07 outubro, 2014

Marina e a campanha de sete pecados

Após o resultado do 1º turno das eleições 2014, Marina Silva disse estar orgulhosa de sua campanha. Mas também pode estar se perguntando “onde foi que eu errei?”. Afinal, ela chegou a estar com o ticket para o 2º turno nas mãos e, pouco a pouco, sua candidatura foi perdendo fôlego.

Quais seriam os prováveis pecados de rota e estratégia na sua campanha? Como num jogo de 7 erros, achei alguns:

7) Fator emocional: a comoção geral em torno da morte de Eduardo Campos alavancou o crescimento súbito de Marina. Com o passar do tempo, a poeira assentou e o impulso emocional arrefeceu.

6) Amizade “indevida”: em 2013, muita gente foi às ruas gritar não só contra o governo, mas contra os empresários do transporte coletivo, contra a FIFA e também contra os bancos, ocasião em que várias agências foram depredadas. Quando o eleitor descobriu que Marina Silva tinha a amizade e o financiamento de Neca Setúbal, herdeira e acionista do Banco Itaú, ele pode ter desconfiado de que a amizade seria “indevida” dentro da ideia de nova política da candidata.

5) Nova política: ao ser confrontada nos debates sobre sua ideia de nova política, a posição de Marina não ficava suficientemente clara. Luciana Genro chegou a dizer à Marina que uma nova política não era feita de conciliação de posicionamentos com a velha politica, mas que uma nova política só era possível contrariando interesses. 

4) Letargia no pragmatismo político: Marina Silva, que possui uma biografia limpa e louvável, saiu do PT por, entre outras questões, discordar de posições ambientalistas. Ela saiu do PV para formar seu próprio partido (a Rede Sustentabilidade) novamente por discordâncias políticas e ela mesma, dado o seu perfil combativo, não era exatamente a ajuda que Eduardo Campos precisava para atrair aliados, como a bancada ruralista. Como candidata à presidência, Marina demorou a aceitar o apoio de Geraldo Alckmin em São Paulo, devido a sua rejeição ao PSDB (sendo que agora parece que apoiará Aécio Neves!). Nem nova nem velha política, o que transpareceu foi uma demora na articulação da política da vida real.

3) A equipe econômica: quando Marina deu a entender que seu ministro da Fazenda poderia ser Armínio Fraga, homem-forte da economia frágil do governo FHC, a notícia, embora possa ter causado boa impressão entre os banqueiros e especuladores da Bolsa, pode ter afastado dois tipos de eleitores: os que não perderam a memória e lembram do endividamento público, da taxa de juros e do desemprego no segundo mandato de FHC; os que acharam que colocar Armínio Fraga no ministério é como por a raposa pra tomar conta do galinheiro. Ou seja, se no governo PT, os banqueiros nunca ganharam tanto, com Fraga a coisa seria ainda mais descarada (vale lembrar que Fraga é nome certo na equipe econômica de um provável governo Aécio).

2) Os quatro tuítes de Malafaia: Marina achou que devia recuar em posicionamentos progressistas relativos ao aborto e ao casamento gay. Sua mudança não se deu em negociação com as lideranças religiosas mais diversas, sendo ocasionada pela pressão dos setores mais conservadores do cristianismo no Brasil. Há muitos cristãos que não se sentem representados por Malafaia ou Marco Feliciano. E uma fatia de eleitores deixou de se sentir representada por Marina.

1) Índice de confiabilidade: apesar de acenar com um sopro de novidade política (mas não econômica, diga-se), o programa de governo de Marina não apresentou definições claras sobre temas como educação e crescimento econômico. Embora, enquanto Aécio não crescia nas pesquisas, o empresariado nacional passou a conversar com Marina, o que se viu na reta de chegada foi um reflexo do pequeno índice de confiabilidade do eleitor nacional na candidata do PSB. Essa ideia do eleitor aparentemente foi baseada nas falas públicas de Marina, sem conhecer mais a fundo a sustentabilidade de suas propostas.

Particularmente, não acho que as coisas mudariam significativamente num governo Marina (até porque, ela mesma disse que buscaria governar com os melhores do PT e do PSDB). Penso que o modelo neoliberal seria mantido na economia e que, ela, por seu histórico de lutas por causas sociais, também iria manter programas federais de diminuição da pobreza.


Lula perdeu 3 eleições consecutivas antes de ser eleito presidente em 2002. Resta a Marina o desenvolvimento da ideia de conciliar o melhor dos dois mundos, ou dos dois partidos que há 20 anos dominam a política federal. A realização de tal projeto parece estar mais no campo dos sonhos do que na arena da vida política concreta, mas quem sabe ela poderá vir com nova força e seus irrepreensíveis ideais para uma terceira campanha.

Um comentário:

André disse...

Também acho que um governo da Marina não iria resolver todos os problemas do Brasil. Mas era única alternativa que permitia sair dessa polarização tacanha em que vive o cenário político nacional (PT X PSDB). Agora, só nos resta permanecer na dinâmica atual com mais quatro anos de governo Dilma (a quantidade de votos da oposição no 1o. turno mostra que muita gente está insatisfeita) ou voltar para o estilo escancarado de neoliberalismo do PSDB, que, apesar de alguns benefícios, deixou uma série de mazelas também.