a malandragem de por a culpa na raça


Essa foto antiga de um elegante ancião negro é provavelmente a última fotografia em vida do maior dos escritores brasileiros: Machado de Assis. Na época, ele era o presidente da recém-fundada Academia Brasileira de Letras e havia publicado algumas obras-primas. Mas... para algumas pessoas, a grandeza literária e a dedicação ao trabalho não caracterizam a etnia de Machado. Para elas, deve ter havido malandragem no caminho...
Se a fala recente do general Hamilton Mourão distinguindo a malandragem como um componente típico dos africanos, e por tabela, dos afro-brasileiros, lhe parece reacionária e coisa de um passado vergonhoso, lembre que esse pensamento ainda representa muita gente.
Essas atitudes que reduzem etnias a uma categoria cultural negativa estão fortemente enraizadas no nosso tal “Brasil cordial”. Veja o que escreveram o crítico literário José Veríssimo e o embaixador Joaquim Nabuco sobre Machado de Assis quando o escritor faleceu em 29 de dezembro de 1908.
Veríssimo, no Jornal do Commercio: “Mulato, foi de fato um grego da melhor época, pelo seu profundo senso de beleza, pela harmonia de sua vida”.
Nabuco, em carta-resposta: “Eu não teria chamado o Machado de mulato (...). O Machado para mim era um branco, e (...) quando houvesse sangue estranho, isso em nada afetava a sua perfeita caracterização caucásica. Eu pelo menos só vi nele o grego”.
Foi preciso buscar no distante ideal grego um modelo para encaixar o grande romancista, contista, cronista e jornalista que foi Machado de Assis, e assim, negando-lhe a cor associada à “malandragem”, caracterizá-lo como “negro de alma grega” ou somente como “branco”.

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A foto anexada foi recém-descoberta pelo pesquisador Felipe P. Rissato, que a encontrou na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional da Espanha em uma matéria intitulada “Homens públicos do Brasil” publicada pela revista argentina Caras y Caretas, n. 486, de 25 de janeiro de 1908. A revista não informa a data da foto e nem o contexto. A legenda original diz: “El escritor Machado de Assis presidente de la Academia de la Lengua Brasileña”.

Comentários

Paulo Roberto disse…
Olá Joezer
Sinto falta de suas postagens.
Acompanho a anos e fico triste de vc não estar escrevendo com tanta frequência.
Espero que esteja tudo bem com vc, sua irmã (através de suas publicações acabei vendo alguma coisa dela, mas depois não vi mais) e demais familiares.
Nestes tempos malucos em que muitos pastores e outras lideranças cristãs têm demonstrado apoio a algumas pessoas que imagino que não seriam apoiadas por Cristo eu acho que tuas ponderações fazem falta.
Abração

paulorlferreira@hotmail.com
joêzer disse…
Olá Paulo. Realmente preciso reativar este blog. Muito obrigado pelo feedback e pela gentileza da leitura.
abraços

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