
Ninguém dormiu católico em 31 de outubro e acordou
protestante no dia 1º de novembro, mas é certo que os ventos religiosos logo se
tornaram uma tempestade política, social e cultural que estremeceu a Europa e,
gradualmente, as reformas do século 16 foram se estendendo pelos séculos
seguintes abalando as estruturas de uma velha sociedade e construindo a partir
de suas entranhas um novo modo de ver as relações entre Igreja e Estado, o
acesso ao saber científico, a educação massiva da população, a excelência profissional,
a autonomia do indivíduo, a defesa da liberdade de consciência.
Evangélicos contemporâneos nem imaginam que a existência de
sua igreja se deve às cisões teológicas do século 16 e vão gastar seu tempo no
ridículo combate ao dia das bruxas. Eles seriam mais úteis se protestassem
contra os lobos que comercializam a fé, a benção e a prosperidade. Seriam estas
algumas das "indulgências" modernas que motivariam um moderno Lutero
a reformar as igrejas evangélicas neopentecostais? Provavelmente, sim. E com
sua verve irônica e às vezes ferina talvez ele dissesse que o Templo de Salomão
fosse um covil antievangélico e pseudopentecostal.
Por outro lado, alguns reformadores de 500 anos atrás também
teriam uma palavra de DESconforto para os evangélicos protestantes que vão
agregando tradições e ideologias até descaracterizar o princípio do Sola
Scriptura. Palavras fortes seriam dirigidas contra a soberba exclusivista e a corrupção do espírito das igrejas que criaram uma geração de antievangélicos e pseudoreformados. Lutero, Calvino, Tyndale, Knox, Farel, Simons, Zwinglio,
reformadores cautelosos ou radicais, ficariam horrorizados com o declínio da fé
na Europa e com o comércio político da fé nas três Américas.
Num mundo em permanente mutação e alta rotatividade de
paradigmas, vale a pena conservar alguns princípios de conduta e mentalidade
consolidados no processo da Reforma que se celebra. Não para manter o status
quo, reproduzir hierarquias engessadas ou congelar os avanços sociais, mas para
estar aberto às descobertas do saber sem negociar ditames da consciência e para
atuar hoje na reforma do mundo que se tem sem perder de vista os outros que
vivem neste mundo e o novo mundo que se espera.
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