24 junho, 2015

CD Renascido: a solidez da doutrina na voz da fluidez musical - parte 1

Quando um compositor cristão faz uma música, ele atravessa o mesmo processo que um compositor de qualquer outra crença ou descrença: escolher a letra, a rima, a palavra certa; selecionar o som, a altura, o acorde.

O que distingue a composição de um músico para outro não é o processo, mas o paradigma. Explico. Se o processo é semelhante, o paradigma de composição é diferente porque os compositores têm pelo menos dois modos de perceber o ato de compor: ou o músico se alinha às premissas musicais e poéticas mais convencionais ou ele busca os ingredientes musicais e poéticos mais inovadores. É com essa segunda percepção que o compositor, cantor e maestro Daniel Salles vê a prática musical.

No CD Renascido, ele apresenta uma paleta variada de estilos e formas musicais que contêm o germe da invenção. Paradoxalmente, o que Renascido tem de inovação poética e musical, tem também de preservação da doutrina tradicional.

Enquanto a doutrina é inflexível, pois se trata de declarar princípios teológicos que raramente são alterados, a forma de cantar a doutrina não é imutável, pois se trata de usar códigos musicais que constantemente são modificados. O material de que é feito a doutrina tem um núcleo mais rígido, sólido. O material de que consiste a música é mais fluido, dinâmico. Renascido é um trabalho de solidez doutrinária na voz da fluidez musical.

Os exemplos musicais povoam o cd inteiro. Na canção “Quando o vento do espírito soprar” (ouça aqui), a transição de acordes alterados (cheios de sextas, sétimas e nonas), associados à tradição da MPB mais sofisticada, vai embelezando a canção que faz uma inquietante pergunta aos cristãos que não veem sua igreja crescer solidamente na obediência e na missão: “Por que será, por que razão, temos tudo nas mãos, mas não há fogo no altar?”

O compositor não se refere a milagres, curandeirismos ou manifestações extáticas como suposta prova do fogo da presença do Espírito Santo. Ele constata a falta de comunhão, de devoção e de amor mútuo entre os próprios cristãos, o que afastaria um maior poder de atuação celeste na vida da igreja. Mas a música não estaciona na constatação de paralisia e mornidão da igreja e recorre a citações de trechos bíblicos (Joel 2:13; Atos 2:17: nos últimos dias, vossos filhos profetizarão...):

“Quando a comunhão for a arma principal
E a rotina dos nossos dias sair do seu normal
Descerá sobre nós o fogo do Espírito
Viveremos o evangelho
E Jesus Cristo vai voltar”

No trecho acima, o arranjo musical apresenta acordes mais simples e timbres mais pesados (guitarras), enquanto a voz do cantor está mais firme e forte, o que revela a intenção de introduzir os (auto)questionamentos de maneira musicalmente reflexiva e chegar ao posicionamento final de esperança de maneira mais afirmativa.

Outras duas canções reforçam a combinação de manutenção da doutrina tradicional com exploração musical criativa: “Imutável” e “Sábado”. Na primeira, uma melodia cheia de curvas:

“Deus não muda, e a Palavra não se anula
Não é inflexível, [...] sempre permite mudar e mudar em função de uma escolha
[...] Por ser imutável, Deus continua me mudando”

Já a canção “Sábado” dá a esse ponto doutrinário um tratamento mais ameno. Em geral, somente as canções infantis adventistas têm tonalidades de leveza quando abordam o sábado. O que Daniel Salles faz é colorir o sábado de um modo menos rígido ou severo como às vezes esse dia é interpretado mesmo por pessoas que observam o sábado como o dia de descanso semanal.

“O sábado é o dia do sim, e não do não
Sábado faz parte da minha existência
Símbolo da alegria e da salvação”

A letra mostra tanto a alegria de guardar o sábado quanto o contraste entre o sábado e os outros dias. A interpretação vocal de Daniel Salles e Dirley Menegusso estampa felicidade. E toda essa demonstração de alegria e leveza encontra correspondência na escolha do estilo musical: o samba.

Evidentemente, é uma escolha musical pouco ortodoxa. Mas o arranjo musical não soa agressivo nem borra a mensagem doutrinária. A percussão é suave, sem batida forte de bumbo ou surdo, e a melodia em nada lembra rodas de samba ou desfiles de carnaval. O estilo musical pouco usual para falar do sábado funciona como indício de alegria e leveza e símbolo de musicalidade brasileira.

Seria como se o disco perguntasse: Por que é aceitável falar da volta de Cristo com marchas militares norte-americanas e não se poderia falar de sábado com a música de caráter mais brasileiro?

Uma resposta possível está no modo de evangelização protestante no Brasil, o qual trouxe consigo uma larga cultura musical popular norte-americana e descartou as expressões de musicalidade brasileira. Mas isso é assunto para outra postagem. O que se deduz dessa canção é que a doutrina é teologicamente preservada enquanto a forma de transmiti-la é musicalmente renovada.


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