro de Peter Schaeffer do que na própria realeza austríaca. A platéia do Arthur Azevedo, comungando com a orquestra na celebração dos 250 anos de nascimento de W. Amadeus Mozart, ouviu a obra citada com um sorriso encantado nos lábios.
A orquestra, reunida durante a semana do IV Encontro de Cordas da Escola de Música do Estado do Maranhão, também tocou com incrível vivacidade a peça do contemporâneo Ernani Aguiar, 4 Momentos para Orquestra de Cordas. O 1º movimento, Maracatu, lúdico, uma brincadeira de rua. O 3º, Canto, uma vereda de lamentações dos retirantes de secas vidas. Por último, uma marcha polirrítmica difícil e empolgante. Muito prazer, Mozart, música brasileira!
Que venham mais concertos. O público aguarda ansioso.
PS., sem ofensas: para evitar a distração de músicos e espectadores, bem que poderiam instalar bloqueadores de celular nos teatros. E a distribuição na entrada de xaropes anti-tosse seria bem-vinda.

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