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as canções de Alexandre Reichert

Alexandre Reichert Filho foi diretor musical do quarteto Arautos do Rei no período de 1972 a 1980. Exímio pianista, marcou época como arranjador e compositor do quarteto, mas pouca gente sabe que ele também é autor de cânticos para a juventude da década de 1970 que foram bastante populares.

As canções jovens de Reichert primavam por dois aspectos: facilidade melódica e requinte harmônico. Combinando a simplicidade da melodia à sofisticação da harmonia, Reichert trouxe um sopro de novidade à música cantada pelos adventistas na época. Selecionei, aqui, apenas três amostras.

O cântico Conversar com Jesus tem apenas oito versos. Sua melodia também aparenta simplicidade. Em 20 compassos, este corinho desprovido de refrão exibe maior desenvolvimento melódico-harmônico do que os cânticos estrangeiros que integravam as coletâneas adventistas até então. As canções jovens “importadas”, como “Estou seguindo a Jesus” e “Caminhando”, apresentavam a referência harmônica e a marcação rítmica da música country norte-americana e das marchas militares e escolares. Reichert mantém a simplicidade melódica dos cânticos americanos, mas a base harmônica agora é outra, mais complexa. Em Conversar com Jesus, essa troca consecutiva de acordes nunca desequilibra o andar da melodia. Canta-se sem sobressalto. Na partitura abaixo, assinalei em vermelho os muitos procedimentos harmônicos que sustentam a breve melodia.

Outra bonita canção de Alexandre Reichert é Vou Caminhando, que tem letra de Wilson Almeida. Lançada inicialmente como uma das faixas do LP Arautos do Rei Cantam para as Crianças, a canção ganhou outro título ["O Caminho do Céu"] quando integrou posteriormente a coletânea musical para a juventude Vamos Cantar vol. 2, publicada em 1979. Seus versos iniciais (“Vou caminhando sempre contente / Pela estrada rumo ao céu”) foram a trilha sonora de uma geração.





É um tipo de melodia que reforça o entusiasmo e confiança expressos na letra. Dificilmente há uma igreja adventista que não cantava essa canção nos cultos jovens vespertinos do sábado. Quando eu tinha 12 anos de idade e era filho de professores de um colégio (IAAI) a 80 km de Manaus, várias vezes eu voltei para casa após a noite esportiva e, no caminho iluminado só pela luz da lua, eu vinha pedalando e assobiando a melodia de "Vou Caminhando". 

Naquela coletânea, constavam composições de outros letristas e músicos brasileiros que, por sua vivência musical e cultural, implementaram um novo tipo melódico que foi abraçado pelas Ligas M.V. em todo o Brasil [Missionários Voluntários foi a nomenclatura anterior a J.A., Jovens Adventistas].

Uma terceira amostra do raro talento de Alexandre Reichert, e também da inovação introduzida na música adventista, é a coletânea Eu Sei de Alguém, álbum de partituras lançado em 1979 pelo selo A Voz da Profecia, com canções de Alexandre Reichert e Mário Jorge Lima. Uma curiosidade é que ambos nasceram no mesmo dia, mês e ano: 17 de março de 1949. Em companhia aos dois compositores também comparece o letrista Wilson F. Almeida. 

As letras desse álbum de partituras são de fino extrato poético e abordam temas diversificados, como se pode ver a partir dos títulos de alguns cânticos: Mea Culpa, Ecologia, É Preciso Simplesmente Amar, Fé para Hoje, entre outros.

As harmonias sofisticadas servem de base a melodias cheias de lirismo, os arranjos para piano sustentam uma bem construída teia de harmonia vocal, tudo combinando com a expressividade poética e teológica das letras. Trata-se de um trabalho musical de alta qualidade e requinte, e que, vale ressaltar, aproximou a musicalidade adventista da musicalidade brasileira.

As canções de Alexandre Reichert ainda tocam os corações de quem as ouviu pela primeira vez, nos anos 1970 e 80. Elas podem ser fonte de inspiração para compositores, que identificarão nelas um modelo de inovação consistente, e para ouvintes, que desfrutarão de um refrigério musical e espiritual.

 


Comentários

Luciana Araújo disse…
Joêzer, conheci este blog há muitos anos e fico feliz que ele ainda exista e que você continue escrevendo. A maneira como você escreve sobre música foi um marco em minha vida para pensar e viver a música e a adoração. Quando você surgiu escrevendo sobre o tema eu estava acostumada a ler as mesmas ideias engessadas propagadas como lei, e que nunca me convenciam de fato (por mais que eu fizesse força para acreditar). A forma como você pensa e vive a música me ajudou a confiar mais na minha própria identidade musical, e ser ainda mais grata a Deus por essa Arte. Espero reencontrá-lo escrevendo aqui por muitos e muitos anos! Abraço!
joêzer disse…
Muito obrigado pela gentileza das palavras, Luciana. Fico feliz que meus rabiscos tenham sido importantes para você. Mensagens assim motivam a gente a continuar estudando e escrevendo. abraços!

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