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ELVIS E O GOSPEL: Elvis além da pélvis


No ano em que a morte de Elvis Presley completa 30 anos, fãs e crítica relembram as principais marcas que Elvis teria deixado na música e na cultura do século XX. Mas eu gostaria de lembrar aqui uma faceta do “rei do rock” bem menos conhecida que seus filmes em Acapulco, suas canções românticas ou a proibição de filmar os seus rebolantes quadris no programa de TV de Ed Sullivan no início da carreira. Aliás, os requebros da “pélvis de Elvis” foram um fator nada descartável para sua ascenção meteórica. A voz absolutamente marcante, os cabelos cuidadosamente desalinhados, o repertório quase recatado se comparado à fúria libidinal das canções de Jerry Lee Lewis e Little Richards, quase tudo seguia uma construção publicitária perfeita comandada pelo “Coronel” Tom Parker, como apelidavam o empresário de Elvis.

Os americanos sempre demonstraram afinidade com o gospel gravado por artistas não-religiosos. Por exemplo, nos anos 1950, Tennessee Ernie Ford gravou álbuns que estão entre os dez mais vendidos da década. Mas Elvis revelava também seu gosto pela música gospel. E talvez houvesse nisso mais do que ambição de vender para outro nicho de mercado. Para Don Cusic, autor do livro The Sound of Light: a history of gospel music, Elvis tinha ouvido muita música gospel - na igreja ou em casa com a mãe – e, ao cantar aquelas músicas, ele não cumpria só um dever espiritual, mas também revivia a infância. Talvez, diz Cusic, Elvis estivesse mostrando que era um bom garoto, temia a Deus (à sua maneira) e queria salvação.

Em 1952, quando ainda era um jovem motorista de caminhão, Elvis fez um teste vocal para entrar no quarteto Songfellows e foi reprovado. Mais tarde, Jim Hammil, um dos componentes “acusados” de dispensar Elvis Presley, deu sua versão dos fatos: “Eu não disse que ele não sabia cantar, mas sim que ele não conseguia ouvir a harmonia. Sozinho, ele se saía bem. Mas quando as outras vozes do quarteto entravam, ele se perdia e cantava as outras vozes que ouvia”. (Em geral, a formação vocal de um quarteto masculino é de º e 2º tenores, barítono e baixo).

Elvis ainda não era famoso quando encontrou o quarteto The Jordanaires no Grand Ole Opry, em 1955. O quarteto havia surgido em 1948 e só conservava um integrante da formação original, o 1º tenor Gordon Stoker. As primeiras gravações de Elvis nos estúdios da RCA têm um vocal de apoio formado, entre outros, por Stoker e Ben e Brock Speer, da Speer Family, famosa família de cantores. Mais tarde, a formação completa dos Jordanaires marcaria o som dos discos de Elvis, que passava a vender 10 milhões de discos e se tornava um ídolo teen e um ícone cultural.

Os primeiros álbuns gospel de Elvis chegariam a partir de 1957, no auge da carreira no rock, quando era inimigo dos pregadores. Primeiro, a gravação de Peace in the Valley, e depois o disco His Hand in Mine. Esse disco tinha os Jordanaires no vocal de apoio e entre as faixas estavam músicas como Swing low, sweet chariot e Mansion over the hilltop (em português, é a conhecida Mansão sobre o monte). A capa desse álbum trazia um Elvis Presley sentado ao piano num sóbrio smoking, de cabelo grande e roupas brilhantes. O figurino e o penteado, porém, não eram uma afronta ao estilo religioso. Pelo menos, não ao estilo de certos cantores e pastores evangélicos da época. James Brown, por exemplo, explicava que seu estilo inconfundível de se movimentar no palco, falar e cantar, era influência de pregadores, digamos, hiperativos.

A voz de Elvis também recebeu grande influência do gospel. Certa vez, o cantor escutava um disco de Jake Hess, um dos grandes nomes da música gospel, quando revelou a Johnny Rivers algo como “agora você sabe de onde vem o meu estilo de cantar”.

Em 1967, Elvis convidou os quartetos The Imperials e The Jordanaires e também algumas cantoras para o vocal do seu disco gospel de maior resposta positiva de público e crítica, How Great Thou Art. Além da clássica faixa-título (no Brasil é conhecida como Quão grande és Tu), já famosa na voz de George Beverly Shea, o disco trazia Where could I go but to the Lord, In the garden (No jardim) e Where no one stands alone (Minha mão em Tua mão). Nesse disco, Elvis faz um dueto com Jake Hess na música If the Lord wasn’t walking by my side, conhecida música do quarteto The Statesmen, do qual Jake Hess já tinha sido integrante.

He Touched Me é o álbum gospel de 1972 que traz a clássica Amazing grace (Graça excelsa) e a canção-título (Tocou-me), de autoria do casal Bill e Gloria Gaither.

A partir de 1969, o quarteto The Stamps passou a abrir os shows de Elvis. J. D. Sumner, membro do quarteto, conta que após os shows Elvis reunia os cantores para cantar gospel. Freqüentador da casa de Elvis, Sumner também diz que o cantor “só ouvia gospel. Ele não ouvia nem suas próprias gravações”.

No funeral de Elvis, em agosto de 77, Jake Hess e dois integrantes do quarteto The Statesmen cantaram Known only to Him, Kate Westmoreland cantou My heavenly Father watches over me, e James Blackwood e The Stamps cantaram How great Thou art. O final trágico do cantor e suas gravações ora religiosas ora seculars podem traduzir que, de algum modo, Elvis Presley não conseguiu conciliar sua vida de sucesso fabuloso com as crenças de sua juventude. Mesmo assim, para Don Cusic, a maior contribuição de Elvis ao gospel foi apresentar esse estilo ao mundo do rock.
* Os títulos em português e entre parênteses mencionados no texto foram extraídos do Hinário Adventista (Casa Publicadora Brasileira).

Comentários

DANIEL SOARES SARAIVA disse…
Grande pensador joéser, estou lendo seus textos. grande abraço parceiro.
Deise Carelli disse…
Muito interessante esse recorte, o que há de religioso no "pop". Elvis além da pélvis quem diria!
Bom de ler!
Abraço.
Maria Lourdes disse…
Concordo absolutamente, ELVIS apresentou o Gospel ao rock, mas também se tornou referência para o mundo de maneira geral. As pessoas se admiravam ¨como pode um cantor de rock cantar gospel com tanto coração? Elvis é acima de tudo intérprete. Parabéns por seu texto.

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