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um grito no escuro, três preconceitos claros

Que impressão você tem das igrejas cristãs? Sua impressão procede de estudos de casos, envolvimento pessoal ou se baseia em ideias preconcebidas e/ou inflexíveis sobre determinadas igrejas?

Em 1980, Michael e Lindy Chamberlain acampavam com a família numa região turística na Austrália. Numa noite, a mãe viu seu bebê de nove semanas ser levado por um dingo para fora da barraca. Muitas pessoas saíram para procurar o bebê, mas ninguém o encontrou.

Após um primeiro período de compaixão da comunidade pelo sofrimento do casal Chamberlain, vários boatos maliciosos começaram a circular nas ruas e na mídia. A mãe, então, foi acusada de matar a própria filha – ou numa explosão de depressão pós-parto ou num suposto ritual religioso adventista. A cobertura jornalística sensacionalista e o preconceito religioso se misturaram a motivações políticas locais e, num julgamento sem provas conclusivas que tomou proporções inéditas no país, Lindy Chamberlain foi condenada à prisão perpétua.

Em 15 de setembro de 1988, após passar três anos e meio na prisão, o verdadeiro casaquinho que o bebê usava na noite do fatídico evento foi encontrado com evidências de que teria sido atacado por um dingo. Lindy Chamberlain foi libertada e declarada inocente de todas as acusações.

Preconceito religioso

O casal Chamberlain era adventista do sétimo dia e, seguramente, a ignorância em torno das práticas de culto e do estilo de vida dos adventistas na Austrália (ou pelo menos na pequena cidade onde moravam) incitou a população local a espalhar a falsa suposição de que o nome do bebê, Azaria, significava “sacrifício selvagem”, mesmo que sacrifício humano sempre tenha sido uma prática impensável no Adventismo do Sétimo Dia.

Quando não se conhece o fato, instala-se o boato. A grande mídia australiana não fez uma pergunta simples: qual a motivação de Lindy Chamberlain para matar o bebê? Lindy não era mentalmente desequilibrada, não era uma mãe violenta, nem mostrava sinais de depressão. Faltou à mídia, ainda, o senso jornalístico mais elementar de examinar as práticas e rituais dos adventistas.

Atualmente, as mídias brasileiras cobrem eventos evangélicos de massa, cujas marchas ruidosas e finanças assombrosas se consolidam no pensamento nacional como o único tipo de evangélico existente. A uniformização da amostragem midiática sobre os evangélicos contribui para corroborar as ideias preconcebidas sobre os cristãos.

Preconceito emocional

Durante todo o processo, Lindy não demonstrou ser a vítima materna que muitos esperavam. Ela não era dada a rompantes de choro em público e falava com calma e firmeza durante as entrevistas. Ela não era uma personagem de “novela”, digamos assim. Ela foi taxada de mulher fria e sem emoções, capaz de matar um bebê.

O filme Um Grito no Escuro (1988) faz um ótimo retrato do clima de insinuações maldosas surgido entre a população e fomentado pelo mau jornalismo (ou jornalismo do mal?). A postura firme e sem maniqueísmos emocionais de Lindy Chamberlain está presente na magistral atuação de Meryl Streep, que tem a difícil tarefa de fazer com tenhamos compaixão por uma mulher que não se esforça para fingir simpatia em público.

O diálogo travado entre ela e seus advogados dá indícios de que se ela se comportasse “corretamente” no tribunal e nas entrevistas à mídia, ela teria sido absolvida. No entanto, Lindy não se comportava como uma mãe vitimizada, mas como alguém irritada com o absurdo das falsas acusações e cujo rosto expressava profunda amargura.
O filme não é uma produção evangélica, mas credita a serenidade do casal a sua confiança em Deus e à crença adventista na esperança de rever sua filha na ressurreição (por ocasião da segunda vinda de Cristo)

Preconceito social


O filme também ajuda a iluminar alguns traços sobre a fé e a personalidade de Michael Chamberlain. Ele demonstra muita convicção ao falar de vida saudável (cenas o mostram falando contra o fumo e a bebida alcoólica e exercendo seu vegetarianismo), mas no tribunal ele se mostra confuso. 

Ao contrário da maioria dos filmes que representam evangélicos como espertalhões ou imbecis, este filme mostra a momentânea confusão do pastor que não entende as razões de estar passando tamanho sofrimento e linchamento psicológico. Ele se pergunta o que Deus quer dele. É um retrato de um ser humano arrasado pela dor da perda de uma filha e pelo sentimento de abandono divino.

Isso, é claro, não ajuda a melhorar a impressão do público e do júri sobre o casal. Assim, temos um casal de tranquilos adventistas ser tragado pelo turbilhão de boatos maldosos e inépcia policial.

Por não comerem o alimento que “todos” comem, por não beberem o que “todos” bebem e por serem religiosos numa sociedade que despreza a religião, eles são tratados como párias sociais.

Por não se portarem segundo as expectativas sentimentais da população, por não se expressarem com o emocionalismo que garante audiência, eles são tratados como párias emocionais.

Por serem uma minoria adventista que contrasta com o ecumenismo evangélico, eles são tratados como marginais religiosos, quando sua religião é marginalizada.

Seu estilo de vida é antissocial, suas personalidades são antimidiáticas e sua religião é considerada anticristã. Os párias fundamentalistas estão prontos para o linchamento público.

* * * * *

Detalhes das investigações e conclusões sobre o caso do desaparecimento do bebê Azaria na Wikipédia (em inglês).


O filme Um Grito no Escuro (A Cry in the Dark) recebeu prêmios do cinema, entre eles, o de melhor atriz para Meryl Streep no Festival de Cannes e da Associação dos Críticos de Cinema de Nova York. Ver IMDB.

Fotos do casal Chamberlain copiadas do Google imagens.

Comentários

Tadeu Montenegro disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Tadeu Montenegro disse…
Assista ao filme on line aqui: https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=1&cad=rja&ved=0CDIQtwIwAA&url=http%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3DxPcLwZjrNEs&ei=VnztUbLKAfHl4AObmoDYCg&usg=AFQjCNEs7X3SKwnhnngChyY6uO2wxZFjJA&sig2=EJgDqxynjZ7WaXqi9LaAvw&bvm=bv.49478099,d.dmg
Alessandra disse…
Assisti o filme, há alguns anos atrás. A fé dessa mulher foi impressionante, mesmo condenada a prisão, a fé em Deus permanecia inabalável.
Rosely disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Rosely disse…
Boa tarde, Joêzer.. já li alguns artigos seus e como você é da área gostaria de tirar uma dúvida importante.. Vi um artigo na internet que diz que não há embasamento bíblico nem no Espírito de Profecia que diz que Lúcifer era regente do côro celestial nem músico. Você poderia me tirar esta dúvida? Meu email: rosely.tsales@gmail.com
Anônimo disse…
Eu sou adventista do sétimo dia .procura saber primeiro para falar que éum ritual .adventista é uma religião aonde acredita em tudo que está na biblia .em Deus e na segunda vinda de Jesus .procure antes de falar merda .
Anônimo disse…
Eu acho q essa mãe foi extremamente negligente com o bb, ao ir com a familia acampar num lugar tão inóspito com uma criança tão pequena e deixa-la sozinha num lugar onde tem lobos selvagens, q mesmo q jamais imaginava q chegasse a tanto, poderia ata
car o bb, coitadinha da nenem, uma morte horrível... As mães tem q ter uma responsabilidade e um cuidada EXTREMO com as crianças....
Anônimo disse…
Acho que ninguém imaginava que dingo pudesse comer neném, visto que a população achou que era mentira dos pais, os acusaram de assassinos, quando não era verdade. A mãe estava certa quando disse que o cachorro (dingo) havia levado o bebê. Só que ninguém acreditou (ou fingiu não acreditar) na hora. Vieram descobrir a verdade muito tempo depois.
Sarah Costa disse…
Nossa,fico assustada,com o comentario anonimo do dia 16.05.2014,sou adventista de berço,acredito na ressurreição na segunda vinda,fico abismada com o fato das pessoas nao procurarem saber da cultura religiosa alheia e ataca-la como forma de medo ou realmente peconceito. Essa historia reflete td o que passamos todos os dias,as pessoas distorcendo nossas decisões religiosas e tornando as em fanatismo,não temos rituais,e quem conhece de fato os adventistas sabe que há uma mudança de dentro pra fora(inclusive foi por isso que me assustei com o comentario),somos pessoas normais,trabalhamos como as demais pessoas,somos cidadãos de bem,cumprimos com nossos direitos civis,respeitamos as outras religiões,não apontamos o dedo na cara de ninguém,e inclusive no dia que vc vir alguem que se diz adventist atacando outra pessoa por ela ter convicções religiosas diferentes acredite em mim,essa pessoa nunca foi adventista e não conhece a doutrina nem o caracter cristao adventista. Bom,sou adventista a 19 anos,minha familia é toda adventista,meu avô inclusive tem 70 anos de adventista...e em todo esse tempo nunca houve ritual algum,muito menos ritual de sacrificio humano. O fato dos adventistas guardarem o sabado é mal visto por algumas pessoas,mas só seguimos a biblia...e não à homens,pastores,muito menos à pessoas que se dizem donas da verdade. #exodo20:8 ahh inclusive,esse filme é otimo,amei vê-lo,reforçou ainda mais a minha fé!
Marcos Altafini disse…
Bom dia, parabéns pela explanação, muito bem escrita e bastante elucidativa.
joêzer disse…
Caro Marcos, obrigado pela leitura e pela gentileza. Abraços.

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