15 junho, 2007

O NACIONAL E O POPULAR N'A PEDRA DO REINO


A 3ª parte da microssérie A Pedra do Reino, exibida nesta quinta-feira, mostrou com quantos paus Ariano Suassuna constrói sua idéia de nacional-popular. Vale lembrar que a ideologia do nacional-popular , que está baseada na proposta da afirmação de uma “autêntica” identidade nacional, já foi de caráter folclorista ou mais politizado.
Para Mário de Andrade, a música do folclore, e nunca a música popular de massa, era a autêntica expressão de um povo.

Para Villa-Lobos, a música erudita nacional só era autêntica se embebida de folclore (noves-fora o talento de Villa, a Paris dos anos 30 que o aplaudiu adorava um ‘exotismo índio’).

O venerável José Ramos Tinhorão deixa claro que só o batuque dos iletrados da virada do século 19 para o 20 é autêntico.

Para o CPC dos anos 60, só o baião politizado salva. Para o Cinema Novo, só o sertão e a colagem são legítimos.

E para Suassuna? Em A Pedra do Reino, dois personagens vão duelar: um, é fidalgo ibérico conservador; o outro, é tapuia-negro-comunista. O primeiro traz as marcas da empáfia do colonizador; o segundo, traz um penico para o combate. Para quê se armar de um insólito penico? Para que o fidalgo morra de morte engraçada e para que as armas da rusticidade e do costume popular vençam a tecnologia e a cultura importada. É claro que a arma escatológica sairá vencedora e humilhará o invasor europeu (leia-se o eurocentrismo e o capitalismo norte-americano).

É Quaderna que resume o espírito da obra. Sua intenção é reunir o tapuia, o negro e o português configurados no brasileiro para que o brasileiro seja um fidalgo com seu próprio e autêntico caráter ( e não um Macunaíma sem caráter algum).

Entretanto, Suassuna vai além e põe Quaderna num tribunal presidido por um juiz atormentado (Cacá Carvalho, quase irreconhecível). Ao ser inquirido sobre um fato do passado, Quaderna enfeita a verdade com a imaginação e, a partir daí, não se sabe mais o que foi e o que poderia ter sido. Graças ao desejo de escrever a maior epopéia brasileira, um Quaderna iluminado a tudo confere seu “estilo régio”, em que a imaginação toma conta da razão e a beleza do que poderia ter sido pervade o “sem-graça” do que realmente foi.

Em Suassuna, o nacional-popular-cordelista-imaginário tem mais valor que qualquer ideologia política. Quando pedem a Quaderna sua filiação política, este responde, sério e satírico: “sou um monarquista de esquerda”.
A Pedra do Reino é uma espécie de Cinema Novo em cores. O barroquismo, o close agoniado, a música, a erudição elitizada justaposta ao saber popular, o nacional, o estrangeiro, a edição rascante, a consciência política, a religiosidade sertaneja. Predicados que fizeram de Glauber Rocha o maior cineasta latino-americano e que estão recriados e reorganizados por um inspirado Luiz Fernando Carvalho, artesão da imagem, do imaginário.

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