25 fevereiro, 2008

Leonardo Gonçalves: Viver e Cantar - II



O álbum “Viver e cantar” propõe que o Relacionamento com Deus (tema da 2ª parte do CD) nasce do conhecimento da História da Redenção (ouvida na 1ª parte). A segunda parte abre com a declaração Conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará.

A seguir, um vocal no estilo medieval repete a palavra “livre” enquanto um dueto canta frases como Livre dos meus preconceitos. Enquanto o dueto é cantado em terças, um outro vocal canta em quintas (um intervalo padrão do estilo gregoriano).

Uma composição de João Alexandre é que dá título ao CD. Essa canção usa o contraste entre cordas vigorosas e violão simples desde o início. Embora em certas passagens as cordas pareçam de muita pompa para a circunstância de simplicidade melódica da canção, elas dialogam com a música, inclusive citando trechos de outra canção do cd, Ele virá.

As duas músicas seguintes tratam da liberdade para se relacionar com um Deus que liberta o homem de seu pior inimigo: o próprio homem. Ambas as músicas, Livre sou e Livre, enfim, falam do desejo de Viver livre da culpa, da natureza pecaminosa, de andar com Cristo e, principalmente, e estar livre de si mesmo. Essa liberdade é a chave para se compreender o trabalho de Leonardo Gonçalves.

O segmento mais significativo da canção Livre sou ocorre quando a letra, a partir do verso Livre do sentimento de culpa, descreve a acentuada vontade do sujeito de ser livre, enfatizada por um aumento de sílabas que acabam por extrapolar a métrica tradicional. Na teoria da semiótica da canção, que estou usando parcial e pretensiosamente nesses textos, isso é resultado de um transbordamento tensivo do sujeito. O tamanho dos versos não é suficiente para conter seu transbordar do espírito.

A parte do cd intitulada Relacionamento com Deus termina com a calma Se tiveres paz (Cleverson Pedro), uma canção de cadências sem sobressaltos e que busca propiciar uma atmosfera de paz por meio da interpretação tranquila de Leonardo.


2 comentários:

André disse...

Prezado Joêzer,
ótima análise...
quanto a faixa-título quero acrescentar que o violão é tudo menos simples... ele soa simples, mas é extremamente complexo tanto na execução como na sonoridade. Ele fica um pouco escondido por uma questão de mixagem, mas se um dia vc tiver a chance de ouvir o playback desta faixa vc verá que o grau de dificuldade é hercúleo.
A tensão criada especialmente pelas cordas objetivam demonstrar a dificuldade de viver o que se canta e da contínua busca desta meta. A citação de 'Ele Virá' serve não somente como elo de ligação que existe praticamente em todos os blocos, mas também para manter fixo no horizonte do cantor como do ouvinte a mensagem fortíssima da canção 'Ele Virá'.
mais uma vez parabéns por ter critérios de avaliação tão elevados. Deus preserve isto.
shalom
André

JSM disse...

andré,
thelonius monk ou elvis costello, um deles disse que "escrever sobre música é como dançar arquitetura". veja você que músicos dessa estirpe consideram o trabalho de análise musical um caso de jugo desigual.

obrigado pela leitura e pelo incentivo