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a expansão evangélica e a retração intelectual do cristianismo

O cristianismo evangélico é um fenômeno que cresce a largos passos. Números do IBGE e da FGV dão conta de que os evangélicos já compõem 18% da população brasileira. Isso quer dizer, então, que a cultura do país está sendo impactada, certo? Errado. Por que a cultura evangélica não tem abalado as estruturas da cultura da mídia, do pensamento universitário, da cosmovisão secular humanista, do modo de fazer política? Em No place for truth , David Wells lamenta o fato de que “todo esse inchaço de crescimento evangélico não fez qualquer impacto cultural. [...] A presença de evangélicos na cultura norte-americana apenas causou uma marolinha”. No Brasil, o cristianismo evangélico avança. Há uma bancada evangélica no Congresso, músicos cristãos em programas de TV, milhares de pessoas marchando por avenidas. Tudo isso é importante e dá visibilidade ao cristianismo. Mas isso tudo nos dá credibilidade? Quanto disso tudo tem feito com que os descrentes nos vejam como uma alternativa séria ao sec...

a música do mundo melhor, mas sem paraíso

Um repórter americano embarca de volta para os EUA quando o regime sanguinário do ditador Pol Pot passa a perseguir e matar todos os opositores. Seu amigo cambojano é preso e forçado a entrar no sistema de reeducação do novo governo. Esse é o enredo do filme Os Gritos do Silêncio (1984), no qual há uma cena que comoveu meio mundo. É quando o filme quer passar a mensagem de que a insanidade bélica pode ser curada por meio da fraternidade entre as pessoas. Parece um sonho, mas se todos se unirem, o mundo poderá viver sem divisões, como se fosse realmente um. Eu também gostaria que fosse assim. E o John Lennon também. É dele a bonita canção que o filme faz tocar: “Imagine” . Só há um problema. Não com a tocante melodia da música. Não com as boas intenções do filme ou do compositor. A questão é outra e talvez tenha passado despercebida para o diretor do filme, para o responsável pela trilha sonora e para nós espectadores. A letra de Lennon almeja um mundo sem ambição, cobiça, egoísmo....

os irmãos Arrais e a introdução atualizada

As histórias bíblicas parecem não mais fazer sentido para boa parte da juventude urbana contemporânea. Essas narrativas passaram a ser entendidas somente como alegorias cujos temas (pecado, redenção) são recodificados de acordo com as situações particulares de cada indivíduo. Essa é a análise certeira do sociólogo Fredric Jameson.  Não há dúvida de que as gerações se sucedem desenvolvendo sempre uma nova sensibilidade cultural e estética. É certo, porém, que adentramos o século 21 com o aumento do número de cristãos e também de céticos quanto ao cristianismo. Razões para a juventude questionar as instituições religiosas, há de sobra e desde sempre. Mas o CD Introdução , dos jovens irmãos André e Tiago Arrais, não está interessado em questionar a igreja enquanto instituição oficial. Este é um trabalho preocupado em reafirmar valores e doutrinas e encorajar a fé em Deus. Sua linguagem musical, mais próxima do idioma rítmico-melódico contemporâneo, é o veículo utilizado para aprese...

música, mitos, verdades

Talvez já exista uma certa fadiga do público quanto a palestras que envolvem música sacra e música popular. Principalmente, se considerarmos que alguns palestrantes abusam de chavões, historinhas sensacionalistas e, o pior, uma apresentação que não distingue entre fato histórico-social e lenda urbana. Vou comentar alguns pontos abordados nessas palestras, que povoam a internet na forma acessível do mp3 e do power point. Meu interesse é expandir esses pontos um pouco além do simplismo habitual e da falta de acuidade histórica e musicológica.  1) A música religiosa e secular dos negros nos EUA do século XIX : há palestrantes que ignoram o contexto histórico do surgimento do pentecostalismo e do desenvolvimento da música afro-americana. Segundo George Marsden (Religion and American Culture) , as comunidades negras eram intensamente religiosas e intensamente seculares. Essa vida sem a divisória entre atividades seculares e espirituais era uma herança das sociedades mais antigas....

quem é o "mundo"?

"Mundo" não são pessoas. São ações e valores imorais, amorais e egoístas, são atitudes contrárias ao reino  de amor e justiça de Deus. Cristãos, dos mais simples aos mais eruditos, convivem diariamente com pessoas não-cristãs e sabem que, entre estas, existem pessoas de grande caráter e nobreza de alma.  Se perguntarem a um pastor ou a minha vó Maria  se não existem pessoas boas fora da igreja, é provável que ambos digam que pessoas boas e más existem em todo lugar. Minha vó acrescentará, com sua fé simples e sem maiores digressões metafísicas, que é bem capaz, meu filho, que existam mais pessoas realmente boas fora da igreja do que dentro (mas ela de forma alguma recomendará que alguém abandone a fé, a igreja por causa disso). Claro que tem gente que não sabe externar um pensamento mais equilibrado e acaba criando um apartheid espiritual mesmo. Lutar contra essa forma de segregação tem sido um engajamento de muito bom cristão. Quantas vezes ouvi sermões que apontavam p...

cem palavras: o "eu-ísmo"

Há 25 anos, uma equipe liderada por Robert Bellah, da Universidade da Califórnia, pesquisou as crenças e valores dominantes das classes médias norte-americanas. Os resultados da pesquisa foram analisados e publicados no influente livro Habits of the Heart (Hábitos do Coração, tradução livre). Segundo o livro, a sociedade é incrivelmente individualista em seu estilo de vida. Mesmo a religião é vista como algo não-comunitário e totalmente de cunho privado. Para os autores, uma entrevista presente no livro resume bem o que é a religião americana. Na entrevista, uma jovem de nome Sheila disse com franqueza:  "Eu acredito em Deus. Mas não sou uma fanática religiosa. Nem lembro da última vez que fui a uma igreja. A fé que me leva é o 'Sheilaísmo'. Somente a minha própria voz". (Citado em Marsden, George. Religion and American Culture , 1990, p. 257)

um demônio no piano, um anjo na bateria

               Ao olhar essas duas imagens, alguns dirão que a da esquerda está profanando um instrumento e que a outra é uma blasfêmia contra a música e a religião. Se estivesse vivendo hoje na Terra, Jesus tocaria bateria? Alguns responderão: nunca! Mas, no fundo, não sabemos a resposta. Temos certeza que Ele não poria fogo no piano da igreja e nem se vestiria com as roupas do antigo Israel. Eu tinha 18 anos e mais arrogância que técnica pra tocar piano. Eu participava de um programa jovem na igreja ali por 1989 e um quarteto ia cantar uma música animada. Vale dizer a quem não era nascido no período jurássico que “música animada de quarteto nos anos 80” não tinha nada ver com axé ou funk gospel (mas tinha gente que não gostava assim mesmo). Durante a música, eu comecei a fazer uma levada típica de bailinho movido a rock dos anos 50. De repente, um garoto de uns 10 anos de idade disparou até a frente e começou a ba...