21 agosto, 2012

André Rieu é o pior professor de música clássica


André Rieu não toca música clássica. O que ele faz é recortar o trecho mais conhecido de uma peça erudita e, junto com aquelas violinistas e cellistas com roupa de baile de aniversário de 15 anos, alardear que está revigorando a música clássica.

É como se fosse um show global de fim de ano em que Roberto Carlos cantasse somente o refrão dos maiores sucessos dos Beatles em ritmo de Emoções e pop-sertanejo.

Anunciado como o maior violinista do mundo (o que já é uma mentira), Mr. Rieu é o maestro de um grande circo. Aliás, um circo bem caro: os ingressos chegam a R$ 400. Quem paga um absurdo desses certamente já tem pão em casa. Só faltava o circo.

Cada um faz com a música clássica o que bem quiser. Pode mutilar essa música, pode picotá-la, pode por três tenores para vendê-la, pode por uma escola de samba junto com a orquestra, pode fazer acrobacias em cima do piano. Só não pode dizer que está revigorando a música clássica.

André Rieu é um empresário da indústria do entretenimento. E isso não é nenhum problema. A música clássica também é um grande entretenimento. Pelo menos, assim o era para os patrões de Haydn e Mozart, que queriam apenas convidar a nobreza para passar o tempo ouvindo música após a refeição. Ou simplesmente ter uma respeitável música de fundo para o seu jogo de cartas. 

Nos dias de hoje, muita gente que vai a um concerto também quer somente alguns bons momentos de alto entretenimento. Depois do espetáculo, eles não vão ficar falando do nível de interpretação da orquestra, da vida dos compositores ou dos projetos culturais para a música erudita na cidade. E nisso não há problema algum.

Mas é um equívoco dizer que André Rieu é uma porta de entrada para o ouvinte conhecer o vasto mundo da música clássica. Pode ser que aconteça de alguém passar a ler e conhecer melhor esse mundo. A consequência será sua percepção da falsificação promovida por André Rieu.

O crítico Leonardo Martinelli afirmou que que o espectador da música clássica fatiada por André Rieu não irá atrás das obras clássicas integrais. Para ele, um adulto que só lê Harry Potter dificilmente vai migrar para Shakespeare. Esse leitor continuará em busca de fantasia romântica e vai migrar para as histórias de Crepúsculo. Leitores de Paulo Coelho não passam a ler Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Eles vão procurar outro drama espiritualista ou buscar consolo em Augusto Cury. E quem se proíbe de Paulo Coelho fica só no Augusto Cury.

Richard Clayderman e os pianos brancos, Ray Conniff e sua orquestra que fazia as músicas de todos os países no mesmo estilo big band, Andrea Boccelli e os cenários ultrabregas onde o colocam para cantar. Nenhum deles levou o público a um maior conhecimento da música clássica. Para isso, é preciso educação musical em casa ou na escola.

Não quero passar um atestado de superioridade ou elitismo intelectual. Eu mesmo já escrevi por aqui sobre meus desgostos em relação à chamada música erudita [eu odeio música clássica]. Mas entendo que é preciso saber diferenciar entre arte e entretenimento de massa. Elas podem ser combinadas, distanciadas ou influenciadas. Isso é intercruzamento cultural. Mas uma não pode ser vendida como se fosse a outra. Isso é desonestidade comercial.

André Rieu não é o professor da música clássica. Ao contrário, ele deseduca as pessoas ao falsificar a música erudita. No intuito de facilitar a audição de obras famosas do universo clássico, ele adultera essas peças colocando tudo no liquidificador do entretenimento pop. A música clássica não precisa ficar parecida com samba ou disco music para se popularizar. Descaracterizar a música não é nenhum favor a Beethoven ou Chopin.

Quem quiser comprar os DVDs de André Rieu com aqueles cenários de cruzeiro marítimo ou de réveillon europeu, fique à vontade. Eu não compro e nem vou a nenhum dos seus 18 shows agendados em São Paulo. Essa atitude não me torna superior ou inferior a meus semelhantes. Mas eu decididamente não tenho o mínimo interesse em comprar gato por lebre.

22 comentários:

Marcus Vinicius S. Oliveira disse...

Não entrarei no mérito da questão do André Rieu ser ou não ser o melhor violinista do mundo, ou de ele estar ou não estar "vendendo gato por lebre" e etc. e tal; até mesmo porque, não tendo assistido a nenhuma de suas apresentações, falta-me conhecimento adequado para poder formar qualquer juízo de valor a esse respeito.

Não obstante, caracterizar o trabalho em questão como mero "entretenimento popular", mas não "arte", é, a meu ver, um franco exagero. Se eu bem me recordo do que aprendi durante as parcas aulas de filosofia que tive na faculdade, "arte" é um termo bastante amplo, aplicado a toda habilidade de fazer coisas essencialmente belas, e que as pessoas se deleitem em ver e/ou ouvir (englobando poesia, música, teatro, dança, pintura, e assim por diante).

Com base na subjetividade própria subjacente ao indivíduo(isto é, as capacidades distintas que cada pessoa possui de apreciar e avaliar as artes), é bem possível afirmar-se que a arte do Sr. Rieu seja considerada como "ruim", "pobre" ou de baixa qualidade. Mas é "arte" ainda assim, e no mais pleno sentido da palavra.

Marcelo dos Santos Silveira disse...

Perdoe minha ignorância musical, mas num mundo onde as pessoas só escutam porcaria, André Rieu, está fazendo um ótimo trabalho assisti ao DVD e gostei.É muito melhor que banda kalipso e rebolation.

Anônimo disse...

André Riel faz o que os mais classicos e celebres compositores de todos os tempos nunca fizeram e nunca tiveram oportunidade de fazer "contagiar de forma magnifica o publico de todas as classes" isso é arte, o apego ao passado é mero saudosismo, caminhamos em direçao ao novo em um caminho sem volta, em que o gosto da maioria é quem decide o q é bom ou ruim, nao se pode chamar isso de limitaçao intelectual, mas liberdade de expressao e escolha.

joêzer disse...

Marcus, não há argumento que faça equivalência entre arte e entretenimento. Todos podem fazer arte, é claro. Além disso, vivemos numa época em que a alta crítica e os intelectuais foram dispensados de suas funções seletivas. O conceito de entretenimento e arte que apresentei, de fato, está bastante simplificado. Não é que o entretenimento não possa ser arte. Mas nem toda a arte é para o entretenimento puro e simples.

Filmes como Velozes e Furiosos ou comédias românticas em geral foram produzidos com o intuito de ser um passatempo. Envolvem signos artísticos, mas sua função não é a a inovação estética, a investigação filosófica, a reflexão sobre a própria arte ou sobre a sociedade. Sabemos que essas características nao transformam nenhum filme ou música em um produto melhor, em obra superior e outros elitismos.
Mas essa é a diferença entre Beyoncé e Bob Dylan, entre Restart e Radiohead, entre Apocalypse Now e Rambo.
Saber diferenciar entre a motivação artística e a motivação de entretenimento faz parte do jogo filosófico também.

Obrigado pelos seus comentários, que foram certamente bem pertinentes.

joêzer disse...

Anônimo, você diz que os compositores mais célebres nunca puderam "contagiar de forma magnífica o público de todas as classes". Isso não está historicamente correto. Se André Rieu pega pedaços da música desses compositores é exatamente porque a música desses compositores contagiava e sempre contagiou diversos públicos.

Basta ver o quanto os compositores, principalmente os do século XIX, eram prestigiados e conhecidos em sua época.

Rieu só pega um trecho (geralmente o mais conhecido e assobiável) de uma obra. Não estou dizendo que ele não tem esse direito. É claro que tem. E isso pode ser agradável e divertido para muita gente. Não há problema nem demérito nisso. O problema é quando dizem que isso é uma "porta de entrada" para o universo erudito ou, pior, que música clássica só existe naquele formato.

Grato pelo comentário. Volte sempre!

joêzer disse...

Marcelo, sua comparação é válida. Não deixe que lhe convençam que alguém é inferior por causa do gosto musical. Por outro lado, o que faz sucesso na mídia musical está tão rebaixado artística e moralmente que chegamos a raciocinar que as distorções de Mr. Rieu são melhores que os rebolations da vida.

Isso é como dizer que é melhor o adulto ler Harry Potter do que folhear a PLayboy. Talvez nossa defesa do que gostamos não necessite de uma analogia tão gritante, rs.

valeu por comentar!

Angelo Repetto disse...

Joêzer, isso sim é que é "arte":

http://www.youtube.com/watch?v=EE5FiCJ4vow

Sem comentários adicionais...

Abração.

Marcus Vinicius S. Oliveira disse...

Amigo Joêzer,

Grato por suas palavras gentis, bem como pela atenção dada ao meu breve comentário.

Olha só, eu seguramente não me oponho ao fato de que exista por aí uma vasta gama de manifestações artísticas reconhecidamente pobres, sofríveis, fúteis e desprovidas de qualquer conteúdo intelectual mais respeitável, nem de artistas sem talento cujo objetivo não seja o de promover qualquer sorte de reflexões acerca da nossa realidade, mas sim o de meramente iludir e entreter as "massas" (e, principalmente, obter "rios" de dinheiro às custas da estupidez alheia); também não me oponho ao fato de que este bem possa ser o caso da música "comercial" explorada por André Rieu.

A observação que fiz é concernente apenas ao trecho do artigo no qual declara-se ser preciso "diferenciar entre arte e entretenimento popular". Este pequeno equívoco conceitual, a meu ver, pode levar o leitor a uma falsa concepção de que uma arte "ruim", ou aquela arte que vise apenas ao entretenimento, não seja definitivamente uma "arte".

Não é bem assim que as coisas funcionam: Arte para entretenimento é arte para entretenimento. Arte pobre e vazia é arte pobre e vazia. Música da Banda Calypso é música da Banda Calypso. Pessoas com pouca cultura e péssimo gosto musical são pessoas com pouca cultura e péssimo gosto musical; mas que, nem por isso, deixam de ser "pessoas" e de possuírem todas as características essenciais e necessárias(embora nem sempre desejáveis) para sê-las.

Um abração, e parabéns pelo seu blog. Gostei muito de ler os textos postados aqui.

Do amigo: Marcus

joêzer disse...

Marcus, concordo com você em gênero, número e grau. abs

Dito Inacio disse...

Marcus, cada palavra do seu post foi um balsamo para minha alma. Que bom ler isso! Que bom ver que finalmente, nao é toda uma sociedade que esta mergulhada no obscuro da ignorância, que se deixa enganar e ainda defende seu enganador. Nao somos legiao, amigo! E dai? Ter razao nao é pressuposto de maioria. O termo "elitismo" foi criado justamente para impedir a propagaçao de idéias profundas que nao sao facilmente abordaveis pela grande massa ignorante! Bebi cada palavra do seu post! Adorei!

Dito Inacio disse...

Por isso defendo a criaçao de um novo vocabulario para as disciplinas da verdadeira Arte. Deixemos os termos "arte", "musica", "invençao" e todo o vocabulario vilipendiado pela ignorancia para a grande massa, que vive fincada na lama do universo sem pensadores que pensa saber de que trata o assunto, apenas porque repetem essas palavras como papagaios.
Um novo dicionario é necessario, para separar o joio do trigo. Criaremos outros termos, que os ignorantes fiquem com a carcassa de um saber que nunca tiveram, sentiram ou entenderam. Parabéns, Marcus!

Berna Valadares disse...
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Berna Valadares disse...

André Rieu, está de parabéns!!!!porque tem capacidade de conquistar o público com sua orquestra maravilhosa, que não tem idade para assistir, este grande espetáculo ao vivo(até eu queria um dia poder ter o privilégio de aplaudir de pé este rei da valsa)Ele toca com o coração e passa energia para o público.Fazendo cada um enriquecer a alma com as lindas melodias. Deus te abençoe, Maestro. Um grande abraço.

Berna Valadares disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Com certeza esse idiota que escreveu este texto gosta mais é das músicas éguinha pocotó e as duplas "chumbregas" sertanejas - diga que não acertei na veia!!!!

Marcus Vinicius S. Oliveira disse...

Caro Anônimo, acho que você acaba de dar um tiro no próprio pé...

Explico-lhe: Você chamou o Joêzer de "idiota" (coisa que ele não é); mas, ao que parece, quem curte essas excrescências musicais brasileiras - ou, melhor dizendo, apela à exploração do mau-gosto popular para ficar rico e famoso - é o próprio André Rieu, a quem você pretendia defender, conforme pode ser visto no link a seguir:

http://www.youtube.com/watch?v=EE5FiCJ4vow

É como já dizia o velho "velho deitado", o pior cego é aquele que não quer enxergar.

Anônimo disse...

E uma porta de entrada sim, pelo menos para mim. Depois que assisti aos vídeos me interessei e muito por obras clássicas, e claro que há diferenças. passei a gostar e muito das óperas apresentadas no teatro municipal, ou seja, rieu me influenciou e muito. amadeus mozart e outros também causavam críticas nessa época, pois eram consideradas muito avançados, achavam uma afronta, nem todos viam com bons olhos e olha no que se tornaram?

Paula Morais disse...

Concordo plenamente com seu texto. Esse cara consegue comercializar algo que é sublime, deixar pop. Não chega aos pés de um Baremboim ou Valentina Lisitsa, e fica com aquela cara de sofrimento fazendo de conta que tá sentindo a música, no fundo rindo da cara dos trouxas, fazendo cortesia com o chapéu alheio. Uma tia minha já foi num "show" dele e pagou uma fortuna
E ele ainda tocou michel telo no violino kkkkkkk... pra mim isso é uma babaquisse... falta de originalidade...

Wilson Mota da Silva disse...

Eu gosto e ouço música clássica desde a adolescência depois de ouvir Pour Elise de Beethoven, tocada por.... Richard Clayderman, hoje ouço Chopin, J.S. Bach. Infelizmente não consegui passar este gosto para meus filhos, até que meu filho mais novo, aos 11 anos, assistiu Andre Rieu regendo Carmina Burana, e adorou, pesquisou sobre Carl Off e, para a felicidade dos meus ouvidos abandonou o "sertanojo universitário" por música de verdade.

Anônimo disse...

Caramba, ta difícil entender pessoal??? O. Cara que escreveu deixou claro qual a diferença de uma coisa e de outra... musica erudita tem um objetivo muito mais alem de entrenimento. Já quem protestou ve se de longe que não tem interesse em se eruditizar, mas que seja feliz com um bom entrenimento.

Sarah Rebecca Teixeira de Moura Cruz disse...
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Sarah Rebecca Teixeira de Moura Cruz disse...

Parei de ler quando ele disse que "leitores de Harry Potter seguirão para Crepúsculo", pois tal comentário mostra o quanto preconceituoso e desconhecedor de outras culturas é esse autor, sugiro que ele pesquise mais sobre as obras ou artistas que ofende, pois, sim, Harry Potter é aclamado por diversos críticos de literatura e já ganhou vários prêmios, ao contrário de Crepúsculo, que só conseguiu o titulo de mais vendido e o filme conseguiu um prêmio da MTV escolhido pelo público. Portanto, pelo nível de literatura em Harry se enquadra, duvido que seus leitores migrem para Crepúsculo, talvez para Senhor dos Anéis, As Crônicas de Gelo e Fogo, Percy Jackson... Mas Crepúsculo?? Não.

Talvez André Rieu apenas venda entretenimento, lote casas de show com violinos, pianos e tenores, alegando um entretenimento clássico, mas apenas fornecendo algo superficial, mas, como pessoas já disseram antes de mim: é um alívio que ele, com as peças recortadas que ele toca, violinos, pianos e tenores conseguir lotar estádios a preços muito caros e em um momento em que músicas com trechos como "meu pau te ama" ou "roça na minha" fazem sucesso. Artistas como ele, Alexander Rybak, Lindsay Starling e outros, me fazem crer que a cultura atual não está perdida.