20 setembro, 2012

Strange Fruit: a canção que o racismo não calou


As árvores do Sul dão uma fruta estranha. Folha em sangue se banha. Corpo negro balançando lento. Fruta pendendo de um galho ao vento.

Assim começa a canção Strange Fruit, gravada pela cantora Billie Holliday, em 1939. O poema rascante da canção colocava o dedo na ferida aberta do racismo nos Estados Unidos.
  
O autor de Strange Fruit era um judeu comunista de Nova York chamado Abel Meeropol (1903-1983), que usava o pseudônimo Lewis Allan para compor. Na letra da música, a “estranha fruta” eram os cadáveres de negros linchados e/ou enforcados nos ultrapreconceituosos Estados americanos sulistas, como registrado na foto abaixo, datada de 1930. (O que queria dizer o homem ao centro apontando para os corpos? E o que dizer da naturalidade dos espectadores?)

Essa canção fazia um veemente protesto contra o odioso sistema que, entre 1889 e 1940, já enforcara mais de 2.700 negros no sul dos EUA. Havia, decerto, outras canções de denúncia, mas Strange Fruit foi a primeira canção contra o racismo a alcançar relevância fora do circuito musical.

Se a letra chocava por ser um ataque frontal ao racismo institucionalizado, a música também não era facilmente assimilável. Gravada só com voz e piano, não era jazz nem folk. O autor do livro, o jornalista David Margolick, diz que a canção era “artística demais para ser música folk e politicamente explícita e polêmica demais para ser jazz”.

A canção, os cantores e o contexto histórico são fartamente desenvolvidos nas 144 páginas do recém-lançado livro Strange Fruit: Billie Holliday e a Biografia de uma Canção. Se não puder ler, ouça alguma das várias gravações dessa música disponíveis no YouTube. Seja na voz de Billie Holliday ou de Nina Simone, o impacto é doloroso e pungente.  

Letra original em inglês:
Southern trees bear strange fruit 
Blood on the leaves 
Blood at the root 
Black bodies swinging in the southern breeze 
Strange fruit hanging from the poplar trees 
Pastoral scene of the gallant south 
The bulging eyes and the twisted mouth 
The scent of magnolia sweet and fresh 
Then the sudden smell of burning flesh 
Here is a fruit for the crows to pluck 
for the rain to gather, for the wind to suck 
for the sun to rot, for the tree to drop 
Here is a strange and bitter crop

Tradução feita pelo poeta Carlos Rennó:

Árvores do Sul dão uma fruta estranha 
Folha ou raiz em sangue se banha 
Corpo negro balançando, lento 
Fruta pendendo de um galho ao vento 
Cena pastoril do Sul celebrado 
A boca torta e o olho inchado 
Cheiro de magnólia chega e passa 
De repente o odor de carne em brasa 
Eis uma fruta para que o vento sugue, 
Pra que um corvo puxe, pra que a chuva enrugue, 
Pra que o sol resseque, pra que o chão degluta, 
Eis uma estranha e amarga fruta.

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