Pular para o conteúdo principal

O NACIONAL E O POPULAR N'A PEDRA DO REINO


A 3ª parte da microssérie A Pedra do Reino, exibida nesta quinta-feira, mostrou com quantos paus Ariano Suassuna constrói sua idéia de nacional-popular. Vale lembrar que a ideologia do nacional-popular , que está baseada na proposta da afirmação de uma “autêntica” identidade nacional, já foi de caráter folclorista ou mais politizado.
Para Mário de Andrade, a música do folclore, e nunca a música popular de massa, era a autêntica expressão de um povo.

Para Villa-Lobos, a música erudita nacional só era autêntica se embebida de folclore (noves-fora o talento de Villa, a Paris dos anos 30 que o aplaudiu adorava um ‘exotismo índio’).

O venerável José Ramos Tinhorão deixa claro que só o batuque dos iletrados da virada do século 19 para o 20 é autêntico.

Para o CPC dos anos 60, só o baião politizado salva. Para o Cinema Novo, só o sertão e a colagem são legítimos.

E para Suassuna? Em A Pedra do Reino, dois personagens vão duelar: um, é fidalgo ibérico conservador; o outro, é tapuia-negro-comunista. O primeiro traz as marcas da empáfia do colonizador; o segundo, traz um penico para o combate. Para quê se armar de um insólito penico? Para que o fidalgo morra de morte engraçada e para que as armas da rusticidade e do costume popular vençam a tecnologia e a cultura importada. É claro que a arma escatológica sairá vencedora e humilhará o invasor europeu (leia-se o eurocentrismo e o capitalismo norte-americano).

É Quaderna que resume o espírito da obra. Sua intenção é reunir o tapuia, o negro e o português configurados no brasileiro para que o brasileiro seja um fidalgo com seu próprio e autêntico caráter ( e não um Macunaíma sem caráter algum).

Entretanto, Suassuna vai além e põe Quaderna num tribunal presidido por um juiz atormentado (Cacá Carvalho, quase irreconhecível). Ao ser inquirido sobre um fato do passado, Quaderna enfeita a verdade com a imaginação e, a partir daí, não se sabe mais o que foi e o que poderia ter sido. Graças ao desejo de escrever a maior epopéia brasileira, um Quaderna iluminado a tudo confere seu “estilo régio”, em que a imaginação toma conta da razão e a beleza do que poderia ter sido pervade o “sem-graça” do que realmente foi.

Em Suassuna, o nacional-popular-cordelista-imaginário tem mais valor que qualquer ideologia política. Quando pedem a Quaderna sua filiação política, este responde, sério e satírico: “sou um monarquista de esquerda”.
A Pedra do Reino é uma espécie de Cinema Novo em cores. O barroquismo, o close agoniado, a música, a erudição elitizada justaposta ao saber popular, o nacional, o estrangeiro, a edição rascante, a consciência política, a religiosidade sertaneja. Predicados que fizeram de Glauber Rocha o maior cineasta latino-americano e que estão recriados e reorganizados por um inspirado Luiz Fernando Carvalho, artesão da imagem, do imaginário.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

paula fernandes e os espíritos compositores

A cantora Paula Fernandes disse em um recente programa de TV que seu processo de composição é, segundo suas palavras, “altamente intuitivo, pra não dizer mediúnico”. Foi a senha para o desapontamento de alguns admiradores da cantora. 
Embora suas músicas falem de um amor casto e monogâmico, muitos fãs evangélicos já estão providenciando o tradicional "vou jogar fora no lixo" dos CDs de Paula Fernandes. Parece que a apologia do amor fiel só é bem-vinda quando dita por um conselheiro cristão.
Paula foi ao programa Show Business, de João Dória Jr., e se declarou espírita.  Falou ainda que não tem preconceito religioso, “mesmo porque Deus é um só”. Em seguida, ela disse que não compõe sozinha, que às vezes, nas letras de suas canções, ela lê “palavras que não sabe o significado”.
O que a cantora quis dizer com "palavras que não sei o significado"? Fiz uma breve varredura nas suas letras e, verificando que o nível léxico dos versos não é de nenhum poeta parnasiano, con…

um grito no escuro, três preconceitos claros

Que impressão você tem das igrejas cristãs? Sua impressão procede de estudos de casos, envolvimento pessoal ou se baseia em ideias preconcebidas e/ou inflexíveis sobre determinadas igrejas?
Em 1980, Michael e Lindy Chamberlain acampavam com a família numa região turística na Austrália. Numa noite, a mãe viu seu bebê de nove semanas ser levado por um dingo para fora da barraca. Muitas pessoas saíram para procurar o bebê, mas ninguém o encontrou.
Após um primeiro período de compaixão da comunidade pelo sofrimento do casal Chamberlain, vários boatos maliciosos começaram a circular nas ruas e na mídia. A mãe, então, foi acusada de matar a própria filha – ou numa explosão de depressão pós-parto ou num suposto ritual religioso adventista. A cobertura jornalística sensacionalista e o preconceito religioso se misturaram a motivações políticas locais e, num julgamento sem provas conclusivas que tomou proporções inéditas no país, Lindy Chamberlain foi condenada à prisão perpétua.
Em 15 de setem…

avatar e a espiritualização da natureza

O filme mais caro da história. A segunda maior bilheteria de todos os tempos. Marco tecnológico. De todos os ângulos, Avatar é um superlativo.

Mas o que tanto atraiu a atenção das pessoas?

A história? Duvido. Vejamos num resumo: um soldado semi-inválido e cansado de combates acaba indo para um mundo distante e lá ele descobre a harmonia de um povo em contato com a natureza, se apaixona por uma nativa e enfrenta preconceitos e tensão bélica. Isso faz de Avatar uma versão em 3-D de Dança com Lobos, como estão dizendo.

Para o crítico Renato Silveira, Avatar é “a vanguarda da tecnologia oposta ao lugar-comum de um modelo narrativo típico de filmes de fantasia”. Assim, todo mundo sabe de antemão que o herói ficará encantado com uma nova cultura pura, encontrará um amor puro, uma forma de vida pura em contraste com a ganância dos terráqueos e com o vilão que ele mesmo terá que enfrentar. O enredo é, digamos, puro lugar-comum.

O que não é comum é a inovação tecnológica desenvolvida para esse…