O cineasta Sidney Lumet, falecido há uma semana, não fazia o tipo cool queridinho dos críticos nem inventava batalhas no espaço para estourar nas bilheterias terráqueas. Diretor de dramas morais, Lumet acordava consciências adormecidas para os perigos nucleares (Limite de Segurança), a intolerância (O Homem do Prego), a ética solitária contra sistemas corrompidos (Serpico, O Veredito), os bastidores escusos da TV (Rede de Intrigas), a notoriedade midiática do crime (Um Dia de Cão).
Tribunais são a arena onde a justiça nem sempre é a vencedora. Filmes de tribunal montam cenários onde a intolerância e a justiça, os valores monetários e os valores morais digladiam. O espectador só tem a ganhar assistindo filmes como esses:

Doze Homens e uma Sentença (1957): alguém disse que júri é um grupo que se reúne para decidir quem tem o melhor advogado. Nesse filme, a estréia de Sidney Lumet no cinema, um membro do júri se manifesta contrariamente a uma decisão e tenta convencer os outros de que mesmo vereditos unânimes podem ser falhos. Pena de morte, preconceito, honra, tudo filmado com atores excepcionais na sala do júri. Magnífico.
Testemunha de acusação (1957): Billy Wilder dirige a adaptação de uma peça de Agatha Christie. A união desses dois gênios não tinha como dar errado.
Julgamento em Nuremberg (1961): durante o julgamento por crimes de guerra, o advogado de líderes nazistas se põe a repetir as arengas do próprio Hitler. Até onde vai a responsabilidade do cumprimento do dever?
Anatomia de um crime (1959): o grande James Stewart vai defender um homem da acusação de assassinato. Um filme que testa o limite das noções de culpa e inocência. Um tanto longo, mas seja brasileiro, não desista e assista até o fim.
O Sol é para Todos (1962): um soberbo libelo antirracismo, com destaque para a integridade do advogado Atticus Finch e seu casal de filhos pequenos às voltas com a atmosfera de ameaça e preconceito que ronda sua casa. Inspirador.
Justiça para todos (1979): um advogado incorruptível tenta reforma o sistema judiciário de sua cidade. Só o baixinho Al Pacino para atuar como um gigante cutucando as onças corruptas com vara curta.
Kramer vs. Kramer (1979): o que poderia descambar para o mais descarado debulhador de lágrimas, resultou num bem temperado drama familiar sobre divórcio, infância e amor paterno. Mesmo assim, pais sensíveis, não esqueçam o lenço.
O veredito (1982): Paul Newman vive um advogado decadente que tenta dar volta por cima em um processo contra um grande hospital. Não vai ser fácil. Nem pra ele nem pro espectador. Mais um petardo de Sidney Lumet.
Questão de honra (1992): tribunais militares às vezes têm um senso muito peculiar de fazer justiça com as altas patentes. Tem Tom Cruise e Demi Moore na acusação, e por incrível que pareça, não força um romancezinho barato. E ainda tem Jack Nicholson.
Em nome do pai (1993): pai e filho irlandeses são presos por ligações com um ataque do IRA. Mas a confissão foi obtida sob tortura e uma advogada inglesa defende sua inocência. Emma Thompson desafiando o tribunal inglês é de arrepiar.
Amistad (1997): Steven Spielberg filma a história de escravos que se amotinaram, mas que acabam presos. Em uma nação dividida entre o Norte progressista e o Sul escravista, o tribunal vê entrar em cena o ex-presidente John Quincy Adams, que retorna da aposentadoria para encampar a luta dos escravos na corte.
O informante (1999): a luta desigual de dois homens contra a poderosa indústria tabagista. Um exame por dentro da coragem e do medo, da denúncia social e da proteção à própria família, da ética individual e das motivações dos executivos da TV e do mercado.
Jogada de gênio (2008): a história real de Bob Kearns, criador do temporizador do limpador de pára-brisas, que moveu ação contra a Ford Motors e a Chrysler por copiarem sua invenção, a chamada infração de patente. Hollywood adora encenar Davi contra Golias num tribunal.
Sentiu falta de filmes não-americanos? Tem o italiano Sacco e Vanzetti (1971) sobre dois imigrantes condenados à morte nos EUA, e O Processo de Joana d'Arc (1962), cujos diálogos vêm diretamente dos autos do famoso processo. Mas, convenhamos, os filmes de Roliúdi podem não passar na prova da OAB, mas de encenação de justiça (com trocadilho, por favor) eles entendem como ninguém.
Comentários
12 homes e uma sentença é uma preciosidade. E vem inspirando alguns juristas a alterar a norma de incomunicabilidade entre os jurado no Brasil.
éveni, olha a vida imitando a arte nesse caso. rs