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música sacra: novas ações para um novo tempo

De quantos prêmios se precisa para fazer um gênio? De nenhum. Gigantes da arte cinematográfica como Charles Chaplin, Alfred Hitchcock e Orson Welles nunca ganharam o Oscar, considerado a premiação máxima do cinema de língua inglesa. Eles ganharam Oscars pelo conjunto da obra que, por pouco se tornaram póstumos, soaram mais como um pedido de desculpas. Eles precisaram do Oscar para cultivar sua arte e entregar produtos estéticos imperecíveis? Não.

Um prêmio como o Oscar, ou o Grammy, de música, tem a capacidade de alavancar as bilheterias de um filme ou um disco premiado. Entretanto, mesmo sabendo que grandes artistas, filmes ou canções também foram justamente galardoados, não se pode esquecer que tanto o Oscar quanto o Grammy são premiações da indústria cinematográfica e fonográfica. Os votos são secretos, a auditoria da Price-Waterhouse é insuspeita, há boas obras concorrendo, mas um prêmio do mercado tende a favorecer as produções de sucesso no mercado.

Os produtores da música evangélica contemporânea entenderam que a indústria precisa anualmente dar um afago em si mesma e, como um gato que lambe o próprio pelo, seleciona cantores, compositores e canções consideradas “as melhores do ano” na premiação chamada Troféu Talento. Deixando de lado a questão óbvia da real necessidade de uma premiação do “melhor cantor cristão”, que criaria uma “amigável” competição entre os evangélicos, há uma outra questão que pode ser levantada sem medo de errar.

A questão é: o quanto de ética cristã está presente quando uma gravadora divulga em impressos publicitários, em cartazes nas lojas do ramo e na internet que seus produtos foram premiados com o Troféu Talento?

Se já é discutível haver uma premiação do “melhor artista cristão”, o que dizer então da propaganda do artista que usa a premiação para alavancar os negócios?

Cada gravadora de cada denominação cristã acredita francamente que seu CD nas lojas não é uma luta pela sobrevivência na vitrine das religiões, mas é um pão lançado às águas para atrair novos conversos e conservar os fiéis. Em uma sentença: é uma obra evangelística.

Não há dúvida de que é preciso lançar o pão às águas da lógica do capital a fim de garantir a sobrevivência das crianças (o que é muito justo, é justíssimo) e disseminar a palavra de Deus (além de justo, necessário). Onde está o problema, então?

Não precisa ninguém ter estudado as teorias do alemão Theodor Adorno para notar que há uma confusão estabelecida entre fé e mercado que está no centro do debate sobre as estratégias de evangelismo do cristianismo contemporâneo. Adorno afirmava, na década de 1930, que a massificação da música pelo mercado transformava a música num bem de consumo, numa mercadoria transitória que atendia às modas fabricadas. Dizia, ainda, que tal mercantilização da música fazia com que a música fosse apreciada conforme a medida do seu próprio sucesso.
Os prêmios dos especialistas (os críticos) são vistos como fruto de uma visão elitista e não corresponderiam ao gosto do público. Sem desvalorizar a audição dos ouvintes, penso que o voto do público tem um aspecto demagógico e populista. Do autoritarismo da crítica passamos para a ditadura do ouvinte. Uma boa parte das pessoas legitima as músicas de maior sucesso, de maior veiculação, a música que mais toca, como a melhor. Em suma, quantidade confunde-se com qualidade.

O Troféu Talento é a confirmação desse pensamento. Uma das categorias dispostas ao voto do espectador é “O Melhor Cantor”. Entre os atributos que o ouvinte deve avaliar estão: sucesso na mídia, simpatia e número de vendas. Está no site da premiação para quem queira assustar-se pessoalmente.

Ora, quando igrejas cristãs tradicionais passam a fazer uso dos prêmios que recebem ao divulgar seus produtos com o slogan “premiado n vezes pelo Troféu Talento” está nítido e cristalino que a intenção evangelística está justificando o acordo com a lógica mais filistéia de mercado.

Se houver uma pausa para a reflexão entre uma contabilização e outra, protestantes ou pentecostais históricos (batistas, assembleianos, adventistas, presbiterianos, luteranos etc) poderão perceber o beco sem saída em que estão se metendo.

Se eles não levam esses prêmios tão a sério, então é possível que se esteja caminhando nos beirais da hipocrisia. Pois, se não consideram o premio necessário, porque divulgam depois nos seus encartes promocionais?

Se eles crêem na necessidade de compartilhar a noite da premiação como uma festa ecumênica da irmandade musical cristã, então não há porque tentar seduzir o consumidor com slogans de sucesso enfeitando seus CDs e DVDs.

Se eles acreditam que uma premiação de melhor do ano auxiliará na divulgação de sua mensagem de verdade e salvação, então o pragmatismo evangelístico venceu o debate, embrulhem suas Bíblias, fechem a conta e passem a régua. Daqui a pouco vão dizer que a tal mão invisível do mercado está ferida por cravos.
Vivemos novos tempos. Tempos que demandam novas estratégias de ação e entendimento do lugar na igreja no mundo. Se passarmos a crer que um prêmio da indústria fonográfica vai atrair novos fiéis, estaremos apenas usando das mesmas táticas pelas quais a indústria evangélica tem sido criticada. Todos anunciam que divulgam a verdade. A diferença é que alguns pensarão realmente estar fazendo o que é certo, pois julgarão que sua verdade é mais verdadeira que a verdade do cristão ao lado.

Comentários

Loren disse…
Caro Joêzer,

por falar em comércio, me parece que a Som Livre já tem dado ares de interesse nos artistas cristãos

... ou talvez na fidelidade dos crentes às Escrituras (qdo da não obstrução da lei e não condecendência coa pirataria), ou aos artistas

Shalom!
joêzer disse…
loren,
muito bem notado.
eu pergunto: não por preconceito nem por disputa, mas será que os evangélicos compram os anunciados Cds do padre fábio de mello? será que os católicos compram os anunciados cds da aline barros? quem não é nada disso realmente se interessará por esses dois cantores distribuídos pela Som Livre?
a discutir...

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