16 setembro, 2007

NOVO TOM - parte 2


Retomando o que falei sobre pragmatismo musical no 1º texto sobre o grupo Novo Tom, vejamos como o grupo lida com essa questão em suas músicas. Não entrevistei seu diretor musical ou o letrista, mas acabei identificando por minha conta e risco os sinais do pensamento evangelístico-musical do grupo nos arranjos e no repertório do CD Pode Cair o Mundo...

Focando em dois aspectos: 1) a particularidade vocal do grupo; 2) a aproximação com a linguagem musical urbano-contemporânea.

A qualidade vocal dos componentes do Novo Tom é incontestável. A base vocal feminina (Riane Junqueira, Joyce Carnassale, Lanny Soares) que acompanha o grupo desde que este se chamava Tom de Vida por certo contribui para a singularidade sonora identificável do Novo Tom. As cantoras do grupo possuem uma característica vocal sem excesso de vibratos, com timbre moderno e energia nos agudos – nada de soprano lírico corolatura, ufa, ainda bem.

As vozes masculinas me pareceram determinadas pelo estilo anasalado na dicção, com ênfase nas vogais e certa americanização nas consoantes (m, n, d, t são as letras, digamos, mais afetadas). Nas canções dramáticas, os tenores assumem um tom de vigor quase operístico, escutado na técnica da dicção, no alcance estratosférico da voz, na verve da interpretação. Isso tudo está nas canções “Estou em paz” e “Cenas”, que os solistas perfazem com rara felicidade.

O percurso musical do Novo Tom enveredou cada vez mais na aproximação dos gêneros populares urbanos. Mas, ao contrário da maioria das bandas evangélicas modernas, o Novo Tom prefere o caminho da reorganização musical à transposição estética integral. Explico: a transposição estética integral ocorre quando um gênero musical (rock, reggae, samba) é transcrito ou copiado por grupos musicais cristãos com toda semelhança de melodia, arranjo vocal e instrumental, e uso de figurinos e adereços típicos.

Isso pode ser notado em artistas gospel como o Oficina G3 ou o DJ Alpiste, cujas canções reproduzem o estilo melódico e de arranjos dos artistas seculares do rock e do hip-hop. [Mas não vai aqui nenhum julgamento do mérito de religiosidade de ninguém].

Já a reorganização musical pode ser notada quando determinado gênero musical (falo aqui dos estilos populares da mídia) perde sua característica melódica mais característica mas conserva certa semelhança rítmica. Desse modo, o arranjo musical não reproduz integralmente a influência inevitável, mas lhe dá um caráter de apropriação, como se aquele estilo ou “swing” instrumental estivesse ali para lembrar que estamos na contemporaneidade. Desde Lutero, passando por Lowell Mason e Ira Sankey, chegando até nossos dias, isso consistiu numa espécie de louvável tradição.

O grupo Novo Tom pode ser inserido nesse último grupo. As canções “Nosso Lar Não é Aqui” e “O Amor é Jesus” têm aquilo que os músicos costumam chamar de “levada” ou “pegada” pop. Contudo, a interpretação está a anos-luz da mera imitação da música secular perceptível nas canções gospel que arremedam o pop/rock, o forró, a balada romântica.

A canção “Preto no Branco”, esta sim, possui a tal “levada” pop bem destacada, tanto pela voz solista de Marlon Miranda quanto pelo arranjo instrumental. No decorrer da canção, os vocalises são cada vez mais intensos e o som vai se tornando mais semelhante ao soul permeado de funk de Pedro Mariano e Cláudio Zoli, com ecos do Stevie Wonder dos anos 70. É a faixa que certamente encontra maior resistência por uma parte dos ouvintes.

A música “O amor é Jesus” (Lineu e Valdecir) recebe um brilhante arranjo vocal altamente estilizado que reproduz o som de jazz a capella do Take 6 e do Manhattan Transfer, com suas elaborações harmônicas e imitação de instrumentos pela voz humana, como a percussão vocal de Marlon Miranda e o trompete vocal de Denis Versiani, este, o autor do arranjo.

A pergunta é: esses tipos de arranjos e canções podem induzir o ouvinte a uma perspectiva mundana? Uma resposta pode ser: depende de quem está ouvindo. Muitos ouvidos pudicos de Calvino entendem tais canções como excessivamente secularizadas e liturgicamente inadequadas. No entanto, o repertório do Novo Tom utiliza a influência secular mas distancia-se do modelo musical de memetização da estética pop adotada por muitos grupos evangélicos contemporâneos. Mas é certo que os cantores e diretores de música precisam de sabedoria para perceber qual música do CD do Novo Tom será mais adequada para cada hora, lugar e público.

9 comentários:

Danilo disse...

bInteressante, sempre admirei essa característica nas meninas (Joyce, Riane e Lanny). Quando fez referência a esse detalhe, senti uma certa harmonia de pensamentos. Infelizmente, não consigo externar isso, sem ferir os amantes cegos das "covers" de Mariah Carey.

Até com relaçao à adoção em parte, dos arranjos de um determinado gênero musical, penso da forma como expressou: "Desse modo, o arranjo musical não reproduz integralmente a influência inevitável, mas lhe dá um caráter de citação, como se aquele estilo ou “swing” instrumental estivesse ali apenas para lembrar que estamos na contemporaneidade". Muito bem colocado.

Uma análise artística é sempre agradável, se bem que precisa ser subjulgada pelo Assim diz o Senhor. Poucas pessoas entendem o significado em essência disso.

Abraço!

mara disse...

nós precisamos saber lidar com a música de hoje. e sem dúvida é preciso atenção ao que estamos trazendo para a igreja.
tem gente que reclama que nossa música está se deturpando, mas se esquecem que quando esses que reclamam eram mais jovens, tinham dificuldades parecidas com as dnossas de hoje

Danilo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
danilo disse...

Sua cosmovisão do cenário artístico-musical do NT, dentro da realidade da IASD foi bastante oportuna e bem adequada à essa análise.

Meu conhecimento de música pouco, senão nada, frente ao seu. Quero porém te perguntar o seguinte: Conhece, a fundo, todo o material já produzido pela nossa denominação?

Os conceitos fixados parecem dar uma resposta positiva.

Danilo disse...

Sua cosmovisão da expressão artístico-musical do Novo Tom e a realidade da IASD, foi bem oportuna e adequada à essa análise. Esse álbum foi o primeiro a me fazer pensar por esse lado.

Há um perigo nessa "associação", isso é indiscutível. Acredito que os produtores e executantes, levaram em consideração esses pontos, tendo um equilíbrio, digamos assim. Equilíbrio, que para os mais legalistas, seria chamado de secularização. Não dá também pra dizer até que ponto seria um equilíbrio.

Tenho costume de ouvir o que me agrada e aproxima de Deus. Isso tem muito que ver com minha cultura. Então minha seleção com relação as faixas do cd que me agradam, vai ser quase que natural. Respeito, porém, a visão dos músicos.

joêzer disse...

olá, danilo. Minha formação musical teve início na igreja adventista. Meu pai era diretor musical, tocava piano, violão e compunha para grupo. Minha mãe liderava grupos infantis, dos quais eu fiz parte como cantor e, mais tarde, aos 11, 12 anos, como pianista. E isso era nos jurássicos anos 70 e 80.

Hoje me deparo com uma lacuna de descrição e interpretação da história da música adventista. E eu gostaria de poder contribuir para preencher esse espaço.

obrigado pela leitura,
Joêzer.

joêzer mendonça disse...

caro danilo, há autores que falam de algo que chamam de "arquivo musical interiorizado". Em outras palavras, seria uma espécie de arquivo sonoro que é formado individualmente desde a infância, segundo alguns, já a partir do ventre.

Esse arquivo sonoro certamente influi nos nossos juízos de valor, mesmo porque várias músicas estão associadas com experiências vividas, como a segurança que as canções de infância nos remetem, momentos de tristeza, solidão, alegria, conforto. Para complicar ainda mais, temos ainda a cultura a qual estamos integrados.

Os adultos querem ouvir na igreja as músicas de quando se converteram, pois isto inconscientemente lhes traz segurança e conforto, além claro de poderem orientar o gosto musical dos mais jovens, num misto de paternalismo e cautela.

Os jovens têm maior desejo de independência da autoridade e menos sentido de cautela. Aí o cenário está montado para o "conflito de gerações" e a polêmica, muitas vezes sem a serenidade cristã, não é mesmo?

Até a interpretação das várias denominações cristãs (e dentro de uma mesma igreja) sobre a Bíblia produz maior ou menor aproximação com certos estilos de adoração.

algo que vale muita reflexão.
abraços

Danilo disse...

"Hoje me deparo com uma lacuna de descrição e interpretação da história da música adventista. E eu gostaria de poder contribuir para preencher esse espaço". Mas é justamente isso que vc não faz, feliz ou infelizmente.

Você permanece relativamente neutro. Apesar de aprofundar no contexto do cantor/grupo, analisando as faixas de modo plausível - tecnicamente e até espiritualmente falando - vc parece não querer dar um aval sob supervisão bíblica apurada. Ainda fica a pergunta: Conhece, a fundo, todo o material já produzido pela nossa denominação, nesse assunto? Consegue harmoniza-los com a prudução musical contemporânea?

joêzer disse...

oi, danilo,
você já leu os livros de George Knight e Michelson Borges sobre a história da igreja mundial e brasileira, respectivamente?

É nesse sentido que quero dar uma contribuição. Por isso falo em DESCRIÇÃO, que é discorrer sobre fatos, e INTERPRETAÇÃO, que só pode ser feito após a coleta de dados. Creio que com esses artigos já estou também interpretando o sentido que vem da conjunção de letra, melodia e arranjo.

Meu trabalho sobre música aqui no blog não pretende chancelar uma posição individual, que geralmente é construída a partir de tudo aquilo que falei no comentário anterior. Lembremos que há cds produzidos por colégios e gravadoras da instituição adventista e estes sim recebem a chancela dos líderes. será este um trabalho abandonado pela guia divina? Será que as inovações de outras áreas do evangelismo também estão equivocadas? Algo a se pensar, porque de fato pode-se estar legitimando algumas coisas que parecem não representar boa parte dos membros. Ou será que esses membros é que estão equivocados (nem tanto) com suas interpretações?

Como você viu, não é fácil. E este trabalho é o início de algo que pretendo expandir e que ainda vai encontrar seu melhor meio de expressão, principalmente com reflexões tão válidas como a sua.

Meu e-mail é joezer_7@hotmail.com