A cantora Paula Fernandes disse em um recente programa de TV que seu processo de composição é, segundo suas palavras, “altamente intuitivo, pra não dizer mediúnico”. Foi a senha para o desapontamento de alguns admiradores da cantora. Embora suas músicas falem de um amor casto e monogâmico, muitos fãs evangélicos já estão providenciando o tradicional "vou jogar fora no lixo" dos CDs de Paula Fernandes. Parece que a apologia do amor fiel só é bem-vinda quando dita por um conselheiro cristão. Paula foi ao programa Show Business , de João Dória Jr., e se declarou espírita. Falou ainda que não tem preconceito religioso, “mesmo porque Deus é um só”. Em seguida, ela disse que não compõe sozinha, que às vezes, nas letras de suas canções, ela lê “palavras que não sabe o significado”. O que a cantora quis dizer com "palavras que não sei o significado"? Fiz uma breve varredura nas suas letras e, verificando que o nível léxico dos versos não é de nenhu...
Comentários
Aprendam, de uma vez por todas, como deve ser a receita perfeita para a composição um bom e legítimo "Sertanejo do Jardim da Infância". São três passos bem simples:
1. Para a letra das estrofes, pegue uma meia dúzia (quando muito) de sentenças versando invariavelmente sobre os temas "sexo", "balada", "bebedeira", "pegação" e "sem-vergonhices" (esse é só um eufemismo para não se usar o termo mais chulo) em geral. Para este item, ainda, é importante que não se demonstre a mínima consideração para com as regras básicas de expressão em Língua Portuguesa, tais como concordância, coesão, coerência etc. (afinal de contas, a chamada "licença poética" legitima a adoção dos mais absurdos descalabros linguísticos...);
2. No refrão, preferencialmente, acrescente algumas sílabas soltas, desconexas e sem qualquer sentido inteligível. Eis aqui algumas boas sugestões: "ai-ai-ai", "tchu-tchá-tchá", "tchê-tchererê-tchê-tchê","lê-lê-lê", "bará-bará-bará, berê-berê-berê" etc.
3. Encaixe tudo isso dentro de uma sequência melódica e harmônica de três ou, no máximo, quatro acordes repetida à exaustão. Se porventura lhe falta criatividade e/ou competência artística para imaginar algo diferente, não tem problema algum. A "fórmula mágica" já vem pronta, basta tocar as cifras: Am - F - C - G.
Pronto, aí está. É sucesso garantido! Afinal, as dezenas de canções que ouvimos todos os dias, e que seguem à risca este padrão, não me deixam mentir sobre o assunto.
Um abração,
Marcus
P.S.: Ops, foi mal mesmo! Acho que agora eu "me ferrei", porque os cantores e compositores do "Jardim da Infância" vão ficar muito "bravinhos" e mandar os seus irmãos maiores me pegarem na saída da escola (afinal, revelei publicamente o segredo deles na Internet)...
A sequência de acordes é essa mesma. Assim como o rock dos anos 50 era "G - C7 - G - D7 - G", a dos Platters e outros românticos era "C-Am-F-G". Inclusive a cadência mais usada pelo pop-sertanejo também está no refrão de "TAke On me", do A-ha, no Let it be (Beatles), Forever Young, Poker Face, Down Under e trocentos outros hits.
Ô sequenciazinha batida (e inesgotável), sô! rs
Volto com a difícil missão de informar-lhes que, infelizmente, parece que o nosso velho amigo "Sertanejo do Jardim da Infância" conseguiu a incrível façanha de piorar o que já estava péssimo, e acaba de "desgraduar-se" um pouquinho mais, ladeira abaixo, atingindo o nível de "Rol do Berço": Gugu, dadá, buá, buá...
Para entenderem do que se trata, deem só uma "espiadinha" neste vídeo que apareceu recentemente no YouTube. São cenas constrangedoras, admita-se, então aconselha-se a que façam isso somente se forem suficientemente fortes, capazes de tolerar as debilidades alheias e de lidar bem com situações que exponham seres humanos ao extremo do ridículo ou da falta de senso:
http://youtu.be/EoIqEaS52NQ
Puxa vida, e isso tinha que acontecer logo agora, quando eu estava começando a me sentir culpado pelo sarcasmo que usei no meu comentário anterior!
Como já dizia algum "velho deitado" por aí: "A música popular era muito melhor quando o tal sertanejo universitário era apenas um caipira que ia à cavalo pra faculdade."
É pra rir ou pra chorar, hein?!
Um abração,
Marcus