22 agosto, 2007

PARAPAN ou Quem é deficiente mesmo?

Observando o triunfo dos atletas durante os Jogos Parapan-Americanos, se percebe o quão alto e nobre pode o homem chegar a ser. No ParaPan não há derrotados. São todos vitoriosos por nadar contra a correnteza social, correr atrás da normalidade perdida, saltar os obstáculos do preconceito e voar, sim, voar para além de uma sociedade orientada para a beleza exterior e a aparência física “perfeita”.

Os atletas do ParaPan são como a estátua grega Vitória de Samotrácia (foto). Essa estátua simbolizava as conquistas helênicas na guerra, mas foi encontrada sem algumas partes do corpo. Isso, porém, em nada diminuiu seu valor. A estátua, também chamada Niké (vitória, em grego), tem a incompletude formal derivada da ação da natureza, mas possui dignidade altaneira e beleza majestática.

Os atletas do ParaPan perderam o controle de partes do corpo ou não têm mesmo a totalidade de braços e pernas. Entretanto, até a chegada em último lugar exala vitória irrestrita. Veja-se o exemplo de Kathryn Sullivan (foto abaixo): a corredora americana não ganhou medalha, mas sua superação pessoal vale muito mais. Ou o nadador brasileiro Clodoaldo (foto, mais abaixo): suas restrições físicas não lhe impedem de bater recordes. Ou os corredores cegos que sonham com as cores do mundo e conquistam, mais que títulos, um novo modo de viver. Ou os cadeirantes, que trafegam velozmente pelas pistas, pelas quadras, afugentando a auto-piedade destrutiva, rodopiando em suas cadeiras sua plena exaltação da vida.

O que faz com que esses atletas não se atirem para fora da vida, quando a própria vida se assemelha a um portão fechado e intransponível, quando lutar contra a desventura parece correr atrás do vento? João Cabral de Mello Neto oferece uma saída em Morte e Vida Severina:

— Seu José, mestre carpina,
e em que nos faz diferença
que como frieira se alastre,
ou como rio na cheia,
se acabamos naufragados
num braço do mar miséria?
— Severino, retirante,
muita diferença faz
entre lutar com as mãos
e abandoná-las para trás,
porque ao menos esse mar
não pode adiantar-se mais.

Ao ver esses atletas bailando na adversidade com tal gosto pela vida, podemos recitar os versos de Ferreira Gullar:

Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Mesmo que o pão seja caro
E a liberdade pequena

Esses mesmos atletas valorizam cada fôlego da vida, e nada os impede de cantar que a vida é bonita, é bonita e é bonita. Ainda que sua liberdade pareça pequena perto das limitações, eles são capazes de apequenar suas restrições e aperfeiçoar o sentido de liberdade. De novo João Cabral:


E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.

Quem tem a suposta normalidade de locomoção tem, às vezes, não a deficiência, mas a deturpação mental. Desperdiça-se a vida em futilidades ou questiona-se o próprio existir. Homens e mulheres como Clodoaldo e Kathryn Sullivan não esperaram o acaso oportuno, mas criaram novas e especiais possibilidades.

“Tudo quanto te vier à mão, faze-o conforme tuas próprias forças” (A Bíblia).

3 comentários:

candy disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
candy disse...

Emocionante, Parabéns!!! :o)

joêzer disse...

gracias, candy.