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música, sim. músicos, não

Todo mundo gosta de música. Já dos músicos... Nos tempos em que eu tocava em casamento, formatura e congêneres, por diversas vezes eu tive que explicar que eu não era da legião da boa-vontade, que eu não tocava por caridade. E o povo: "como assim ele cobra pra tocar em casamento?" O vestido, o bufê, as alianças, as flores, os convites, tudo isso é coisa que se paga. Mas pagar músicos?

Isso não é de hoje. Na Florença dos tempos medievais, o compositor Josquin des Prez, aclamado "príncipe dos compositores", perdeu emprego por saber quanto valia seu enorme talento. Em 1502, o duque de Ferrara contratou Heinrich Isaac em vez de Josquin graças a um relatório econômico bem conveniente: 

"Para mim [Isaac} parece mais adequado a servir Vossa senhoria, mais do que Josquin, porque é mais afável e amigável, e comporá obras novas com mais frequência. É verdade que Josquin compõe melhor, mas só compõe quando quer e não quando os outros querem, e está pedindo um salário de 200 ducados enquanto Isaac se contenta com 120".

A carta de Claudio Monteverdi (1567-1643) recusando uma proposta de emprego diz muito sobre as pretensões e desejos de um músico. Ele foi despedido pelo duque de Mântua em 1612, mas logo foi contratado como diretor musical da Basílica de São Marcos, em Veneza. Em 1619, a corte de Mântua tentou recontratá-lo, e é onde entra a carta de Monteverdi recusando o convite e explicando suas razões.

Primeira: dinheiro. Em Veneza, ele recebia 400 ducados, fora a autonomia que tinha para fazer outros trabalhos. Monteverdi expunha na carta a experiência de ter que implorar para receber o salário em Mântua ("Nunca em minha vida sofri maior humilhação do espírito").

Segunda: estabilidade. Ele não perdia seu cargo em Veneza se um mandatário do governo fosse substituído.

Terceira: controle. Como diretor musical (maestro di capella), Monteverdi decidia contratações e demissões e controlava as atividades de músicos e cantores.

Quarta: respeito. Diz a carta: "Não existe nenhum cavalheiro que não me estime e respeite, e quando vou tocar, seja música de igreja ou música de câmara, juro a Vossa Excelência que a cidade inteira vem correndo me ouvir".

A corte de Mântua engoliu calada. Já Johann Sebastian Bach não teve o mesmo respaldo. Quando tentou deixar o emprego na corte de Weimar por outra oferta mais interessante, Bach simplesmente foi preso, "confinado no local de detenção do juiz municipal por insistir obstinadamente na questão de sua demissão, sendo afinal libertado da prisão em 2 de dezembro [de 1717] com seu pedido indeferido".

Eu ainda não conhecia essa passagem infeliz da vida de Bach aos meus 16 anos. Se soubesse, talvez eu nem tivesse me queixado de ter sido esquecido na igreja após ter tocado numa cerimônia de casamento e ter que caminhar mais de cinco quilômetros por uma rodovia até o local da festa. Ah, sim, os noivos eram meus tios. O que me diz que essa história de geniozinho musical da família era uma embromação.

A imagem "Lego-Piano-Player" tirei daqui.
Citações dos livros "O triunfo da música" e "História social da música"

Comentários

Lilian disse…
Como cantou o Chico em "Cantando no Toró:" "E o tal ditado, como é?
Festa acabada, músicos a pé"

:)

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