
Continuando nossa incansável busca pelo filmaço perdido que disseram que é Babel, podemos traçar um rabisco de pensamento. Digo rabisco, pra não falar no fiapo que é a trama costurada com agulha de veterinário pelo diretor mexicano Alejandro Inárritu e seu ex-fiel roteirista Guillermo Arriaga, a fim de dar conta da miséria humana, desse pântano de horrores que é a vida nesse "asteróide pequeno que todos chamam de Terra". A dupla encerra o que poderia ser uma "trilogia da tragédia humana", iniciada com vigor em Amores Brutos (2000), ou a miséria mexicana editada e repetida em 21 Gramas (2003), ou a miséria americana fotogênica. Babel seria todo esse miserê em escala planetária.
Em Babel, os personagens de continentes distintos acabam muito próximos por causa de uma arma. Ah, entendi: a violência nos torna co-irmãos e deixa em risco a fraternidade universal. Isso é bem claro na cena em que as crianças marroquinas atiram no ônibus cheio de turistas brancos. A primeira lição de Babel é de uma leviandade chocante: na primeira chance que o muçulmano tem de atirar, ele vai escolher preferencialmente uma vítima americana.
2ª lição: a aversão à violência que a criança americana sente é diametralmente oposta à violência que o mexicano tende a produzir. E os dois autores mexicanos não têm o menor remorso em colocar seus conterrâneos na tela como irresponsáveis (a babá dos americaninhos que os leva ao casamento), naturalmente violentos (o sobrinho da empregada que celebra o casamento com tiros pro alto, na melhor tradição do morro carioca) e as crianças loirinhas dos EUA como inocentes (o olhar de espanto delas ao ver uma galinha com a cabeça decepada, por um mexicano, claro).
3ª lição: todas as diferenças étnicas são diluídas por meio da dor e do sofrimento. A esposa americana, que no começo do filme nem bebe a água do restaurante africano, é tratada por uma curandeira local. E o cicerone africano, que já teve contato com o branco, recusa a gorgeta porque ele fez tudo aquilo por amor. Ou seja, os africanos são feios, sujos e malvados, mas não exploram a miséria alheia. Pelo menos não da maneira com que Inárritu e Arriaga o fazem em seus filmes.
Última lição: só o amor constrói. As cenas em que a adolescente japonesa surda-muda está descobrindo sua condição de ser, sua sexualidade, sua deficiência, são as mais bem construídas do filme. Mesmo assim, por sua situação de silêncio, embora seja alguém cujos olhos falam muito alto, termina sua participação agarrada à figura paterna, que a protege das drogas, das amigas e do fantasma do suicídio da mãe. Já a esposa americana reencontra a felicidade de receber amor de um Brad Pitt enrugado e disposto a discutir a relação em meio a sangue e urina.
Assim caminha a humanidade: o marroquino é terrorista desde criancinha, a japonesinha vive no silêncio oriental, o mexicano cucaracha é um animal brega e irracional. O americano sofre, leva bala, fica perdido, sangra, mas encontra a paz, o perdão e o amor e termina feliz reunido no home sweet home. Ah, o americano tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Agora, pois, permanecem os três: o terrorista, o japa e o cucaracha. E o maior de todos é o americano.
Em Babel, os personagens de continentes distintos acabam muito próximos por causa de uma arma. Ah, entendi: a violência nos torna co-irmãos e deixa em risco a fraternidade universal. Isso é bem claro na cena em que as crianças marroquinas atiram no ônibus cheio de turistas brancos. A primeira lição de Babel é de uma leviandade chocante: na primeira chance que o muçulmano tem de atirar, ele vai escolher preferencialmente uma vítima americana.
2ª lição: a aversão à violência que a criança americana sente é diametralmente oposta à violência que o mexicano tende a produzir. E os dois autores mexicanos não têm o menor remorso em colocar seus conterrâneos na tela como irresponsáveis (a babá dos americaninhos que os leva ao casamento), naturalmente violentos (o sobrinho da empregada que celebra o casamento com tiros pro alto, na melhor tradição do morro carioca) e as crianças loirinhas dos EUA como inocentes (o olhar de espanto delas ao ver uma galinha com a cabeça decepada, por um mexicano, claro).
3ª lição: todas as diferenças étnicas são diluídas por meio da dor e do sofrimento. A esposa americana, que no começo do filme nem bebe a água do restaurante africano, é tratada por uma curandeira local. E o cicerone africano, que já teve contato com o branco, recusa a gorgeta porque ele fez tudo aquilo por amor. Ou seja, os africanos são feios, sujos e malvados, mas não exploram a miséria alheia. Pelo menos não da maneira com que Inárritu e Arriaga o fazem em seus filmes.
Última lição: só o amor constrói. As cenas em que a adolescente japonesa surda-muda está descobrindo sua condição de ser, sua sexualidade, sua deficiência, são as mais bem construídas do filme. Mesmo assim, por sua situação de silêncio, embora seja alguém cujos olhos falam muito alto, termina sua participação agarrada à figura paterna, que a protege das drogas, das amigas e do fantasma do suicídio da mãe. Já a esposa americana reencontra a felicidade de receber amor de um Brad Pitt enrugado e disposto a discutir a relação em meio a sangue e urina.
Assim caminha a humanidade: o marroquino é terrorista desde criancinha, a japonesinha vive no silêncio oriental, o mexicano cucaracha é um animal brega e irracional. O americano sofre, leva bala, fica perdido, sangra, mas encontra a paz, o perdão e o amor e termina feliz reunido no home sweet home. Ah, o americano tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Agora, pois, permanecem os três: o terrorista, o japa e o cucaracha. E o maior de todos é o americano.
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