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César e Deus numa nota de cem reais

Em São Paulo, a Procuradoria dos Direitos do Cidadão entrou com ação que propõe que não se inclua a expressão "Deus seja louvado" nas futuras notas de real a serem impressas. O argumento apela à laicidade do Estado, ou seja, que um Estado laico não deve promover esta ou aquela religião. Isso é diferente de propor a mudança do nome dos Estados de São Paulo para "Eduardo" e de Santa Catarina para "Mônica". Eu não tenho nada contra o governo retirar das cédulas essa expressão tipicamente cristã. E tenho 3 razões:

1) Os cristãos provavelmente não gostariam de ver escrito nas cédulas expressões como "Buda seja louvado" ou "Tupã seja louvado", ou qualquer uma das frases escritas na nota de real no começo desta postagem. Tem cristão que não suporta calado nem o título sincrético-religioso de uma novela, tipo "Salve Jorge", imagina carregar expressões assim na carteira!

Alguns defendem a permanência da expressão cristã nas notas de real porque isso seria parte da tradição histórica do Brasil. Quando a expressão "Deus seja louvado" foi inscrita na moeda, o Estado ainda adotava oficialmente uma religião. E isso era uma tradição histórica de vários países. Hoje, porém, a Constituição prevê um Estado laico, que respeita todas as religiões, mas não adere a nenhuma delas. Vivemos num tempo em que as pessoas exigem mais respeito a sua crença (ou descrença) do que antes. Então, seria correto exigir que César use o nome de Deus só porque a sociedade brasileira é culturalmente cristã? (eu digo culturalmente cristã, porque espiritualmente...ai de nós).

2) Ao pagar suas contas, você e o comerciante podem até dizer "Deus seja louvado". Infelizmente, não é o que a maioria diz quando vai retirar o salário. Para piorar, do sujeito que suborna o policial para não ser multado ao cidadão que dá um "jeitinho" de enganar a Receita Federal, do corrupto que desvia verbas escolares ao traficante que vende crack, todos usam cédulas que estampam um "Deus seja louvado". Chega a ser uma blasfêmia. Ou, no mínimo, uma situação bizarra.

Não é por causa de uma expressão com o nome de Deus que o dinheiro pode ser uma benção. Certamente não foi por conta dos abençoados que se começou a dizer que o dinheiro é a raiz de todos os males.

3) Ainda faz sentido que o nome de Deus esteja escrito numa cédula de real quando até as paredes da Casa da Moeda sabem que o deus desse mundo é o dinheiro? Nelson Rodrigues ironizava dizendo que "o dinheiro compra tudo, até o amor verdadeiro". Numa sociedade que caminha firmemente para a compra e venda de tudo, a expressão mais fiel aos novos tempos seria "Pagando bem que mal tem".  

Comentários

Não sei não, mas parece-me que esse povo gosta mesmo é de polemizar e criar caso à toa! Pra que levantar isso agora? Ok, o Estado é laico, não pode privilegiar religiões e etc. e tal... Sendo assim, então, não podiam ter simplesmente retirado a inscrição, sem maiores alardes? Assim fazendo, teriam evitado gerar toda essa "picuinha" desnecessária em torno da baboseira toda. Tenho certeza de que, se o tivesssem feito, 99% da população (eu, inclusive) não iria sequer perceber a mudança! E o 1% restante, mais perspicaz do que aqueles, não teria atribuído qualquer relevância política, ideológica ou religiosa ao fato. Afinal de contas, dinheiro é pra ser usado como moeda de troca, não como amuleto da sorte nem como relíquia de devoção.
Alysson Huf disse…
Olá, Joêzer

Gostei bastante do seu texto. No entanto, encontrei um outro artigo que também é muito interessante, mas que diverge do seu ponto de vista. O link segue abaixo e o autor parecer ser um apaixonado da direita com argumentação aparentemente bem sólida.

http://lucianoayan.com/2012/11/22/bule-voador-parece-que-quer-ganhar-concurso-de-mentiras-ao-falar-do-dinheiro-laico/

E aí, o que achou?

Um abraço e bom Descanso.
Alysson Huf disse…
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
joêzer disse…
Alysson, li o outro texto. Não penso que os cristãos devam marcar terreno em situações assim, como parece sugerir o texto.
Em certo trecho, o autor cita uma opinião que diz que o Estado, ao continuar inserindo a expressão em questão nas cédulas, ficaria sem moral para moderar os cristãos mais poderosos que quisessem impor sua condição religiosa a todos.
O autor refuta esse argumento. E em parte ele está certo. Mas penso também que Estados podem optar, por diversas questões, pela adoção de critérios de uma religião em detrimento das outras. Acontece em estados teocráticos e submissos a dogmas de uma religião imperativa.
vlw
Anônimo disse…
Os dois últimos argumentos foram ótimos... Parabéns!
Anônimo disse…
Como discípulo fiel de Cthulu, considero a imagem da nota de real com todos os deuses (ou não deuses) ofensiva... Onde está a expressão "Cthulhu Fhtagn!"?!?!?!?

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