14 junho, 2007

A PEDRA DO REINO








Quando se diz que nos Estados Unidos as melhores histórias migraram do cinema para a televisão (vide Lost, 24 Horas, CSI, Família Soprano, Seinfeld) não se pode deixar de concordar. Ainda mais quando se assiste a falta de idéias que invade as telas mundiais em forma de franquias intermináveis: Homem-Aranha, Shrek, Piratas do Caribe, Pânico, X-Men, Missão Impossível. Todos, com maior ou menor qualidade, em sua terceira fase em busca dos nossos níqueis perdidos.

O cinema nacional, notório pela sua falta de boas histórias, ou pelo menos, de histórias bem contadas, é obrigado de quando em vez a dar a mão ao palmtop dos diretores e roteiristas da TV. É só lembrar que Eu, Tu, Eles, Cidade de Deus, Lavoura Arcaica, Lisbela e o Prisioneiro, Dois Filhos de Francisco e O Homem que Copiava estão entre as melhores histórias contadas nos últimos anos. Ok, não precisa me lembrar que Olga, Se eu fosse você, Redentor, Muito gelo e dois dedos d'água e outras mediocridades também foram produzidas por gente que trabalha na Globo (ou nos seus comerciais).

Não raro as produções feitas especialmente para TV também acertam. Foi o caso de O auto da compadecida, de Hoje é dia de Maria e, desta vez, da maravilha que é A Pedra do Reino.

Luiz Fernando Carvalho transpõe a linguagem "armorial" de Ariano Suassuna para a telinha (ou telona de 42', se for seu caso). Um Brasil encantado salta aos nossos olhos. Pululam referências à arte do cordel, ao imaginário ibérico, ao universo sertanejo. Nessa história de apuro visual corajoso, em se tratando do horário noturno televisivo, acompanhamos a trajetória de Quaderna, um personagem que sonha em instalar seu nome na perenidade literária.

É uma obra que, assim como o original de Suassuna, possui um outro tempo. E o tempo de Luiz Fernando Carvalho não se escraviza aos cortes, à edição fugaz. Antes, toma o tempo na mão. Doma o tempo. E o tempo passa em seu favor. Veloz ou com vagar.

A linguagem falada do nordestino, enfim, escapa do padrão novela das oito. Através da linguagem verbal e imagética, um outro nordeste se descortina diante de nós. Um nordeste escamoteado do Brasil. Atores, cenógrafos, figurinistas, boa parte da trupe é dessa região que, não bastasse a submissão ao coronelismo do gado superfaturado e das concessões de TV espúrias, ainda se vê retratada no domínio do estereótipo e da inferioridade cultural.

O figurino costurado pela gente de Taperoá, a cidade que serviu de locação às filmagens; a concepção visual; a voz e o gestual de Irandhir Santos (o Quaderna); a trilha sonora de Marco Antônio Guimarães, do grupo Uakti. Por isso tudo e mais algumas coisas que você mesmo vai identificar, a microssérie A Pedra do Reino é um espetáculo imperdível.

Abaixo, um link para ver uma reportagem sem a pressa do Fantástico produzida pela Globonews. Contém cenas das filmagens, entrevista com o diretor, com a gente do local, os atores, além de trechos em que Ariano Suassuna revela seus próximos projetos e conta histórias hilárias. clique em: http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM653666-7823-PEDRA+DO+REINO,00.html

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