10 setembro, 2012

o jornalismo esportivo de risos e lágrimas


Foi na década de 1970 que a TV Globo apresentou seu formato campeão de audiência no horário nobre. Um telejornal ensanduichado entre duas novelas. Primeiro, uma novelinha leve e bem-humorada, depois um telejornal de cara séria e, em seguida, um novelão dramático. Das sete às dez da noite, o espectador começava rindo e terminava chorando.

Atualmente, o jornalismo esportivo da TV Globo reproduz o modelo cômico-dramático das novelas. Thiago Leifert, no Globo Esporte, e Tadeu Schmidt, no Fantástico, não perdem nem a audiência nem a piada. O repórter Régis Rösing tem dado preferência a emocionantes e inspiradoras histórias.

Tudo bem que o Globo Esporte sempre foi leve e omisso e que a exibição dos Gols do Fantástico sempre esteve acompanhada de bom humor. Contudo, os gracejos de Thiago Leifert têm alvo fácil (talvez outros alvos sejam censurados pela produção). Ele guarda suas tiradas para atletas sem beleza física ou para a intimidade de celebridades do esporte. Mas não sobra uma farpa para os desmandos dos cartolas do futebol, por exemplo. Só tem piada para gols inacreditavelmente perdidos e quedas. Ele conseguiu o feito de tornar o Globo Esporte num programa do tipo “Os vídeos mais engraçados do mundo”.
 
Enquanto o Esporte Espetacular lançava a ridícula campanha do boneco João Sorrisão, Tadeu Schmidt apresenta a ainda mais ridícula Câmera do Beijo. No intervalo de uma partida de futebol, vários casais no meio da torcida são exibidos no telão do estádio e, ao se verem na tela, eles se beijam. Os comentários engraçadinhos ficam por conta do apresentador. Ah, sim, e também há esbarrões, tropeções e quedas.

Se esses fossem os únicos momentos de deboche e humor, vá lá. O problema é quando um programa esportivo inteiro só quer fazer cócegas no espectador.

Todos sabemos do esforço desmedido de um atleta brasileiro para conseguir chegar a uma medalha ou troféu. Louve-se a persistência desses atletas que superaram enormes barreiras. O repórter Régis Rösing  explora o drama desses atletas até que a matéria vire um novelão, com entrevistas emocionadas da família  e música de fundo. Música dramática, música triunfal. Parece uma reportagem sensacionalista do Gugu.

No entanto, nem a piada de Thiago Leifert nem a câmera indiscreta de Tadeu Schmidt nem o melodrama de Régis Rösing mostram a estrutura corrompida de clubes e federações ou investigam as razões gerenciais e esportivas que levaram o vôlei a ser uma potência olímpica e a seleção de futebol a estar fora do G-10 no ranking mundial. Copa do Mundo? Só alegria. Ricardo Teixeira? Foi embora. Por quê? Se quiser saber, leia os jornais ou veja na ESPN Brasil.

Os programas esportivos da Globo estão parecidos com a VideoCacetada do Faustão, que não é exatamente um programa jornalístico, e com a Zorra Total, que não é exatamente um bom modelo humorístico. Entre o dramalhão e a comédia, seu jornalismo esportivo está uma tragédia.

5 comentários:

Marcus Vinicius S. Oliveira disse...

Acho que TV Globo errou feio no nome que deu ao seu programa diário de esportes. A julgar-se pelo que se prioriza ali, em termos de conteúdo, o folhetim devia chamar-se "Globo Futebol"... e isso aplica-se igualmente às programações similares das demais emissoras.

Infelizmente, tenho que confessar que já fui um dos milhões de imbecis e iludidos no mundo que perdem anos preciosos de sua existência idolatrando esse esporte; e que, por "amor à camisa", acaba dando audiência e rendendo prestígio para essa corja de ladrões, corruptos e lavadores de dinheiro.

Quanto ao lamacento caso Ricardo Teixeira & FIFA, há este artigo interessante que foi publicado no blog do Estadão há algumas semanas. Vergonha total! Sem mais comentários.

http://blogs.estadao.com.br/jamil-chade/2012/07/11/para-a-fifa-somos-todos-corruptos/

Alysson Huf disse...

já pensou em enviar esse texto para o Observatório da Imprensa?

joêzer disse...

Marcus,
o jogo fabuloso de Serena Williams e Victoria Azerenka na final do US Open mal mereceu 30 segundos de atenção. Menos tempo que o stand up do Tadeu Schmidt no Fantástico.

Alysson, boa ideia. Será que eles publicam um texto crítico de um músico falando de jornalismo? Vamos tentar.

Evanildo Carvalho disse...

Na realidade a Globo faz esse 'pastelão' jornalístico para se aproximar do povão mal formado/informado. Reforçam a idéia antiga - mas ainda viva - que amantes de futebol são ignorantes e sem senso crítico.
Por muito tempo a RG leva a pecha de elitista e fazedora de tv pra ricos. Esse 'arroubo' é pra desfazer o estigma. Ainda me lembro quando o Fantástico era só jornalístico e o Globo Repórter não era uma espécie de "Aventureiro Animal"...

joêzer disse...

É, Evanildo, a Globo fechou a conta e passou a régua no jornalismo da casa.