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por que ouvir os clássicos?

Erudita também é a música de invenção Herbie Hancock e Hermeto Paschoal, pra ficar em dois músicos com H. Clássico é uma roupa que os compositores eruditos de hoje não vestem, até porque consideram clássico o figurino do regente. Eles fazem música contemporânea. São compositores que bebem em todas as fontes e, após ruminação intelectual, regurgitam novas sonoridades que espantam a platéia de oito amigos e três professores.

Não quero dizer que há sabedoria na multidão de ouvintes da enésima execução da Sinfonia nº 40 de Mozart. Mas é que os clássicos, emprestando uma frase de Ítalo Calvino, ainda não terminaram de dizer o que tinham para dizer. Ao contrário de boa parte da música experimentalista do século XX, que rejeita o juízo de valor, renega a funcionalidade e esvazia o sentido interpretativo, a música clássica suporta as muitas interpretações e continua sendo um porto seguro de escuta.

Enquanto a música erudita contemporânea, sem generalizações, é ouvida num concerto, mas não acompanha o espectador nem até o estacionamento (ou ao ponto de ônibus, no meu caso), os clássicos ressoam pelos corredores da mente por muito tempo ainda. Sei que as sinfonias ímpares de Beethoven são mais admiradas. E destas, por mais que eu me deixe levar pelo canto fraterno e majestoso da Nona ou sempre me surpreenda com a engenharia sonora do primeiro movimento da Quinta (sim, o pam-pam-pam-pam e suas variações milagrosas), é o doce alegretto da Sétima Sinfonia que fala comigo como se fossemos grandes amigos.

Cá com minhas idiossincrasias, à parte a ópera Don Giovanni e o filme Amadeus, quase nada mais de Mozart ou sobre Mozart me fascina. Se bem que tenho na estante um livro comprado em 2006 nos tempos das vacas gordas e que já passou da hora de abri-lo: Mozart – Sociologia de um Gênio, escrito pelo também genial Norbert Elias. Para compensar, Brahms (o lirismo reflexivo da sinfonia nº 3, o quinteto para clarinete nº 115) e sua densidade ecoam inapelavelmente após sua audição. Não recomendo muito mais. Não sou especialista em Brahms (embora cada vez menos, sou defeituosamente generalista em quase tudo).

Stravinski é conhecido pela narrativa instável e surpreendemente atual de A Sagração da Primavera. O que hoje, com a poeira assentada, já se fixou como clássico, foi um dia uma revolução com aqueles compassos retalhados, sobrepostos, percutidos, servindo de base para que Stravinski tomasse nas mãos o odiado intervalo Dó-Fá sustenido e montasse um acorde de Dó Maior tocado simultaneamente ao de Fá sustenido Maior. Experimente fazer isso num piano próximo a você e veja que aquilo só podia dar polícia na estréia.

O pânico que se tinha (e se tem) da percussividade rítmica! Enquanto na Paris de 1913 a polícia apartava a querela entre apupadores e apoiadores da obra de Stravinski, no Rio de Janeiro recebia ordem de prisão quem trouxesse na mão um pandeiro ou um violão.

Hoje é o Dia da Música Clássica no Brasil e estou a falar de forasteiros. É que nunca fui de entrar na procissão nacionalista de defesa da soberania musical. Não acho que a música seja um caso de “verás que um filho teu não foge à luta”. Mas aprecio, e muito, a obra para violão de Villa-Lobos, cujo nascimento foi nesse dia, em 1887. Já não gosto tanto das invencionices das variações de temas folclóricos e muito menos do pavoroso filme que fizeram de sua vida (disso sim, fuja, meu filho!).

Mas vou relacionar algumas obras brasileiras que, se você ainda não conhece, vale como iniciação. Vou pular o haydniano Padre José Maurício Nunes Garcia e as óperas de Carlos Gomes. Não por não serem bons; eles são. Mas vá de Alberto Nepomuceno e sua Sinfonia em Sol Menor; se deleite com as valsas brasileiras para piano de Francisco Mignone; a narrativa orquestral de Tributo a Portinari, de César Guerra-Peixe; a sinfonia nº 5, de Cláudio Santoro. Outros nomes menos, digamos, clássicos ficam pra depois.

Por último, ou se quiser comece com ele, conheça Camargo Guarnieri, cujo primeiro nome é Mozart. E eis um Mozart a ser mais reconhecido. Passeie pelos multivariados Ponteios, são 50, comece devagar com aqueles gravados pela pianista Laís de Souza Brasil; ouça os concertos para piano e orquestra (o de 5 é imperdível); descubra o maravilhoso vigor do primeiro movimento da Sinfonia nº 2 (Uirapuru).

Por que ouvir os clássicos? A riqueza e a excelência dessas obras inesgotáveis respondem.


Serviço:

Hoje, a partir das 21 horas, saiba que a TV Cultura de São Paulo (e também a rádio Cultura FM online) transmitirá o concerto inaugural da OSESP direto da Sala São Paulo, estreando seu novo regente, o francês Yan Pascal Tortelier, após a conturbada saída de John Neschling.

Caso perca o programa da noite de 5 de março, nesse link está a agenda de transmissões do programa Noites Clássicas neste mês de março.

Assista o concerto de abertura da OSESP online no IPTV Cultura.

Comentários

Lux disse…
Belas sugestões!
Acho que não podemos desprezar a ligação afetiva que temos com certas músicas. Eu a tenho, por exemplo, com o Concerto pra piano e orquestra n° 23 de Mozart. Ouço com o coração. Aliás, me apego a isso, que depois que a gente estuda harmonia e disseca partituras corre o risco de desaprender a ouvir com o coração também. Aí não há conhecimento estético que valha a pena um cinco de Março. Abraço!
joêzer disse…
concordo.
às vezes nossa cabecinha racionalista deixa escapar algumas coisas que fazem um bem danado ao coração. sou assim com o concerto nº 2 de chopin.
acredito que o mercado da música erudita (como termo técnico) está nas trilhas sonoras de filmes e jogos de computador.
Como todo música erudita muita coisa se copia para criar sensações condizentes com a função, mas há exceções que ousam ser esteticamente interessantes e, algumas vezes, até inovadores sem perder o contato com o ouvinte.
são as únicas duas área que sejam do meu conhecimento que rendem um bom dinheiro aos compositores hoje em dia.
vale a pensa conferir trabalhos de Howard Shore (Lord of the Rings), Hans Zimmer e John Williams (quando esse não copia quase que tudo de Hoslt, Ravel semelhantes).
joêzer disse…
isso mesmo, andré.
holst e elgar são fontes para john williams, e principalmente, erich von korngold (das peças sinfônicas e, principalmente, das trilhas sonoras de Capitão Blood e Aventuras de Robin Hood).

quanto a comunicabilidade e a lucratividade dos compositores eruditos hoje, não por acaso philip glass, michael nyman e rachel portman migraram para o cinema enquanto howard shore fez o inverso (musicou a ópera The Fly).
sergio maia disse…
E aí, Joêzer. O que achou da regencia do Tortelier ontem à noite? Se você assistiu.
vlw

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