29 julho, 2008

Fábulas menores de moral mínima - 4

Anunciado nas fanáticas garagens paulistanas: “o rodízio de carros e caminhões será modificado mais uma vez. Agora será assim: casados na quarta, solteiros na quinta e corintianos na segunda”.

Isso não é nada perto da nova mania nacional: depois do rodízio de pizza e do rodízio de carros e caminhões, chegou o rodízio de presos. Como funciona: a criatura é presa de manhã, solta à tarde e volta na manhã seguinte para sair à noitinha. Sem essa modalidade organizacional, a prisão de Salvatore Cacciola seria humanamente impossível, convenhamos. Tudo o que o país não precisa é de uma rebelião nas penitenciárias por causa de dois banqueiros presos. Afinal, dois banqueiros presos já é superpopulação carcerária.

Esse estado de coisas inspira cuidados e também mais uma fábula menor de moral mínima:

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE FRUTAS

Numa cela de um reino não tão-tão distante, dois alegres banqueiros discutem para ver quem tem o habeas corpus mais bonito.
- O meu é timbrado com as cores de um país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza – enfeita um deles.
- O meu é um primor de redação e ortografia – diz o outro.
- O meu foi escrito em três línguas: a da polícia, a dos advogados e a do juiz.
- Pois com o meu não tive que usar algemas.
Quando a discussão perigava degringolar para o baixo calão dos termos técnicos e jurídicos, a discussão foi encerrada com o mavioso som da voz do oficial de soltura, que dizia a um deles:
- Você está livre.
- Peraí! – disse o que ficava. – Você não foi preso pelo famoso policial BAN-ANA, o que prende sem dó?
- Isso mesmo – respondeu o feliz ex-prisioneiro. – Mas quem leu meu habeas corpus foi o juiz MA-MÃO!
De noite, o banqueiro que ainda estava preso não conseguia entender a saída do companheiro de cela e profissão. Por certo, como estivera tanto tempo escondido em outro reino, esquecera-se das virtudes das frutas tropicais e da sabedoria medicinal das vovós: se banana prende, mamão solta.

Moral mínima: podem acusar a justiça de ser cega; jamais de não ter paladar.


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