16 abril, 2010

a fábula da música com mensagem subliminar

Há três tipos de pessoas quando o assunto é mensagem subliminar.

1) O que não acredita nisso de jeito nenhum; 2) O que não acredita nem em subliminar nem em bruxas, mas que las hay, las hay, e 3) O que acredita que Paul McCartney morreu nos anos 60 e quem anda por aí é um sósia perfeito (e também baixista e canhoto).

Esse último espécime humano tem sido capaz de desmoralizar qualquer pesquisa séria em torno das tais mensagens subliminares. Ele distorce fatos, usa o YouTube como nota de rodapé de palestra, encontra agulha no palheiro e coa mosquito enquanto deixa passar camelos.

As mensagens subliminares estariam em quase todo canto, dizem. Mas hoje só vou falar dos casos que envolvem música. Então, adiante, que o assunto é longo, mas um blog não tem o direito de sê-lo.

Depois da lenda urbana que se comprovou ser a mensagem subliminar das músicas tocadas ao contrário, logo surgiu outro tipo de mensagem subliminar: a inversão da letra escrita da música.

Dois exemplos da surpreendente criatividade humana:

1- A canção “Seguindo num trem azul”, do grupo Roupa Nova, embalou coraçõezinhos apaixonados nos anos 80. Pois os exagerados da mensagem subliminar conseguiram piorar a letra da canção. No refrão que começa com “Só me dará prazer”, alguém inacreditavelmente desvendou que essa frase, se for invertida, diz “Rezar para demos” [demônios], mesmo que os autores da música tivessem pretendido dizer que o que lhes dava prazer, segundo o restante do refrão, era viajar com a pessoa amada, talvez num excêntrico trem azul.

2- O sucesso da apresentadora Xuxa já foi creditado a um pacto com o demônio (vai ver ela cantava ocultamente que “rezava para demos”). Para alguns, aquelas músicas grudentas da época do Xou da Xuxa eram sopradas por entidades sobrenaturais caídas e mal-intencionadas no ouvido dos compositores compactuados. A prova? Na canção em que Xuxa dizia “marquei um x, um x, um x no seu coração”, os fanáticos da mensagem subliminar descobriam que a letra “x” pronuncia-se “xis” em português e que a escrita invertida de “xis” em português é equivalente ao “six” em inglês, sendo que “six” é o número 6. Como o x (ou 6) é repetido três vezes na música (xis, xis, xis), lhes pareceu perfeitamente lógico que o hieróglifo xuxesco na verdade ocultava o diabólico six, six, six, ou 666, o número da besta apocalíptica. E quem ficou de besta nessa história toda foi o público que achava ingenuamente que o singelo “x” era de Xuxa.

Achou complicado? Pois é. A ignorância pode se disfarçar de difícil. Sigamos:

A descoberta abalou o meio infantil e foi um quebra-quebra generalizado de discos no meio evangélico mais apressado e temente a palestrantes sensacionalistas. Todavia, para aqueles que não contavam com a astúcia deste blogueiro aqui, fui investigar a canção da besta, digo, da Xuxa, e descobri que a canção de fato apresenta um teor religioso, mas nada apocalíptico. Como um perito em hieróglifos musicais tão competente quanto os roteiristas da série C.S.I., apresento-lhes o outro lado da realidade:

Quando a música diz “marquei um xis, um xis, um xis no teu coração”, a interpretação está correta – o xis é o six/6 -, mas a metodologia (uia!) está equivocada. Veja que no trecho está grafado “um xis/six”. Ou seja, 1 e 6. Como a repetição ocorre três vezes, então o resultado seria 161616. Utilizando a regra matemática notanapautiana de equações musicais, somamos 1+6 três vezes (1+6=7, 1+6=7, 1+6=7), obtendo o resultado inegável de 777. Sendo que se considera que 7 é o número de Deus, então, pasmem, Xuxa estaria engrandecendo o Senhor pelas vias tortas da música ruim!

Não é fácil fazer malabarismos com os fatos e torcê-los para que caibam direitinho nos nossos argumentos?

Moral máxima: cuide para que ninguém lhe engane com quaisquer numerologia e equações que são contorcionismos de interpretação e não significam nada ; cuide para que ninguém lhe convença de que toda interpretação de números é falsa e que os números não podem, por meio de uma interpretação coerente, representar algo profético ou transcendente.

Moral mínima: os exagerados da mensagem subliminar ou compensam a falta de pesquisa com a criatividade ou faturam sua necessidade de autopromoção em cima da boa-fé alheia.


14 comentários:

Loren disse...

Muito bons senso e humor, como sempre :)

Obrigada pela postagem.

joêzer disse...

loren,
essas coisas é melhor a gente não levar a sério demais, não é mesmo?

Sara Rios disse...

ontem estava conversando com minha prima sobre isso...e meu questionamento tb é esse..até onde essa idéia de msg subliminar faz sentido??? muita gente é ludibriada por essas histórias...só pedindo misericórdia a Deus msm!

Parabéns pelo blog! Deus te abençoe!

Prof. Kelly disse...

Muito bom!! Na infância eu tinha muito medo disso!! E até hoje ouço as crianças contarem que nos desenhos da Disney, em tal cena, se você der um close, ficar de cabeça pra baixo, é possível ver um chifre na cabeça de um personagem!!!
A lenda continua...

joêzer disse...

kellinha,
sobre a Disney voltarei um outro dia. tem umas coisas "estranhas" ali que são propositais, mas não é msg subliminar.

sara,
muita gente é ludibriada mesmo. a pessoa que acredita ainda tem a desculpa da boa-fé. o problema é o primeiro cara que prepara uma palestra dizendo que tudo aquilo é verdade nada mais que a verdade.

armaduraadventista disse...

O Ângelo Meirelles me disse uma fr4ase, certa vez, e em outro contexto, mas a máxima vale aqui, também...
"Isso é sério! Mas nem tanto, gente!!!

Mensagem subliminar não é enterro de anão, mas se todo mundo descobrir, não é mais subliminar!!!!

Valeu Joêzer!

Victor Meira disse...

Haha, ótimo!

Anônimo disse...

Achei interessante a sua desmistificação com relação a essa coisa de mensagens subliminares, é bom argumentos contrários a tanta coisa que não existe, mas é preciso prestar atenção como por exemplo o "x", porque quem marca marca alguma coisa em algum lugar, portanto o "um" da musiquinha é artigo e não numeral, e, continuamos com xis, xis e xis. Mas,sou também do tipo que vê coisas boas nas coisas ruins. Continue assim, gostei de você.

Marcos Araujo disse...

Se somarmos 7+7+7 dá 21, e como 2+1 é igual a 3, percebemos aí, de forma subliminar, a machista santíssima trindade.

Marcus Vinicius S. Oliveira disse...

Que artigo fantástico este! Por favor, permita-me republicá-lo em meu blog.

Grande abraço,

Marcus

joêzer disse...

esteja à vontade para compartilhar, my friend.

Luiz Fernando Santos disse...

Exelente artigo.

Luiz Fernando Santos disse...

Exelente artigo.

Anônimo disse...

Puura verdade!