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REGINA MOTA: Basta Viver o Amor

Nem sempre um intérprete é capaz de revelar seus questionamentos e angústias surgidos na expectativa das escolhas musicais para uma gravação. Ainda em menor quantidade são aqueles que desnudam suas fraquezas e falhas diante da multidão. Corajosamente, Regina Mota escreve no encarte do CD que sua intenção era representar através da música seus momentos de testemunho cristão. Ela descreve suas falhas individuais, o “lado sombrio de sua alma”, ao mesmo tempo em que fala das incertezas e certezas que se alternaram até a gravação.

A cantora adota o Salmo 33:3 – “cantem a Deus uma nova canção”, – como baluarte e linha norteadora deste trabalho. É possível que as escolhas musicais deste CD sejam fruto de uma experiência renovadora traduzida em inovação formal.

Essa inovação formal não está presente apenas nos arranjos musicais. Há um sopro do "novo" até na disposição das informações no encarte, com o requinte de grifar o título das canções no corpo dos versos. A concepção das fotos da cantora também é significativa. A presença de Regina Mota numa estação viária sinaliza a dinâmica e o movimento da vida cotidiana e como o artista cristão pode se posicionar para marcar sua mensagem.

O CD abre com a música “Se eu não tiver amor”, de Jader Santos. Apesar das inúmeras canções que utilizaram I Coríntios 13 como referência, Jader extrai uma pertinência para o mundo moderno, ligando o "o dom maior, o amor" do refrão ao bem servir. A letra poderia cair no mero assistencialismo se ficasse apenas nos milhares que não têm abrigo/ e vêm pedir um pedaço de pão. Mas o compositor aborda a questão do auxílio emocional, tão premente numa sociedade atingida pela depressão: ao meu redor eu vejo gente triste; (...) se me recuso a atender o aflito/ então não entendi que amar é bem servir.

Os vocais recebem tratamento de protagonista. O termo vem do inglês background vocal, porém, o que na tradução seria algo como “vocal de fundo”, ganha nesta música papel de protagonista. Os vocais abrem e encerram a música, além de cantarem o refrão completo.

A faixa 2, “Obrigado, bom Pai” (Rize Mateus e Regina Mota), faz Regina Mota exercitar seus agudos, o que a obriga a usar o recurso do falsete. Este recurso é empregado aqui com elegância e na medida certa. A letra da canção parte da pequenez e da angústia do salmista Davi perante o transcendente e o incompreensível: que é o homem pra que mereça favor?/ que é o homem pra que dele se lembre o Senhor?

Assim, a canção segue o modelo bíblico de oração em aspectos como:

1) reconhecimento da ausência de mérito individual;

2) exaltação da soberania divina: manteres o universo com Tua poderosa mão;

3) gratidão pela manutenção da vida e concessão de graça e dons: pela vida, pelo pão de cada dia; [por] nos dares carinho e perdão; pela chance de usarmos a voz.

4) gratidão pela revelação de Deus ao homem: por Tua palavra, luz para os nossos caminhos

5) gratidão pela esperança do retorno de Jesus: e por fim porque em breve virás nos buscar.

A música não termina pedindo bênçãos - é uma canção de gratidão. Antes, encerra-se com a humildade dos versos iniciais: somos nada, somos pó/mas o Pai nos sustém com imenso amor.

A canção “Ovelha errante” nos relembra como é límpida a voz de Anderson César, aqui em dueto com Regina. É um refrigério vocal aquela voz de tenor: uma ilha sem firulas e sem exageros maneiristas no atual oceano de emuladores de Mariah Carey e Brian McKight (Nesse ponto, é preciso reconhecer que alguns dos adeptos desse estilo o fazem com propriedade, brilhantismo e estilo pessoal, enquanto outros ainda confundem os limites entre recurso técnico e a falta de noção).

A canção “Viver para servir” (Lineu Soares/Valdecir Lima) tem um tratamento de citação ou recriação de modelos musicais que remetem ao final dos anos 70, como a bateria e o baixo pulsantes e os metais suingados à Lincoln Olivetti (afamado produtor da época). O problema está em que alguém vai dizer que essa citação tem associação em demasia com os padrões do pop daquele período. Mas não se pode esquecer do que a cantora escreve no encarte: “minha intenção não foi cantar exclusivamente para o público das igrejas ou das rádios” e “ficaria muito feliz se esta diversidade” musical alcançasse mais pessoas. Certamente, para que mais pessoas fossem sensibilizadas quanto a uma reflexão e a um conhecimento da mensagem cristã.

A música “Se com tua boca confessares” (Evaldo Vicente), faixa 10 do cd, alinha-se a novidade evangelístico-musical da proposta da cantora. O arranjo de João Alexandre se inicia num reggae mais jamaicano passando para um som que denominava-se no começo dos anos 80 de white reggae (reggae branco, algo que o grupo The Police celebrizou). O que garante distanciamento de um típico reggae é a interpretação delicada de Regina, em contraste com o ritmo marcado, além da própria linha melódica desta canção, afastando-se dessa forma do panorama gospel moderno de transplante integral de melodia, arranjo e performance.

Por último, as músicas “Casa grande” (Gladir Cabral) e “O sândalo e o poeta” (Edílson Botelho) são de grande profundidade poética. A primeira é uma belíssima analogia entre a abjeta escravidão do negro e a não menos odiosa escravidão humana do pecado (na casa grande há uma cruz numa parede), empregando aliteração (encontro, comunhão e caminhada) e metáfora (no coração de um negro há uma casa nova/(...) e nas paredes não há Cristos esquecidos) em versos belos e criativos que caminham para a declaração de fé na redenção (os nossos corpos redimidos num momento/bem mais veloz que a luz de todo pensamento).

Desde o título do CD – Basta viver o amor – passando pelas canções – o que importa é a fé em Cristo (verso da música “Nossa fé”), Regina Mota faz aqui sua profissão de fé musical na poesia e na diversidade estilística, mas não prescinde da fé e do amor como fundamento do seu testemunho cristão.


Comentários

Jayme Alves (jam58@ig.com.br) disse…
Percebi que você não comenta nenhum álbum lançado recentemente (imagino que prefira acumular muitas horas de audição antes de elaborar um comentário sobre a obra). De qualquer forma, e sem ter a pretensão de pautá-lo, gostaria de ouvir o que você tem a dizer acerca de três álbuns:

- "Estou em Paz" (2005) do Novo Tom. Nas palavras de Leonardo Gonçalves (em que pese a sua ligação afetiva com o grupo) em seu extinto site pessoal, "o melhor álbum de um grupo evangélico jamais produzido" (no Brasil, imagino). Aliás, acredito que ele possa se encaixar na idéia de álbum conceitual que você apresentou ao falar sobre "Aqui É Seu Lugar" - idéia cujo o desenvolvimento mais brilhante na MAB (música adventista brasileira) certamente foi o "Cristo, A Luz" do VP, cujas músicas todas forma compostas por Jader Santos. Como o título indica, o conceito de "paz" é discutido em diversas faixas do impressante disco do grupo universitário.

- "Juntos Pra Sempre"(2006) do Coral Unasp. Lineu Soares e Regina Mota, a mesma dupla que produziu o CD acima, reformula agora a receita de coral jovem, cozinhando ousadias saborosas (o arranjo para "Eu Não Te Negarei" é bom exemplo).

- "Viver e Cantar" (agosto de 2007) de Leonardo Gonçalves. Você que soube ler tão bem o extraordinário "Poemas e Canções", não enfrentará dificuldades ao percorrer a tortuosa e inesperada, mas (ou talvez por isso mesmo) brilhante, sintaxe do novo álbum do (opinião pessoal) mais interessante artista (no sentido de "criador", não de "celebridade") evangélico atuando no Brasil.

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