16 julho, 2008

As mensagens nada subliminares do rock


Diogo Mainardi, colunista de Veja, falou recentemente num podcast sobre a presença de mensagens subliminares demoníacas no rock dos anos 70. Uma das canções com recados satânicos seria a popularíssima Hotel California, dos Eagles. Como de praxe, a mensagem não aparece de forma linear numa frase cantada e só pode ser ouvida com o recurso da audição em reverso. Só com muita boa (ou seria má?) vontade pra entender o que Mainardi ouviu. E se você não souber de antemão o que supostamente está sendo dito, duvido que consiga descobrir o que está soando. Mainardi abusa do artifício grotesco de um modelo de mensagem subliminar que não encontra respaldo nos círculos de estudos mais sérios. 


Os “teóricos” da mensagem subliminar são como aqueles que crêem em discos voadores: eles enxergam exatamente aquilo que querem ver. Assim como balões, aviões e meteoritos (e até pratos de porcelana) tomam forma de espaçonaves de turistas alienígenas, diversas canções seriam manipuladoras da mente humana. É como acreditar em alguém que diz que por trás de uma nuvem espessa tem um disco voador passando. Assim seriam as mensagens subliminares: por trás de uma camada de som, por trás de frases só escutadas em reverso são encontrados versos satânicos, apologia da violência, estímulo ao consumo e à perversão sexual.

A questão da mensagem subliminar acaba desviando o foco de algo muito mais contundente, e algo que é apresentado não ao subconsciente, mas ao consciente mesmo. Quero dizer que as mensagens mais daninhas estão explicitamente escancaradas ou subentendidas de forma nem sempre sutil. É possível ter a percepção de coisas mesmo quando não há clara consciência de percebê-las? Sim. Porém, se as mensagens estão encobertas pela música ou por outros sons e formas gramaticais, somente os sons que encobrem tais mensagens é que serão percebidos. Se a mensagem se destaca claramente não é subliminar.

Vamos então às mensagens explícitas ou subentendidas do rock dos anos 60 e 70, mesmo porque a tentativa de assustar os adolescentes impressionáveis com recados e imagens de sexo e satanismo só os deixa mais curiosos (pode parecer estranho ao mundo dos adultos, mas é assim que funciona).

O defensor do “discurso reverso (reverse speech)” David John Oates declarou que o disco Highway to hell, do AC/DC, tinha frases escondidas como “meu nome é Lúcifer”. Angus Young disse em resposta que “ninguém precisa tocar o álbum ao contrário, pois nunca usamos mensagens ocultas. Nós intitulamos o álbum de Highway to hell (estrada para o inferno), está bem na frente deles”.

1) Mitologia sexual do rock

O estilo de vida sexualmente bastante liberal de tantos astros do rock já serve de incentivo aos seguidores (as). Claro que o fato de ser uma estrela do rock tem maior apelo e facilidades. Mas também atrai uma repercussão em escala planetária.

O rock celebra o sexo como algo natural e irreprimível, com toques de dominação masculina e ambiguidade sexual, embora o componente de submissão masculina esteja presente - “your servant I am / and will humbly remain” (seu servo eu sou / e humildemente permanecerei) – Lady Jane, dos Rolling Stones; e, antes das cachorras do funk, Iggy Pop cantava “I wanna be your dog” (quero ser seu cachorro).

O roqueiro se vê como: uma máquina sexual: “get up I’m sexy machine” – James Brown não era roqueiro mas teve, digamos, uma atitude sexy-rocker bastante influente;
alguém que merece adulação sexual: como revelam as canções dos Stones "Let’s spend the night together" (vamos passar a noite juntos – certamente não para contar ovelhinhas) ou The last time, que diz “you don’t try very hard to please me / with what you know it should be easy” (você não se esforça muito pra me agradar / com aquilo que você sabe que deveria ser fácil).

2) Glorificação da juventude

O rock representa a esfera mítica do imaginário da juventude:
- eternização da juventude;
- dificuldade de amadurecimento;
- mitificação da morte juvenil

O último item era um modismo nos anos 60-70 – na sintomática canção My Generation, a banda The Who cantava “I hope I die before I get old” (espero morrer antes de ficar velho) enquanto o Circle Jerks repetia “live fast, die young” (viva rápido, morra jovem). Mesmo que envelheçam, a pose e a atitude (alguns mais pose que atitude) são as de estar bebendo da fonte da eterna mocidade (eles também bebem de fontes que passarinho não freqüenta, mas isso já é outra história).

3) Hostilidade à educação formal

“We learned more from 3-minute record, baby / than we ever learned in school” (aprendemos mais de uma gravação de 3 minutos do que já aprendemos na escola - No surrender, de Bruce Springsteen); e a famosa “hey, teacher, leave those kids alone” (ei, professor, deixe as crianças em paz - The Wall, do Pink Floyd). 
Brian May, guitarrista do Queen, estava no meio de um doutorado em física quando a banda estourou mundialmente. Com pesquisas publicadas na área científica, May tornou-se PhD em 2007 com a tese A Survey of Radial Velocities in the Zodiacal Dust Cloud. Exceção? Sem dúvida. Então seriam os roqueiros contra a educação escolar?

Para Robert Pattison, os roqueiros não propõem a substituição da razão pela anarquia, mas o reposicionamento da razão ditado pelo sentimento [1]. Entretanto, duas imagens não desapareceram: a imagem do punk e seu espírito de rebelião contra "tudo o que está aí", que contribuiu para um anti-autoritarismo viciado e violento; e a imagem da evasão escolar divulgada por meio das canções e do padrão de comportamento. A decadência da educação americana seria um reflexo do abandono governamental da periferia, entregue às mãos do tráfico e da violência, e do estímulo à auto-satisfação por meio do pop-rock, que naturalmente incentiva os sonhos juvenis de ser um popstar e não um cientista.

4) Estímulo à alteração de consciência

A banda Jefferson Airplane cantava em White rabbit: “One pill makes you bigger / and one pill makes you small / and the pills mother gives you don’t do anything at all” (uma pílula lhe faz maior / e outra lhe deixa menor / e as pílulas que sua mãe lhe dá não faz nada acontecer); os Ramones queriam ficar sedados: “I wanna be sedated”; e David Bowie cantava “I’m feeling fine / gonna lose my self-control” (me sinto bem / vou perder meu controle).

Contudo, essa busca por paz interior com tintas de bucolismo está em contradição com a gratificação tecnológica dos roqueiros. Por meio das drogas eles queriam permanecer em um estágio mental de tranqüilo e primitivo passeio campestre, mas ao mesmo tempo experimentavam toda sorte de equipamento musical mais avançado.

O satanismo proclamado nas letras e nas posturas de alguns roqueiros dos anos 70 era uma jogada de marketing. Porém, é bom lembrar que alguns deles, de forma marqueteira ou não, acabaram contagiando a sociedade juvenil com seus gritos primais de convocação anti-cristã, cujo maior êxito foi a banalização da figura do diabo, transformado em caricatura divertida, folclórica e personagem publicitário. Ou seja, bem distante do cruel personagem bíblico diretamente envolvida em um conflito cósmico.

É evidente que o rock dos anos 60-70 não se resume aos exemplos e características selecionadas acima. Havia também cantores e canções que participaram ativamente da conscientização política e social, nem sempre, porém, com resultados eficazes e meios apreciados pela sociedade tradicional. O rock é ao mesmo tempo sintoma e diagnóstico de um tempo e de uma sociedade adoecidas. Mesmo os uivos deliberadamente desafinados e toscos do punk podem ser vistos tanto como um grito de alerta quanto um pedido de socorro.

As mensagens subliminares, se é que podem ser percebidas nas canções “acusadas”, pouco deveriam significar diante dos incontáveis relatos de depressão, violência e decadência física e intelectual de quem não conseguiu ou não quis resistir às armadilhas do universo roqueiro. Os religiosos que denunciam supostas mensagens ocultas do rock deveriam atentar mesmo para mensagens anti-cristãs que soam em alto e bom som, bem audíveis e visíveis. 


[1] – Pattison, The triumph of vulgarity, p. 105.

Bibliografia de referência:
FRIEDLANDER, Paul. Rock and roll – uma história social. Ed. Record.
PATTISON, Robert. The triumph of vulgarity: rock music in the mirror of romanticism. Oxford Univ. Press.
WICKE, Peter. Rock music – culture, aesthetics and sociology. Cambridge Univ. Press.

Um comentário:

Carlos Eduardo disse...

O rock simplesmente vai de encontro com toda a doutrina do sistema, quando fala mal das escolas, não significa que eles querem que as escolas acabem, querem que o sistema escolar que conhecemos hoje termine, que na minha opinião é um sistema doentio, onde os jovens levam a escola como obrigação, e não tem a menor vontade de adquirir conhecimento. Mas por pesquisas os roqueiros são mais inteligentes. quando eles falam de satanismo, não significa que são satânicos propriamente ditos, significa que estão cansado de uma igreja cheia de doutrinas, onde não a liberdade alguma, eles queriam liberdade, de pensamento e tudo mais, e na minha opinião, derrubar a igreja católica que sempre tenta ficar do lado dos fortes... desde a idade média, onde hoje condena as coisas que fazia.