Quando o gospel começou a se firmar no Brasil na metade da década de 1980, logo boa parte do repertório evangélico tradicional foi esquecido. Não por acaso, muita gente que frequenta as igrejas cristãs há menos de quinze anos tem a impressão de que o gospel é o marco zero da música sacra. Não se conhece a história dos pioneiros que se empenhavam em pregar a Palavra, quanto mais o passado de músicos que ousavam inovar a Palavra cantada. É como se tudo tivesse começado com o movimento gospel. Vamos relembrar um pouco a história falando de três mitos disseminados pelo gospel nacional:
1) O gospel trouxe inovação musical para a igreja: à parte a história bem antiga da renovação musical que vem desde antes da Reforma Protestante no século 16, algumas inovações formais que são atribuídas ao gospel, como
a introdução de música popular brasileira e instrumentos musicais como guitarra
e bateria, já eram praticadas em gravações evangélicas desde a década de 1970. Bem antes dos CDs, o repertório ainda era gravado em LPs e se constituía primordialmente de hinos arranjados ao
estilo da música clássica.
Mas alguns cantores, como Feliciano Amaral e Luiz de
Carvalho, reproduziam também um estilo seresteiro. Além disso, gêneros musicais
nacionais, como o sertanejo, recebiam letra religiosa em várias igrejas
pentecostais desde os anos 1950. Aliás, Luiz de Carvalho, no LP Obra Santa,
gravado em meados dos anos 60, inseriu valsa, bolero e o “maldito” violão. E nem
todo mundo ouviu satisfeito!
Até os anos 1970, as produções musicais não contavam com
bateria e guitarra. A preferência era para órgão, piano, harpa e até sanfona. A
partir dessa época, começou-se a ouvir canções religiosas em ritmo de guarânia,
bolero, rock, blues e baião. Cantores como Josué Barbosa Lira, Nicoletti, Jorge
Araújo, e vários compositores e grupos alinhados com a Música Popular
Brasileira Religiosa (MPBR), inseriram instrumentos e/ou arranjos mais próximos
do caráter musical brasileiro ou da cultura pop internacional.
2) O gospel foi o primeiro movimento a atrair a juventude: o
rock gospel foi um ponto de atração jovem na metade dos anos 1980. Mas as
faixas etárias juvenis eram o alvo preferencial de grupos musicais e
evangelísticos nos anos 1960 e 1970, seja por meio de corinhos importados com
versão em português ou por meio da introdução de estilos da cena musical pop
globalizada. Muito embora essa juventude tenha dado menor atenção à música cristã
baseada em gêneros nacionais, talvez pela associação pouco litúrgica desses
estilos, talvez pela predileção por celebridades do pop que cantassem em inglês,
talvez pelo descaso em relação à cultura brasileira. De toda forma, o gospel
não é o pioneiro em evangelismo musical jovem.

O cantor Álvaro Tito, que tocava percussão nos seus discos
influenciados pela black music, lançou LPs pela PolyGram nos anos 80. Aristeu Pires
Junior teve um LP produzido pela BMG Ariola. A banda Rebanhão lançou discos
pela PolyGram e pela Continental. Em suma, bem antes da Sony e da Som Livre
produzirem ou distribuírem CDs e DVDs de música gospel, outras grandes e
pequenas gravadoras seculares estavam de olho nos cantores evangélicos.
É verdade que o movimento gospel costuma ser alvo de críticas negativas que precisam ser
analisadas de forma mais imparcial. Em todo caso, alguns defensores mais entusiasmados
esquecem do passado de inovações e tensões vividos pelos músicos e equivocadamente
atribuem ao gospel o papel de autor do gênesis da música cristã.
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