24 junho, 2007

poemas e canções da modernidade cristã


Entre os cantores mais copiados e mais criticados dos últimos 10 anos sem dúvida está o nome de Leonardo Gonçalves. O cantor cristão, de fato, provocou uma mudança na música praticada na Igreja Adventista tão intensa quanto as canções de Williams Costa Jr. nos anos 70, o despontar do Grupo Prisma no final dos anos 80, a renovação estilística promovida por Jader Santos no quarteto Arautos do Rei e a recriação da canção coral para a juventude produzida por Lineu Soares.



Leonardo Gonçalves acabou se tornando o solista masculino mais imitado (e, diga-se, quase sempre sem a mesma vitalidade vocal) pelos jovens cantores que foram tocados pelas suas canções mais alinhadas a uma certa MPB e pelo estilo de interpretação inspiradamente black. Pelas mesmas razões, porém, o cantor viu-se criticado pela parcela mais conservadora da igreja, em especial, irmãos de fora da faixa etária considerada jovem.

O título do álbum – Poemas e Canções - parece fazer duas propostas de uma “nova” música:
1) valorização da letra da canção menos como portadora doutrinária e mais como reveladora de testemunho individual, mas comum à coletividade;
2) consolidação da canção como instrumento mais adequado que o “hino” para evangelização através do ministério da música.

Analisemos a primeira proposta: se para alguns compositores a verdade escriturística é melhor anunciada quando a letra da música extrai poeticamente passagens da Bíblia, num outro tipo de canção religiosa a experiência individual leva a letra a um abandono do rigor da rima rica e a uma adoção da linguagem popular.

Na segunda proposta, a troca do termo “hino” por “canção” não é mera substituição léxica. Isso reflete uma consciência característica não só desse século mas de toda e qualquer época: a rejeição ao passado não porque o passado é obsoleto, e sim porque a provisoriedade das posições estilísticas é algo típico das sociedades humanas. Ou seja, o que hoje vale como estilo definidor de música sacra pode não ter muito significado para uma geração posterior.

Leonardo Gonçalves e Williams Costa Jr. (de novo ele, sem perder o trem da história) buscaram neste CD a união do passado e do presente, da canção moderna e da composição antiga, da instrumentação orquestral e da banda eletrônica, do poema rico e da frase comum, da sã doutrina e do testemunho pessoal.

Destaco algumas faixas como exemplo: o refrão (“côro” também ficou obsoleto) da faixa nº 2 diz “coração, um amigo, um bandido talvez, quem te conhecerá”. Ao mesmo tempo em que se baseia na passagem do livro de Jeremias, a instrumentação é inspirada em atributos pop que não envergonhariam um Ed Motta. Aliás, os vocalises e a pronúncia americanizada de Leonardo, embora apresente influências do soul e do black gospel, parece calcada no cantor citado e também em Pedro Mariano (ambos inspirados na black music norte-americana).

Na faixa mais famosa, “Getsêmani”, o cantor exagera deliberadamente na altura vocal e na interpretação não somente numa demonstração de vigor técnico, mas também para “dizer” melhor a letra. Como se num rompante de indignação com o que os soldados e a turba fazem com Jesus, do Getsêmani ao Gólgota, o cantor não suportasse a contemplação solitária da cena de horror e gritasse desesperadamente ao homem moderno: “Vem ver os cravos nas mãos/ Seu corpo a sofrer/ naqueles momentos de dor...”.

As faixas “O amor de Deus” e “Pedras” são composições com mais de 30 anos. A primeira, sem a "temível" e polêmica bateria e com um belo arranjo de cordas; na segunda, o violão de César Marques, com suas intervenções ora harmônicas ora percussivas, é tão solista quanto o próprio cantor

A faixa-título “Poemas e Canções”, bem como a canção “Volta”, têm grande força literária ao sugerir imagens poéticas do relacionamento individual com Deus. Pode-se observar o conceito de Deus tido por um artista da palavra ("pois dEle vem a idéia, o movimento, a cor/ a rima, o som...") ou por alguém que traz das reminiscências de um passado um desejo de voltar a um Deus presente na vida desde a infância (“desde quando eu era criança/ ouvi falar de um Deus/ que abriu o Mar Vermelho/ lutava pelos Seus).

Inteligentemente, o compositor da canção “Volta”, Heber Schunemann, soube conduzir a narrativa do poder protetor de Deus sem cair na caracterização banal que tem a visão de um Deus herói, super-herói, Deus de histórias em quadrinhos. Além disso, quantas composições sacras modernas se dão ao luxo de ter um magistral arranjo (de Ariney Oliveira) para quarteto de cordas, uma formação instrumental das mais difíceis para a arte do contraponto?

Três canções encontraram grande oposição: “Coração”, pela influência pop, “Getsêmani”, pelo vocalise preponderante, e “O amor vai compreender”, uma bossa-nova com seus intervalos melódicos devedora das canções mais conhecidas de Tom Jobim.

Perguntas a considerar: como a igreja pode receber uma bossa-nova, um pop característico, um Getsêmani cantado a plenos pulmões em seus cultos? Se nem todas as canções serviriam bem à liturgia, seriam algumas apenas para audição doméstica ou no trânsito? Teriam apelo a denominações religiosas menos tradicionais, a fim de atingir outros públicos mais acomodados à cultura moderna? Creio que as respostas devem fugir do lugar-comum e procurar inserir-se num contexto contemporâneo de novas situações, como o CD de Leonardo Gonçalves pretende e alcança.

Leonardo Gonçalves e seus epígonos, porém, estão se arriscando no terreno extremo do maneirismo, quando os vocalises acabam tomando conta da música. Quando o recurso das frases estendidas ao limite se torna repetitivo, quando os vocalises estão banalizados em qualquer trecho da canção, quando a inspiração pop se torna mais importante que o conteúdo poético-melódico, entramos no território extravagante do maneirismo, somos introduzidos à música "sacra de entretenimento". Observem a reação de fã, e não de adorador, de parte do público.

Quanto à obsolescência de certas canções e estilos, é preciso lembrar que muitos hinos e canções encontraram oposição no passado. Enquanto os mais jovens parecem saber lidar melhor com a novidade, seja real ou virtual, os mais velhos perderam ou parecem esquecer que já tiveram essa característica.

A música sacra requer técnica, mas também equilíbrio. Encontrar o equilíbrio é tarefa difícil. O conceito de equilíbrio musical está diretamente vinculado ao arquivo sonoro pessoal, à cultura social e religiosa.

É preciso sempre buscar a palavra de Deus a fim de encontrar segurança nas escolhas musicais. Afinal, para render-Lhe culto ou apresentá-Lo a outros, é necessário conhecê-Lo e relacionar-se com Ele. Assim, podemos descobrir qual o caminho que Lhe agrada e as melodias do Seu apreço. O que pode ser bem surpreendente para qualquer geração.

13 comentários:

lg disse...

interessante, sua análise...

fico curioso de como você compreenderá este primeiro cd à luz do segundo (previsto ainda para julho).

abraços,
leonardo


ps.: onde você congrega?

lg disse...

esqueci de deixar meu e-mail, caso tenha interesse em contactar-me: leonardogoncal@uol.com.br.

anderson silva disse...

olá, não conhecia teu blog. e achei teu texto sobre o cd do leonardo bem diferente do que se costuma ouvir por aí.
concordo com vc sobre a questão de tratarem a música da igreja só na base do senso comum.
vivemos numa realidade bem diferente dos nossos pioneiros. e que música pode alcançar essa nova geração?

rv. disse...

fazia tempo que não via um texto tão pensado como esse e o posterior em termos de análise e conhecimento musical
me perdoe a pergunta: quem é vc?
teria interesse em entrar em contato para troca de idéias
parabéns por ambas as análises
shalom
André R. S. Gonçalves

PS: me teria interessado a sua análise do 'não preciso mais temer', mas aí já estou puxando a sardinha pra minha panela... ;)

JSM disse...

olá, andré gonçalves. O perfil que deixei no blog de fato diz pouco sobre mim. Coisas do meu web-analfabetismo.
Estou morando em são paulo (capital) atualmente desenvolvendo um projeto no mestrado em musica da UNESP. O tema desse projeto é exatamente a música cristã na modernidade - o nome "científico" do projeto é a 'canção gospel no cristianismo da pós-modernidade' (pomposo, mas são obrigações acadêmicas).

nos últimos anos fui professor da universidade federal do maranhão e fiz algumas canções e versões para o cd da minha irmã, Kelly Yara.

de fato, acabei não comentando o arranjo da música que vc mencionou. Nada proposital, mas acabei não citando também 'somente seu' e 'muro'. mas afirmo que é um cd que merece uma avaliação mais aprofundada.

obrigado pelas suas palavras. aproveito pra dizer que a cada 10 dias estarei comentando alguns trabalhos da música da IASD. O próximo será um cd da Regina Mota.

um abraço

André disse...

joezer,
acho que vc poderá achar o meu multiply interessante. os artigos postados e as análises de alguns poucos albuns deverão pelo menos servir de base uma boa troca de idéias. no entanto, até agora não avaliei nenhum CD gospel, muito menos brasileiro por um certo receio de não ser bem compreendido pelas pessoas que o produziram, mesmo que a maior parte seja positiva (não iria gastar tempo detonando um trabalho que não me agrada)
www.andregoncalves.multiply.com
shalom shabat
André

Davi Barranha disse...

olá querido irmão!!
Quero primeiramente parabenizar-te pelo teu comentário, sou tb um admirador da Arte de Deus em Leonardo Gonçalves e apesar de nossos dotes vocais serem totalmete diferentes, estou observando muito a estética contida na produção dos dois trabalhos. Agora em Julho inicio a produção de meu 1º CD, um trabalho que irá falar de Jesus, Salvação e Brasil em um estilo totalmente imfluenciado pela nossa MPB. Fico feliz por isso, até porque poucos de nossos cantores cristãos trabalham com musica brasileira. Sou compositor tb e gostaria de saber como faço pra te mandar uma canção minha para que vc analise e tb para que possamos trocar algumas figurinhas relativo à modernização da musica cristã brasileira.
Será um prazer aprender um pouco mais.
Um abraço e que Deus te abençoe sempre!!


DAVI BARRANHA

JSM disse...

amigo davi,
será um prazer poder conversar a respeito dos temas mencionados.

meu e-mail:
joezer_7@hotmail.com

Joêzer Mendonça

Andre disse...

Esse assunto é mais polêmico do que deveria a meu ver. Se a liderança da IASD se preocupasse em estudar história da música, teriam repetidas epifanias de como se relacionar com seus músicos.

O maior combustível para a polêmica é o fato de que o ministério da música continua polarizado na IASD: os pretensos "princípios" da música sacra se encontram nas mãos dos Pastores (que em sua maioria não entendem nada de música) e a técnica musical obviamente está com os músicos, que pelo estudo acadêmico ou experiências pessoais descobriram que tais princípios da música sacra são muito menos rígidos e muito mais fluidos do que as tendências adventistas exigem.

Quem sabe o diálogo aberto, sem empunhar livros vermelhos ou pretos, possa nortear o ministério de louvor da IASD que tem tanto talento pra dar.

Gostaria de continuar essas discussões no meu blog www.igrejaadventista.com. Esse blog objetiva um diálogo aberto, sem dogmas ou imposições, afinal, temos sidos acusados de ser a Igreja mais hierárquica e católica das protestantes.

É hora de mudar isso.

Abraços
André Reis
www.igrejaadventista.com

ELCINEIA disse...

Oi Joêzer. estou muito feliz em encontrar você.gostaria de entrar em contato com a Kelly e com todos aí.Sou eu, Elcineia (Neinha)pelo email; neinha_passos@hotmail.com e no orkut de mesmo endereço. Continuo em Manaus. Abraços e espero contato!

William B. Santos disse...

No passado os artistas incorporavam o seu tipo de visão a música, independente de qualquer oposição, era uma verdadeira proclamação de guerra ao inimigo e uma conclamação ao arrependimento, as crenças, valores, as verdades bíblicas eram expostas de forma dura as vezes, de duas uma, verdade pura e direta sem "alisômetro" ou heresia na certa, haviam vedadeiras pregações cantadas, os louvores eram poesias a Deus, os hinos de guerra abalavam o inferno, pessoas corriam a frente, outras se derramavam em pranto, algumas celebravam com júbilo. Hoje ouvimos uma gororóba de mesmice, louvor, adoração e vida errada, 4 acordes 1 estrofe repedida 10 vezes, um espontâneo de 5 minutos e está pronto mais um louvor. O Leonardo está entre meus 10 favoritos, mas de certa forma ele também é parcialmente escravo do sistema, o mercado dita o que ele vai cantar ou colocar em suas faixas, isso acaba amortecendo a ânsia cristã de pregar as boas novas, tornando as mensagens conservadoras, a diferença é a qualidade, que no caso do leonardo é bem superior a muitos outros cantores do gênero, todos hoje professam uma mensagem simples e comum a todos, que seja bem aceita, que se adéque aos movimentos e tendências da sociedade, imagino eu que se ele fosse colocar no CD todas suas convicções e visões muita gente ficaria chocada, estaríamos estarrecidos com tamanha ousadia, a ousadia provoca efeitos imprevisíveis, muitos poderiam não comprar o CD, digamos que a zona de conforto é o melhor lugar para quem não deseja correr riscos, após Jesus dizer "Ide e pregai" os discípulos continuaram na cidade acomodados até serem perseguidos, mas tem o outra face da moeda, onde muitas pessoas podem ser impactadas com uma mensagem poderosa, ousada e transformadora. Se alguém pergunta como alcançaremos essa geração através dos louvores? Eu repondo dizendo: "que Jesus Ama, é amor, paz, se não funcionar depois de longas investidas e orações, começa a segunda parte, masturbação é pecado, baladas não são para cristãos, drogas levam a morte, o inferno existe, sexo antes do casamento é pecado, converta-se dos teus maus caminhos antes que seja tarde e você vá para o inferno." os louvores antigos possuem a primeira parte e a segunda, já hoje temos só a primeira levando em consideração que a segunda parte é muito dura, muitos poderiam não gostar, ahh que piada... eu tenho 20 anos, nós jovens não queremos uma igreja igual ao mundo, desse modo podemos continuar lá..

Wilton disse...

iii o cara e baba-ovo do Leonardo gonçalves olha só,
Prefiro mil vezes as músicas do Jeferson Tavares que quando são cantadas na minha igreja geralmente emocioan a todos...

joêzer disse...

wilton,
você não leu o texto inteiro? se leu, não entendeu corretamente.
falei do exagero dos melismas, falei de certas músicas do cd capazes de causar controvérsia. mas também elogiei as questões técnicas e as inovações de arranjo.

e francamente, dizer "prefiro mil vezes" um cantor do que outro não fica parecendo coisa de baba-ovo, hein?