19 junho, 2013

o curioso caso do protestante que não protestava


Dois homens um dia tomaram a mais louca das lúcidas decisões: contrariar as autoridades em assuntos em que elas estão erradas.

Ambos sabiam dos riscos de enfrentar governantes, polícia, oposição e tentativas de assassinato. Mas eles pareciam dispostos a não recuar um centímetro do front onde tinham firmado sua consciência.

Acontece que esses dois homens eram religiosos e tinham sido ensinados a respeitar a autoridade civil ou religiosa. Mas não podiam calar-se diante quando as autoridades não eram fiéis a princípios civis ou religiosos.

Homens de palavra e da Palavra, eles saíram a falar nas ruas e nas igrejas, para jovens e velhos, para homens e mulheres. Denunciaram os pecados da instituição e da sociedade. Não viveram o suficiente para ver a consolidação de suas teses e a realização de seus sonhos. Um, branco, era chamado de Martinho Lutero. O outro, negro, era Martin Luther. O que é a mesma coisa e que na linguagem de hoje quer dizer “homens que protestam”.

O protesto de Lutero deu origem aos protestantes que reformaram o cristianismo. O protesto de Luther King faria os protestantes repensarem sua vida cristã. Um protestou contra as mazelas e deturpações que envergonhavam a Igreja. Outro protestou contra o racismo que manchava uma sociedade que se dizia cristã.

Se ambos tivessem se calado, não haveria protestantismo nem conquistas de direitos dos afro-americanos. Se vivos estivessem, achariam muito curioso o silêncio dos protestantes contemporâneos.

Se vissem as passeatas dos evangélicos, eles se perguntariam por que hoje eles só se manifestam publicamente quando o assunto tem a ver com sexualidade. Será que Freud explica?

O provérbio bíblico (29:2) já notava que “quando os maus dominam, o povo reclama” e que “quando o governo cobra impostos demais, a nação acaba na desgraça” (29:4).

Cada um vê os acontecimentos e toma sua decisão de se engajar em atos ou ideias conforme sua personalidade, opinião e previdência. Mas estou certo de que todo protesto social é, no fundo, um protesto de ordem moral, pois se protesta contra a desgraça social causada pela imoralidade de uma minoria dominante que vandaliza a vida e o futuro de uma maioria.

Ver uma multidão indignada em plena Copa das Confederações no próprio país do futebol é como ver um gigante pela própria natureza se levantando do berço esplêndido. Nem tudo mudará, mas pode estar havendo uma mudança mais importante, a mudança de mentalidade.

Protestos sociais não são como uma flecha que atinge o alvo e permite ver o resultado imediato. Protestos como os que estão ocorrendo são pedras atiradas na água, que submergem e se vão, mas cujos efeitos se verão no prazo e no círculo das ondas criadas.

O cristão trabalha e espera  por novos céus e nova terra. Mas ele ainda não está lá e por isso ele não se conforma com esse século. Nem com os modismos banais do seu tempo nem com a mercadorização do cristianismo nem com a injustiça social de qualquer tempo.

“Abre tua boca a favor daqueles que não podem se defender, pelo direito dos desamparados”, é o conselho de uma autoridade lúcida em Provérbios 31:8.


4 comentários:

Gutto Santana disse...

Quem é o autor do texto?

PEREGRINO disse...

gostei de mais e vou divulgar...

joêzer disse...

caro Gutto Santana, o autor do texto é o próprio blogueiro: Joêzer.

Peregrino, grato pela leitura e pela divulgação.

Alex Pimentel disse...

Ótima reflexão, parabéns pelo equilíbrio.