14 outubro, 2016

marchando para a guerra ao som de hinos

Quando fez sessenta anos de idade, o velho rei ainda se lembrava da manhã em que viu um grupo de cantores marchando à frente de pelotões de soldados que permaneciam surpreendentemente na retaguarda.
Ele lembrou do silêncio interrompido pela voz alta dos cantores e sorriu sozinho ao lembrar que, enquanto eles entoavam cânticos de louvor, os três exércitos inimigos do outro lado da montanha começaram a lutar uns contra os outros numa estranha e encarniçada batalha que os destruiu por completo.

O velho rei prendeu o sorriso por um instante, olhou para os lados para assegurar-se de que ninguém o visse rindo feito um idoso senil, e então cantou os primeiros versos da música que ouvira naquela guerra em que nenhum dos seus soldados precisou entrar em combate: “Rendei graças ao Senhor, porque Ele é bom e a sua misericórdia dura para sempre”.

O dia em que a música foi uma arma de combate foi relatado em 2 Crônicas 20, capítulo da Bíblia que registra uma ordem divina para que o rei Josafá posicionasse seu exército atrás dos levitas cantores na batalha do deserto de Tecoa contra os exércitos moabitas, amonitas e meunitas.

Em se tratando de utilização de artefato musical na guerra, o povo de Israel era reincidente. A primeira vez havia sido séculos atrás, quando os levitas marcharam por sete dias consecutivos ao redor das muralhas de Jericó. Naquela ocasião, os levitas foram na retaguarda e iam tocando buzina de carneiro. É claro que os muros daquela cidade não eram tão mal feitos a ponto de caírem ao som de shofar e vozes. Na verdade, nem contrabaixos, guitarras e microfones explodindo um hard rock no volume máximo teriam essa capacidade.

Essa não foi a primeira nem a última vez na história em que se cantou hinos antes de uma batalha, visto que os generais entendiam que a invocação musical eleva o moral dos combatentes. Antes de começar a perseguição campal aos fugitivos escoceses em 3 de setembro de 1650, Oliver Cromwell liderou o exército inglês no canto do Salmo 117: “Aleluia! Povos todos, louvai o Senhor, nações todas, dai-lhe glórias…”

Louvar a Deus após a vitória também foi um comportamento típico dos antigos batalhões europeus. Essa conduta religiosa e musical é retratada numa peça de William Shakespeare em que os britânicos entoam um cântico de gratidão a Deus: “Que ninguém se vanglorie ou tome o louvor que é de Deus somente”, diz o rei Henrique V. “Deus lutou por nós… que todos cantem Non Nobis e Te Deum”. Non nobis, não a nós, Senhor.

Na manhã do dia 5 de setembro de 1757, 33 mil soldados prussianos foram para o campo de batalha cantando hinos luteranos. Após o combate em que venceram um exército austríaco com o dobro do tamanho, eles entoaram o cântico Num danket alle Gott em agradecimento a Deus, conforme descrição de Thomas Carlyle:

“Escuridão total; silêncio, rompido por um granadeiro prussiano que, com voz solene de tenor, entoa uma música sacra: um hino conhecido, do tipo familiar do Te Deum, a que 25 mil outras vozes, e todas as bandas regimentais, logo aderiram:
Agradeçam todos vós a Deus
Com coração, mãos e vozes
Que coisas maravilhosas fez
Em quem o mundo exulta”
No livro Canhões de Agosto, a historiadora Barbara Tuchman relata que esse mesmo hino foi cantado entusiasticamente por uma multidão de alemães em 1o de agosto de 1914, quando a Alemanha entrou na guerra.

Em outras batalhas, o apoio divino era invocado pelos dois lados do conflito. Na Guerra Civil Americana, soldados do Norte (União) e do Sul (os confederados) cantavam as estrofes do hino “Lutai por Cristo” [Stand up, stand up for Jesus]:

Lutai, lutai por Cristo
Soldados sois da cruz
Alçai seu estandarte
Bem alto deixai brilhar sua luz
Hinos não ganham batalhas, mas a empolgação com que se cantava devia fazer os soldados acreditarem que Deus iria lutar com eles contra o exército inimigo. Talvez ocorresse a eles que o exército do outro lado também havia cantado com todo o entusiasmo ao mesmo Deus. No entanto, ao final do dia, só um dos batalhões estaria cantando hinos de gratidão.

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- A imagem no topo do texto é a gravura O Coral de Leuthen, de Arthur Kampf (1887). Frederico, o Grande, foi retratado cantando em pé com os soldados. Algo pouco provável, considerando-se o ateísmo do monarca.
- Assista trecho do filme Henrique V (1989), em que os ingleses cantam Non Nobis Domine após a batalha de Agincourt:


Um comentário:

Sólion Farias Balthazar disse...

Excelente reflexão, coisas que não se leem ou se ouvem à todo o tempo, são inspiradoras e nos arremetem a refletir em como estamos enfrentando a dura guerra da vida, a cada batalha desse conflito devemos cantar louvores de gratidão ao Eterno Deus.