
“Mas é fato que havia naqueles dias um poder que foi chamado de canto do Advento [Advent singing], como não se sentiu em nenhum outro. Pareceu-me que nem mãos nem pés se moveram em toda a multidão até que eu terminasse todas as palavras desta longa melodia. Muitos choraram, e o estado de sentimento foi mais favorável para a introdução dos solenes assuntos daquela noite”.
Populista, emocionalista, demagogo: já podemos começar com as críticas a esse pregador suspeito de usar a música para comover as pessoas. Mas o fato é que esse relato está nas memórias de Tiago White (Life Incidents, 1868, p. 94-95). O cântico citado por ele é “You Will See Your Lord A-coming” (Você verá o Senhor voltando), cujos versos repetitivos ele costumava cantar antes de pregar. Entoada durante o movimento milerita, a letra dessa música simples reforçava a expectativa pela iminência do advento:
Você verá o Senhor voltando
Você verá o Senhor voltando
Você verá o Senhor voltando
Dentro de poucos dias
Trata-se de um cântico bastante entoado durante e também depois do movimento milerita dos anos 1840. Esse hino está registrado no atual hinário adventista norte-americano (Seventh-day Adventist Hymnal, nº 438), mas não consta nos hinários adventistas brasileiros, talvez porque o sabor histórico do hino tenha mais sentido ao paladar da terra natal do adventismo.
Contudo, para os mais céticos, o milerismo e sua ideia de destruição iminente estava na contracorrente do notável progresso da civilização. Aliás, o constante agendamento de novas datas para o juízo final era motivo de sátira, inclusive em forma de cançonetas:
"Oh dear! Oh dear! What shall we do
In eighteen hundred and forty-two?
Oh dear! Oh dear! Where shall we be
In eighteen hundred and forty-three?
Oh dear! Oh dear! We shall be no more
In eighteen hundred and forty-four.
Uma tradução livre desses versos seria: "Ó céus, o que nós faremos em 1842? Ó céus, onde estaremos em 1843? Ó céus, já não existiremos em 1844" (A New England Girlhood, 1889, p.249).
Por outro lado, o entusiasmo gerado pela proximidade do retorno de Cristo para o ano de 1844 parece ter encontrado nos cânticos do advento um elemento propulsor da maneira mais viva de se cantar. Joseph Bates, outro pioneiro do adventismo do sétimo dia, descreveu uma entusiástica reunião campal milerita: “No domingo, havia cerca de dez mil pessoas no acampamento. A pregação clara e solene da segunda vinda de Cristo, e as fervorosas orações e o canto animado dos novos hinos do Segundo Advento, acompanhados pelo Espírito de Deus vivo, enviou emoções tais através do acampamento, que muitos gritavam de alegria” (The Autobiography of Elder Joseph Bates, 1868, p. 265).
Os cultos das reuniões campais eram mais informais. A maneira entusiástica de se cantar os hinos, entremeadas com as típicas exclamações de “Glória” e “Aleluia”, era uma herança do metodismo, denominação que formava boa parte do movimento milerita-adventista. Tamanha demonstração de entusiasmo não surpreende, visto que o próprio John Wesley, pai do metodismo, encorajava a participação dos fiéis durante o canto congregacional. Nas orientações para o canto que ele anexou ao hinário Select Hymns, de 1761, Wesley estimulava os fiéis a cantar “sem mais vergonha de ser ouvidos, como quando vocês cantavam as melodias de Satanás”. O que Wesley pretendia era que as energias outrora despendidas em canções profanas fossem canalizadas para o canto entusiasmado na igreja ou em outros lugares.
Não se pode omitir que o reavivamento espiritual e a esperança do advento produziram um fervor popular sem precedentes. E ainda que alguns líderes mileritas advertissem suas congregações quanto a demonstrações de fanatismo, havia facções que tendiam à histeria. Nos cultos realizados ao ar livre na zona rural [chamados de camp meetings/reuniões campais], a aglomeração de milhares de pessoas, os apelos à conversão e os sermões sobre a proximidade do juízo final suscitavam reações coletivas que misturavam o fervor com a euforia, e muitas pessoas gritavam e se atiravam ao chão.
Tiago White esteve num desses encontros religiosos em Watertown, Massachussetts, no verão de 1844, onde presenciou “gestos estranhos” e pessoas gritando em voz “alta e incessante como se fossem cavalos”. No entanto, se o ardor espiritual que ele notou ali parecia sobrecarregado de excessos físicos e emocionais, ele tinha outra opinião sobre a forma entusiástica de entoar as músicas do Segundo Advento: “A reunião [em Exeter, outubro de 1842] foi grande, com tendas numerosas, pregava-se de forma clara e poderosa, e as melodias do Segundo Advento possuíam um poder como nunca antes testemunhado em canções sacras” (Life Incidents).
A expectativa do iminente retorno de Jesus foi a tônica do louvor congregacional no início do movimento adventista. Hoje, quem aguarda o retorno de Cristo e quem tem a missão de anunciar o evangelho do Reino está ligado ao cordão umbilical dos seus pioneiros. E eles não mediam esforços para cumprir a missão nem mediam entusiasmo para entoar um cântico.
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