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NINO ROTA VAI À ÓPERA


Neste fim de semana em São Paulo acontecem as últimas apresentações de uma ópera de Nino Rota. Sim, ópera. Para quem conhece o maestro italiano apenas pelas trilhas líricas dos filmes do Fellini (La Strada, A Doce Vida e, principalmente, Amarcord) , não será nenhuma surpresa se o espectador experimentar 4 atos de puro deleite ao assistir Um Chapéu de Palha de Florença.

A ópera de Rota, absolutamente tonal e italianamente buffa, soa como um passeio campestre despreocupado, como um canto matutino de passarinho satisfeito. A história, de origem no teatro cômico francês do século XIX, ajuda, é evidente. Mas o timing de Nino Rota para a sucessão dos quadros e leveza dos personagens é algo que vem do senso cinematográfico adquirido como "trilheiro"-mor do cinema italiano antes da chegada de outro gênio, Ennio Morricone.
Como falei em passarinho, certa vez o poeta Manoel de Barros estava no deck de um barco que margeava devagar e rotineiramente um rio pantaneiro, quando avistou, solitário, o escritor Guimarães Rosa, que assistia o acompanhar vocal de uma revoada de pássaros. Ao aproximar-se do mestre mineiro, o poeta, a fim de uma prosa, mas sem as palavras para começá-la, deixou escapulir: "Passarinho encurta manhã". Começava uma boa amizade.

A ópera de Nino Rota é assim. Encurta o tempo e alarga a alma da gente.

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