16 setembro, 2007

NOVO TOM - parte 1


Assim como os corais jovens dos colégios, a proposta do Novo Tom sugere, tanto quanto possível, uma aproximação da juventude por meio da linguagem musical do jovem moderno. Há críticos que desestimulam essa proposta, temendo uma demasiada associação com os estilos musicais da moda. Porém, esquecem que as igrejas costumam adotar a Bíblia na versão Linguagem de Hoje como um modo de estimular a leitura das Escrituras, mesmo com o risco de mal-entendidos que se apresentem nessa versão facilitada (em que a linguagem poética desaparece do livro dos Salmos).

Dizem que a proposta musical do Novo Tom pegou a corrente do pragmatismo musical em curso na modernidade. Ao lado do pragmatismo retórico do cristianismo atual, o grupo teria cedido ao "vale-tudo" a fim de falar do evangelho para a juventude moderna. Entretanto, esse argumento de exagerado pragmatismo é uma falácia sem tamanho, pelo menos quando se trata do grupo Novo Tom.

Uma das correntes do pragmatismo religioso pós-moderno é a apresentação de mensagens de teor ético: os direitos humanos, a defesa do ecossistema, a paz no mundo. O teólogo Leonardo Boff, por exemplo, fez um upgrade filosófico e atualizou seu discurso ético-religioso: nos anos 60 era a Teologia da Libertação, baseada na liberdade política e no programa de amparo às classes desfavorecidas; agora seu discurso é ecológico-espiritual. As intenções são inegavelmente boas e só um cínico as combateria. Mas, a presença de Deus na história dos indivíduos está um tanto ausente desses discursos. Mais recentemente, o papa Bento XVI, em sua cruzada ainda tímida em favor da guarda santificada do domingo, recomendou o primeiro dia da semana para “preocupações ecológicas”.

O grupo Novo Tom também aborda o tema da paz. Porém, não fala da paz como uma espécie de fraternidade demagógica. O título do CD já introduz sua idéia de paz: Pode Cair o Mundo, Estou em Paz. Assim, a paz não é a unificação do pensamento global, mas um sentido de segurança exterior e placidez interior, só inteiramente adquirida pela confiança em Deus. Como exemplo, metade das doze canções do CD menciona a palavra “paz” relacionando-a a ações e atributos divinos: a frase-título (na canção "Estou em paz"), o autor da eterna paz (em "Nosso lar não é aqui"), na oração encontro paz e em seu perdão encontro paz (em "Falar com Deus"), só em Teus braços encontro paz (em "Descansar"), frutos de paz Ele quer nos doar (em "Deus tudo pode"), este nome traz a paz e Príncipe da Paz (em "Cristo").

Alguém vai argumentar que as frases acima são quase obrigatórias nas canções cristãs. Contudo, há duas razões para não crer na casualidade da palavra “paz” nesse álbum do Novo Tom: 1) o letrista principal é Valdecir Lima, o que é uma certidão de propósito literário e teológico; 2) a “paz divina” é uma ideia recorrente ao longo das canções desse CD.

Além de sinalizar a paz em metade de suas canções, este CD também tem uma característica: o contraste súbito de intensidade entre o muito forte (fortissimo) e o muito suave (pianissimo). Num exercício de encontrar conexões entre a música ouvida e o significado que ela pode sugerir, num exercício de semiótica musical para complicar um pouco, é possível relacionar a força vocal e o impacto dos contrastes repentinos de intensidade ao símbolo comum da tormenta humana subjugada pelo poder da paz divina.

Nos anos 70, uma canção jocosa chamada “Pare o Mundo, Eu Quero Descer”, fez sucesso no Brasil. Mas a música “Estou em Paz” não pede para sair do mundo, nem por brincadeira. Certificada pela oração de Jesus (João 17:15), que pediu ao Pai que não nos tire do mundo, mas que nos livre do mal, a canção declara o “estar no mundo, mas em Deus confiar”. Seu refrão,

(...) Não temo o futuro, pois tenho Deus comigo
Pode cair o mundo, estou em paz

é cantado no final com bastante força em “(pode) cair o mundo”. Aqui, o contraste se faz de dois modos: 1) o fortissimo vocal e orquestral em “cair” é subitamente interrompido pelo pianissimo em “mundo”; 2) a parte cantada em “ca-ir o mun...” dá um salto para baixo na sílaba seguinte (“...do”), traduzindo o cair, o desabar do mundo. O verso final “estou em paz” completa a frase e encerra a música de forma serena, com um vocal em uníssono.

Esse contraste, além de ser ouvido, pode ser visualizado nas fotos do CD antes mesmo de tirá-lo do invólucro de plástico - que como todos os demais CDs do planeta, exige um conjunto de técnica e paciência para abrí-lo civilizadamente. Na capa frontal, há uma criança sentada numa escadaria com a típica placidez infantil quanto está só e entretida com um objeto. A parte de trás do CD traz a habitual ordem das músicas e também uma foto ao estilo já clássico do artista futurista Marinetti, que traduzia com traços velozes o movimento urbano. Os veículos passando velozmente no ruído caótico das cidades é o contraponto escolhido para a calma confiante de uma criança em paz.

Entendi que o Novo Tom quer afirmar que, enquanto o homem pode espalhar a paz no mundo, isto só é possível pela efetivação da paz de Deus em cada indivíduo. Sai a narrativa grandiloqüente de paz global, como se as diferenças pudessem ser resolvidas por discurso ou decreto, e entra em cena a vivência individual da comunhão com Deus como propiciadora de uma verdadeira fraternidade, refletindo os versos daquele hino, “haja paz na Terra, a começar em mim”.

As canções “Nosso Lar Não é Aqui” (também de Lineu e Valdecir) e “Cenas” (Daniel Salles) também se valem da alternância de potência e serenidade musicais. Na primeira, ouvimos um coro infantil breve em baixo volume seguido de introdução instrumental estrondosa com bateria, metais e guitarra. Essa introdução é contrastada subitamente pela leveza da voz de Joyce Carnassale acompanhada apenas de violão e alguma percussão. A singeleza do coro das crianças é retomada, contudo, escondendo os acordes sofisticados e a quebra de acentuação rítmica, o que provoca certa instabilidade proposital.

A música “Cenas”, que começa sobrepondo vozes que recitam versos bíblicos, descreve as imagens da paixão de Cristo com a característica dramaticidade evangélica. O martírio é amplificado em versos (com Seu corpo a sangrar; não podia respirar; as feridas abertas; açoites tão cruéis) que procuram comover o ouvinte. As cenas descritas detêm a força das palavras emocionalmente necessárias para o propósito espiritual da música, que alcança seu clímax com um vocal de extrema energia.


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