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As loucuras dos tempos modernos

Em As Loucuras de Dick e Jane, o casal Jim Carrey e Téa Leoni tenta manter o elevado padrão de vida que tinham antes de ficarem, os dois, desempregados. Pelo título, o filme parece apenas um veículo de celebração das mímicas de Carrey. Mas não é. E o que vou dizer pode ser um anátema para alguns: esse filme é um divertido mas contundente painel da ganância e do espírito de competição gerados pelo capitalismo mais selvagem. Sobram farpas para a vaidade dos executivos, para a impessoalidade no trato com os funcionários, para o exibicionismo dos endinheirados (veja a disputa masculina por carrões), para a especulação das bolsas financeiras.

O casal demora a cair na realidade da pobreza, mas quando percebe, já está caindo também nas armadilhas do crime. Mas o casal 'novo-pobre' não começa a assaltar porque a pobreza os levou àquela situação de penúria, mas também para manter a aparência de família bem-sucedida. Sai a fácil explicação do sociologiquês mais barato – o de que o pobre rouba por que é pobre – e fala-se de algo mais profundo e terrível: a soberba, a amoralidade e a vaidade humanas como principais causadoras da violência. Antes da luta de classes, vem a falência moral. Assim, vemos um casal que não rouba para sobreviver, mas para ostentar e ser bem visto outra vez pelos amigos e pela comunidade – a grama roubada é o sinal de como se importam com a fachada da casa, o signo da aparência de sucesso.

O filme falha em não punir o desempregado ladrão e castiga somente os executivos, mas isso também pode ser visto como a inversão farsesca da lógica de uma justiça branda para com os ricos e violenta para com os pobres. Apesar de subestimado, As Loucuras de Dick e Jane é um bom filme que segue o controle de qualidade hollywoodiano de edição, fotografia e cenário e ainda pode contar com um Jim Carrey comedido nas caretas (depois de O Show de Truman e O Mundo de Andy já se sabe do grande ator que ele é). Conte-se também com um roteiro de crítica social que não esquece que está tratando de uma comédia, e cenas impagáveis, como a corrida de candidatos a um emprego para chegar mais rápido à fila de entrevista (um retrato tragicômico da competição feroz das cidades) e os disfarces usados pelo casal nos assaltos (máscaras e roupas de bandidos e mocinhos – fictícios ou não - glamourizados pelo cinema).

Mas é possível conscientizar o espectador enquanto ele se diverte? O riso não espantaria a tomada de consciência? O filósofo Walter Benjamin, nos anos 1930, acreditava que os trabalhadores poderiam se conscientizar e elevar seu “espírito” na mesma medida em que se divertiam e se reconheciam nos personagens de uma obra. Benjamin admitia certas virtudes, artísticas e políticas, no cinema voltado para o entretenimento. Como exemplo dessa combinação de fruição estética e arte socialmente engajada, o filósofo alemão podia citar a obra-prima de Charles Chaplin, Tempos Modernos.

O filme de Chaplin tem imagens largamente conhecidas e tornou célebre a figura do operário submetido à mecanização do trabalho em série, ao avanço tecnológico agressivo, ao despreparo técnico diante do novo maquinário e à violência da repressão policialesca. Porém, o que poderia ser um tratado socialista é transformado pela genialidade de Chaplin em sátira demolidora tanto do capitalismo quanto do comunismo. Se o trabalhador se vê alienado de si mesmo ao ser cobaia de experimentos tecnológicos e escravo de patrões gananciosos, ele também é prejudicado pelas incessantes greves.

As cenas inesquecíveis se sucedem em profusão: Chaplin junta do chão uma bandeirola vermelha que caiu de um caminhão, segue atrás do veículo tentando devolvê-la e é tomado pela polícia por um líder de uma manifestação de grevistas que acaba de dobrar a esquina; seu primeiro emprego após a prisão e a forma como ele rapidamente se demite; Chaplin no casebre; trabalhando como garçom; preferindo ficar na prisão do que ter que voltar às ruas fervilhantes de violência e fome.

Ao contrário do casal exibicionista Dick e Jane do filme de 2005, em Tempos Modernos, de 1936, a mocinha rouba para ter pelo menos o que comer. Além disso, é claro que entre Chaplin (diretor, ator, roteirista e autor da trilha sonora) e Dean Parisot (o diretor do filme mais recente) há um oceano. Mas ambos os filmes têm finais pseudo-felizes: quando o casal comemora a indenização (justa mas tomada à força) há uma citação final à Enrom, a empresa real que afundou em contabilidade fraudulenta, que demonstra que o risco da história do casal se repetir em outra família nunca será erradicado.

Já a chance de felicidade do casal de Tempos Modernos subitamente se desvanece. É quando eles se vêem obrigados a abandonar o emprego recém-obtido e são encontrados na última cena numa estrada vazia. O rosto da mocinha é de tristeza e desamparo, mas Chaplin (ao som instrumental da famosa Smile/Sorria) insiste para que ela abra um sorriso. Otimismo ingênuo? Falsa esperança? Nada disso. Chaplin, um otimista incorrigível, sabe que, como diz uma antiga canção brasileira, “tristezas não pagam dívidas”.

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