13 dezembro, 2015

a força e a música de Star Wars: a primeira trilogia

Não é sempre que a cultura pop gera histórias com tanta ressonância moral dentro de seus produtos fabricados para o entretenimento rápido e indolor. A saga Star Wars é um desses produtos de alto valor de mercado, mas também com relevantes proposições éticas. O conflito entre o Bem e o Mal perpassa toda cinematografia americana, sendo a saga criada por George Lucas uma dessas obras que reúne o entretenimento familiar, o escapismo simples e um fundo moral absoluto. Por isso, vale explorar um pouco os temas do enredo e também os temas musicais da saga Star Wars. Nesta postagem, os episódios 4, 5 e 6.

Star Wars - Episódio IV: uma nova esperança 
O primeiro filme da saga ainda exala novidade, mesmo em confronto com a qualidade dos efeitos visuais do século 21. Mas o salto tecnológico dado com este filme, lançado em 1977, não é o que impulsiona a adesão de novos fãs. É a caracterização dos personagens, todos bastante carismáticos: o jovem e impulsivo Luke Skywalker, a valente princesa Léia, o sarcástico e arrogante Han Solo, o involuntariamente cômico C-3PO, o sábio e melancólico Obi-Wan Kenobi, o vilão Darth Vader carregado de traumas pessoais.

São estes ótimos personagens (e os atores que os incorporaram tão bem) que ajudam a desviar o foco dos diálogos canhestros.

Nenhuma teoria explica porque gostamos tanto destes personagens. Talvez a interação entre eles, talvez porque eles equilibrem uma inocência com alguma arrogância juvenil. Mas ainda fico com a ideia do crítico Roger Ebert: gostamos deles não pelas suas aventuras, mas porque no fundo somos nós olhando o mundo pelos olhos deles. São personagens demasiadamente humanos, com aspirações da criança que libertamos quando vemos filmes como esse.

A música: enquanto a saga espacial de George Lucas foi buscar inspiração nas ingênuas aventuras espaciais de Flash Gordon dos anos 1930 e 40, a fantástica música de John Williams possui duas fontes: a ideia de leitmotiv oriunda de Richard Wagner, compositor alemão do século 19, e os temas musicais épicos de Erich von Korngold, músico que escreveu vários temas para filmes nos anos 1930/40.

O leitmotiv (ou motivo condutor) é um tema melódico ou uma progressão harmônica  que representa um personagem, um objeto ou uma ideia/conceito. Quando um personagem/objeto/ideia surge em cena ou é mencionado, toca-se o motivo musical relacionado. Isso será repetido nas aparições subsequentes e os temas podem ser modificados e entrelaçados conforme os conflitos de personagens e conceitos em cena.

Neste episódio da saga, John Williams estabelece o tema de abertura do filme, que será sempre tocado nas batalhas, e o tema da Força, cuja sonoridade é modificada várias vezes pelo compositor ao longo da saga. Por exemplo, note o modo reflexivo sugerido pelo tema da Força enquanto Luke olha pensativo e esperançoso no por do sol de Tatooine - nessa parte, o tema é tocado pela trompa e depois pelo naipe de cordas, sem concluir a cadência da harmonia. Veja em seguida o modo triunfal do tema na homenagem feita pela princesa Léia a Luke, Han e Chewbacca - agora tocado pelo naipe de metais, mais rápido e harmonicamente conclusivo.
Compare no vídeo abaixo. O primeiro modo a partir de 0:20 segundos e o modo triunfal e conclusivo a partir de 0:50 segundos.




Star Wars – episódio V: o império contra-ataca 
Enquanto o filme anterior lançara a pedra fundamental da saga, com todo o saldo de humor, ação e tecnologia, este episódio aprofunda o tema da escolha, com todo o débito moral que pode resultar de uma má decisão. Luke Skywalker amadurece ao confrontar seus medos e sua impulsividade. Surge ainda outro personagem extremamente carismático, o mestre Yoda, e a famosa revelação paterna que assombrou meio mundo.

A música: entram dois novos temas, o da Marcha Imperial, relacionado a Darth Vader, e o tema romântico de Han e Léia. O excepcional trabalho musical de John Williams não está tanto na composição dos temas (já explico), mas na costura que ele faz entre personagens, a ação na tela e os temas musicais. Por exemplo, na cena em que Han Solo é executado, ouvimos o tema principal da saga, mas não em tons triunfantes, em seguida a Marcha Imperial, pois Darth Vader comanda a execução, e por fim o tema romântico.

E qual o problema na composição dos temas? O problema é a semelhança de alguns desses temas com peças da música clássica. O início do tema romântico é semelhante a trechos do Concerto para Violino, de Tchaikovsky; o tema de abertura é muito semelhante ao tema de abertura do filme “Em cada coração um pecado” (1942), com música do já citado von Korngold.

Do mesmo modo, no episódio IV já havia temas de John Williams com sequências similares às de outras peças clássicas. A música tocada durante a caminhada dos robôs pelo deserto de Tatooine é idêntica à introdução de “Sacrifício”, uma seção da obra A Sagração da Primavera, de Stravinski.




Star Wars – Episódio VI: o retorno do jedi
É consenso dizer que este é o episódio mais fraco da primeira trilogia. Embora bastante divertido – é quase uma comédia –, não há o frescor do primeiro filme nem a profundidade dramática do segundo. A trama se perde entre as batalhas na lua de Endor, as batalhas espaciais contra a Estrela do Morte (de novo) e a decisão mais difícil de Luke Skywalker. Dá pra dizer que são as cenas entre Luke e seu pai, com sua combinação de batalha existencial e física, que dão grandeza à saga. Ao final, Luke não é mais um garoto impulsivo, e o seu rosto transmite o preço da missão de ser um jedi e o pesar pela perda familiar.

No mais, o ponto fraco da Estrela da Morte é um alvo fácil demais, os soldados do Império são incompetentes demais e os bonecos são ridículos demais (como disse meu filho mais novo, parecem saídos do Castelo Rá-tim-bum). E sim, a sabedoria zen-panteísta da Força é pueril e simplista. Mas ela serve ao propósito moral na luta do Bem (os Jedi) contra o Mal (o Império). Além disso, a ética Jedi está na boca dos personagens que gostamos e é ao lado deles que meninos e meninas de várias gerações têm fincado sua bandeira.


A música: os temas musicais são os mesmos e foram costurados com a técnica do leitmotiv. Mas talvez o filme padeça de um dos males de John Williams que seus fãs mais ardorosos nunca admitirão: há excesso de música. 

A repetição dos temas começa a ficar óbvia e o tratamento orquestral já não é tão interessante quando nos dois primeiros filmes. Para piorar, a celebração da vitória tem como fundo musical um arremedo de samba, com um som artificial saído de tecla “demo” daqueles teclados Casio dos anos 80 (no vídeo abaixo, a partir do minuto 1:30). Não foi o melhor final dramático nem musical da trilogia, mas a essa altura a música e a saga Star Wars já nos ganharam por sua força.



Um comentário:

A.H. de O. disse...

Sou fã do Williams, mas reconheço que ele exagera nas medidas de vez em quando. Quero ver dos outros episódios =)