16 janeiro, 2012

todo mundo odeia o Michel Teló


Agora que Michel Teló lançou a Macarena do começo do século, o cidadão brasileiro anda indignado com o sucesso do rapaz. Não adiantou. O hit Ai, se eu te pego globalizou e já conta com versão pra inglês requebrar: Oh, if I catch you. Mas poderia se chamar “Nobody deserves it” (Ninguém merece).

Nosso último representante a ser vertido para a língua de Shakespeare tão rapidamente foi Tom Jobim. Muito salão de espera ao redor do mundo ainda toca The girl from Ipanema, One note samba e Waters of March. Tom preocupava-se em transportar para a letra em inglês a mesma carga de poesia e aliteração que a canção possuía em português: na canção Corcovado, aquela famosa primeira frase, “um cantinho, um violão”, se tornou “Quiet night of quiet stars”. Isso é trabalho de versão. Trabalho de tradução seria simplesmente escrever “A little corner, a guitar”.

Mas aqui também é a terra do gênio de Falcão, um caso raro de bregueiro contemporâneo que não se leva a sério. Ele cometeu uma tradução para o inglês do sucesso de Waldick Soriano, Eu não sou cachorro não. Juntando a paródia com a vontade de rir, Falcão nos legou o clássico I’m not dog no.

A única diferença entre Michel Teló e Falcão é que o primeiro não usa uma flor gigante cravada no terno escalafobético. Duvida? Na versão em inglês de Oh, if I catch you, os versos “Nossa, assim você me mata” transubstanciaram-se em “Wow, this way you’re gonna kill me”.

O co-autor dessa versão é o Google Translator. Logo virão versões de sucessos recentes como Each one on his square (cada um no seu quadrado), ou de clássicos como Hold the tchan. E assim a música brasileira, digo, a vaca vai pro brejo. Ou “the cow went to the swamp” (Millôr Fernandes).

Pegaram o Michel Teló pra Judas, como se ele tivesse traído a cultura da pátria. Os nostálgicos, que são aquelas pessoas de memória curta, dizem que não era assim no tempo deles. Já esqueceram que, há 30 anos, Gretchen cantava em francês, rebolava em português e ainda faturava em dólar. E na década de 1970, o paulista Maurício Alberto fazia letras direto em inglês, como a do sucesso de todos os bailes de quinze anos da época, “Feelings”. Para evitar o preconceito do mercado internacional, Maurício Alberto virou Morris Albert.  

Se fosse naquele tempo, Michel Teló seria só o nome artístico de alguém chamado Miguel Teles.

O problema não é o hit parade que toca nas rádios e TVs dos últimos séculos. É só a gente não ouvir e ver certas emissoras. O problema é a ditadura do hit parade que silencia qualquer outro estilo de música que não esteja "na moda".

*****
Para outros grandes vultos nacionais idolatrados e odiolatrados, confira a seção "Everybody loves/Todo mundo odeia".


9 comentários:

André R. S. Gonçalves disse...

você acredita que eu ainda não ouvi este tal do 'hit'? acho que terei que sucumbir à curiosidade... ;)

André R. S. Gonçalves disse...

#not

joêzer disse...

ela talvez ainda "te pegue". sabe como é, como diz o Millôr, a música nos ataca pelas costas. rsrs

Lizzie disse...

Já que Michel Teló não serve pra representar o Brasil, quem estaria a altura de Tom Jobim hoje pra ser digno de fazer sucesso lá fora?
....bolas de feno rolando....

joêzer disse...

pra representar o Brasil, o Teló serve. Se o Paulo Coelho pode, por que ele não, né? rs

Ando muito por fora da atual música popular nacional. Mas pelo pouco que sei, me parece muito metida e pedante.
Sou mais o João Alexandre!

Lizzie disse...

Então, da mesma forma aqui, assim como adoraria que tivéssemos alguém a altura de substituir Tom Jobim. Mas somos a terra onde a maioria esmagadora venera Paulo Coelho e Michel Teló.

Jaime Chacale disse...

Tenho que ouvir esse hit do Telo, antes que comece a fazer também sucesso aqui em Angola

André R. S. Gonçalves disse...

não faça isso... mesmo fazendo sucesso aqui eu consegui, pelo menos até agora, evitá-lo. há vantagens em ser alienado. ;)

Anônimo disse...

"Sertanojo" Universitário é um dos hits que representa a decadência da música no Brasil. E no mundo.