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POR FAVOR, NÃO ATIREM NO PIANISTA!


Dia do músico. Podia até ser feriado santo dado o caráter profilático com que se costuma recomendar obras de Mozart. Mas o músico teria que trabalhar para os ouvidos alheios do mesmo jeito e aí deixemos como está.
O título "Por favor, não atirem no pianista" lembra aquele do filme do François Truffaut (Atirem no pianista, 1960), mas também vem daquela velha frase de consolação desde velhos recitais: "Não atire no pianista. ele está fazendo o melhor que pode". Lembro também do filme do Roman Polanski, O Pianista, que nos oferece um quadro pouco convencional de um músico.

Aproveito o espaço para "recordar e viver" a arte juvenil (ainda não tinham inventado a pré-adolescência) deste escriba virtual e inexperiente, cujas mal traçadas abaixo podem aborrecer muita (se tanta) gente.

O pianista geralmente é visto como um agraciado, um privilegiado que lê hieróglifos e fala pelos dedos. Um suprachato que martela o instrumento e o ouvido alheio, exercitando a tolerância de qualquer cristão com suas escalas e exercícios. Eu mesmo costumava torturar as domésticas de casa tascando-lhes na escuta um Hanon às duas da tarde. Quando o almoço não tinha sobremesa, aí o castigo infligido era uma hora do Microkosmos do Bartók.

À noite, após o jantar e a sagrada reunião familiar, meu pai me pedia: "Filhão, toque aquela música". Era a deixa pra dedilhar o Pour Elise de Beethoven. Quando recebíamos visitas ilustres, pelo menos para os meus pais, eu ouvia o indefectível pedido: "Toque aquela música!". Parecia uma Ingrid Bergman carente solicitando, em Casablanca, ao pianista Sam: "Play it again" . Mas um dia minha rebeldia, assumo, pré-adolescente viria à tona e do pior modo possível (murphyanamente contra mim).

Visitantes na sala, satisfeitos, inclusive com sobremesa, agora era a hora do Beethoven Apaixonado começar a tocar.

Mas que nada. Saí, exibido, dedilhando outra música, acho que era alguma intitulada Gallop du Diable. A música exigia muita técnica, velocidade e força, ou seja, eu parecia um mozartinho embevecido. Após o finale, olhei pra trás esperando aplausos mas só ouvi alguns muxoxos tipo "bom, hein?", "ah, legal". Aí meu pai não resiste e sussurra:"Não, filhão! É aquela!". Ok, ao vencedor, Pour Elise. Claro, com palmas e mais palmas.

E o filme? Polanski fez o filme até agora definitivo sobre os judeus e o nazismo. Se você só ouviu o filme, trate de vê-lo na próxima vez. O colaboracionismo de alguns judeus está ali, bem como o heroísmo sortudo de outros. O pianista Szpilmann, interpretado por Adrian Brody, é o retrato mais próximo de um homem que só ressalta sua humanidade através da sua arte, da sua música.

Szpilmann é fraco, pusilânime, um filho teu que foge à luta. Um artista que não entende porque os homens preferem atirar uns nos outros do que fruir um pouco de Chopin em paz. Aliás, Chopin é a alma deste filme. Chopin, o polonês delicado e irascível, mais amigo das artes que dos homens, cuja música é ponto central de uma narrativa que parece falar de guerra e intolerância, quando na verdade fala de atitudes humanas diante da tragédia. Aliás, da atitude de dois homens diante da tragédia.

A cena do pianista judeu-polonês, famélico, em farrapos, recebendo a Esfinge em forma de oficial nazista em meio aos escombros é reveladora. O alemão acabou de tocar o Beethoven da Sonata ao Luar e exige: se você é mesmo pianista, toque! O fugitivo poderia tocar a Apassionata ou até mesmo, de forma colaboracionista, diriam alguns, tocar um arranjo para piano do 2º movimento do Quarteto op. 76, de Haydn, também conhecido como o hino nacional alemão.

Porém, Szpilman, que nunca foi nem delacionista nem revolucionário, ou jamais desempenhou um papel em prol da boa-vontade entre os homens, que só quis agradar ao senso artístico, que mal amava a própria vida, a ponto de insistir em tocar piano enquanto o restaurante em que trabalha é bombardeado; esse mesmo Szpilmann dedilha o piano calorosamente, como se nunca tivesse passado pelas privações que vivia (ou exatamente porque passava por privações), e toca a Balada n. 1, de Chopin, claro.

O crítico Alex Antunes perguntou e respondeu: ele foi salvo por que era um bom pianista? Os maus pianistas devem ser mortos, então? Nazisticamente, o oficial não atira no pianista porque as guerras não são de raça ou de classe, mas de castas, como assegura Jean Renoir no filme A Grande Ilusão (1937). A casta dos pianistas, mas principalmente daquela elite que julga entender sua arte, tem licença para viver.

No fim, o que resta até parece esperança. Mas, olhando as atrocidades das guerras atuais, se percebe que o que ficou foi a música de Chopin. Um Noturno em meio aos escombros do Iraque, por favor!

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