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a Paixão impopular e o triunfo do Messias

O compositor de música religiosa mais respeitado de todos os tempos é Johann Sebastian Bach. No entanto, em sua época, o próprio Bach era menos apreciado do que hoje. Sua maravilhosa A Paixão Segundo S. Mateus, considerada um Everest no Himalaia da música clássica, foi executada somente quatro vezes durante sua vida. Em nossa época secularizada, a obra de Bach é muito mais apreciada, encenada e gravada.

A música sacra de Bach foi composta para ser executada na igreja. Os fiéis que ouviram A Paixão na sexta-feira de Páscoa em 1727 (ou 1729) se dirigiram à Thomaskirche (Igreja de S. Tomé) para assistir a um culto com ótima música, e não para ver a estreia de uma obra musical de um grande compositor.

Situação bem diferente passou George Frederic Haendel. Quando seu oratório O Messias estreou em 13 de abril de 1742, certamente havia vários religiosos presentes, mas a estreia aconteceu num teatro em Dublin. Os teatros não tinham o hábito de apresentar peças sacras, mas após a oposição inicial, O Messias foi encenado 56 vezes, incluindo igrejas e teatros, e continuou sendo constantemente apresentado após a morte de Haendel.

Olhando com mais atenção, podemos entender as diferenças de recepção à obra de Bach e Haendel, dois compositores que compartilhavam da fé cristã.

A cidade: na época em que compôs A Paixão, Bach morava em Leipzig, uma cidade provinciana comparada à população 20 vezes maior de Londres. Tanto Dublin quanto Londres atraíam a nobreza europeia e a elite de pensadores do continente. A menor relevância da cidade pode ser a causa do anonimato do oratório de Bach. A Paixão só seria executada fora de Leipzig em 1829, por obra do compositor Felix Mendelssohn.

O público: o público de Bach ia à igreja por tradição, costume ou fé. O Messias teve um público pagante desde a estreia.

A montagem das peças: A Paixão exigia uma grande estrutura (aumentada conforme as revisões de Bach): dois corais, cada qual com sua orquestra, um terceiro coro de sopranos com apoio do órgão, nove solistas vocais e cinco instrumentais. O Messias requer somente um coral, quatro cantores solistas e três solistas instrumentais. Mesmo hoje, as igrejas têm mais facilidade para encenar O Messias.

Os finais das obras: O Messias se divide em três partes, cada qual concluindo com um coro. A segunda parte termina com o logo famosíssimo “Aleluia”, e Haendel optou por compor uma parte final ainda mais triunfal e estrondoso. O coro final, “Digno é o Cordeiro”, é mais longo, mais tonitruante (com instrumentos de metal e tímpanos), e conclui com a repetição exaustiva de um "Amém". Subitamente, um compasso de silêncio. Em seguida, o retorno em fortíssimo por mais três compassos, para um final grandioso. Os aplausos são inevitáveis. (Se preferir, assista a partir do minuto 2:00)




A Paixão também se encerra com um grande coro, mas o volume da música vai diminuindo, como num fade-out, com as palavras finais: “Felizes são teus olhos que se fecham por fim”. (Se preferir, assista a partir do minuto 8:00). O historiador Tim Blanning afirma que aí pode estar a diferença entre compor para uma congregação e compor para uma plateia.




A recepção pública: as reações dos religiosos da época não foram tão diversas das do público religioso moderno. A combinação de atributos associados à música popular e à ópera teria levado uma senhora a exclamar durante a audição da Paixão: “Deus nos proteja, meus filhos! É como se estivéssemos numa ópera cômica” (1), enquanto a obra de Haendel foi contra-indicada porque não passaria de melodias de ópera com letra de oratório. Mas O Messias recebeu grande aclamação desde sua estreia: "O sublime, o grandioso e o delicado, adaptados às mais elevadas, majestosas e comoventes palavras, conspiraram para extasiar e encantar coração e ouvido arrebatados” (2).

Ambas as peças usam passagens bíblicas – A Paixão emprega os capítulos 26 e 27 do evangelho de Mateus e O Messias compila trechos de Isaías, dos Salmos e outros livros. Os dois oratórios extraíram versos da Bíblia, mas a música resultou bem diferente. Um final induz à reflexão e à contrição; o outro inspira a esperança e o triunfo. 

Como conclusão a esse diálogo histórico e musical, podemos dizer que a música sacra assume formas diferentes quando o público e o local de performance se diversificam. E isso não é de hoje.

Notas: (1) The New Bach Reader, p. 327.
           (2) The Dublin Journal, abril/1742, citado em O Triunfo da Música, p. 97.

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