01 outubro, 2015

o papa e o planeta: ecologia virou ecorreligião?


O ambientalismo está seguramente entre os atuais projetos mobilizadores do mundo. Por meio do seu discurso de defesa da Terra, o ambientalismo é capaz de congregar religiosos e ateístas. Até porque este planeta é a nossa casa e, como convém aos tempos de partilhamento de tarefas domésticas, todos são responsáveis por levar o lixo pra fora. 

É assim que, ao contrário do comunismo, do capitalismo de livre mercado e do fundamentalismo islâmico, que desagregam o mundo social, geográfica e economicamente, o ambientalismo reúne indivíduos de todas as faixas de renda e escolaridade.

Muitas vezes, o ambientalista é alguém que não reciclava lixo ("era cego") e então passou a lutar contra qualquer torneira aberta ("agora vê"). Alguns deles são capazes de cruzar cercas elétricas para resgatar poodles em cativeiro nos laboratórios ou arriscar a vida nos mares defendendo baleias. Se o ambientalista pode ser um mártir, por outro lado, por ser tão decidido a converter outras pessoas a sua nobre causa, ele é visto às vezes como um ecochato, como se fosse um representante da Herbalife ou, então, um crente.

Não por acaso, o ambientalismo carrega caracteres de transcendência, pois é tomado como resolução última para a manutenção da vida, um bem sagrado, ocupando, assim, a cátedra que um dia já teria sido do cristianismo, visto que sua pregação enuncia componentes missiológicos (conversão e proselitismo) e soteriológicos (trata-se de um discurso salvacionista) e até escatológicos, com direito a profecia condicional (prenuncia o fim do mundo se não mudarmos nossas condutas).



Em alguns arraiais, viceja a noção de ECOmenismo, espécie de mutirão ambientalista global que desembocaria em assinatura de acordo pelo descanso semanal da Terra aos domingos, com consequente punição aos indivíduos que obstinadamente não aceitarem o tratado ecorreligioso planetário.

O que alguns analistas deixam escapar, porém, é o fato de que há vozes dissonantes no cenário. Embora o pontífice romano, por meio de seu discurso humanista, venha reforçando a defesa do sistema ecológico e tenha condenado publicamente as ações industriais antiecológicas das grandes potestades, os maiores empreendedores do  mundo se comportam como filisteus poluidores e desafiam a ONU e o Vaticano.

O papa e o secretário-geral da ONU acabam sendo mais reconhecidos pela boa vontade do que propriamente pelo poder político. É como se fossem um tipo de rainha da Inglaterra. No caso dos papas, às vezes sem a discrição política e midiática da rainha da Inglaterra. Os líderes mundiais respeitam o papa e a ONU, mas sua participação na arena das decisões globais reduz-se ao plano discursivo.

As encíclicas papais são recebidas no Ocidente com o mesmo peso que as propostas da ONU para a paz no Oriente Médio. Os EUA, a Rússia, o Reino Unido e a região do Euro, assim como China, Irã e Israel, deixam de cumprir várias propostas e acordos. Alguns países nem assinam acordos supervisionados pela ONU: Estados Unidos, assim como Rússia, Japão e Canadá, não participaram de acordos favoráveis à diminuição de emissão de poluentes.

E mais: a reação de industriais e políticos contra os projetos ecológicos, incluindo o mais forte concorrente a candidato republicano à presidência dos EUA, Jeb Bush, ele mesmo um católico fervoroso, mostra que um discurso de paz pode atrair os homens de boa vontade, mas o problema é que os homens de má vontade ainda estão no poder.

Num mundo de crises econômicas globais, onde a receita para sair da estagnação é o aumento de produção e consumo, parece não haver espaço para a criação de um dia de repouso da Terra, visto que o risco dessa operação ecorreligiosa poderia levar países emergentes e mais desenvolvidos à perda de outro bem sagrado: a estabilidade econômica.

Num país de tantos feriados como o Brasil, perder 52 domingos por ano seria desastroso para donos de butique no shopping e vendedores ambulantes. Nesse caso, para o mercado ficar vazio e o trabalho terminar aos domingos, será preciso uma outra potestade, uma que não seja deste mundo do capital?

2 comentários:

marcio goncalves disse...

tao cansado de teorias de conspiracao envolvendo papa, eua & qualquer outra coisa... tao cansado...

Mateus disse...

Num mar de intensa expectativa e forçação de um decreto e de um situação geopolítica mundial, é um alento um texto desse. Parece que exigem que Jesus volte e que os acontecimento finais sejam precisos com as previsões, o adventista deixou de marcar datas, eu acho, e agora narra o fim, descreve, como se fosse capaz de prescrutar a mente divina. A verdade é progressiva, não impositiva, como parecem querer com essas sugestões de cenários do fim.