08 outubro, 2007

A esperança é uma bola na área aos 47' do 2º tempo


Uma das frases mais repetidas de todo o repetitivo repertório do futebol é: “o jogo só termina quando acaba”. Esse pleonasmo do mundo ludopédico serve para qualquer outro esporte, como o vôlei – lembra da derrota das meninas do Brasil para a Rússia, quando as brasileiras estavam 4 pontos à frente das russas e a um pontinho de ganhar a partida?; até a fábula da lebre e a tartaruga vive desse clichê – antes da internet ainda se contava a historinha da lebre e da tartaruga. Aliás, um amigo me contou que o filho dele de 12 anos leu minha fábula recontando a fábula de João e o pé de feijão, e perguntou com a maior cara de quem conheceu as fábulas através do Shrek: “Papai, o outro menino parece que é o Renan Calheiros, mas quem é esse ‘João do feijão’?”. Talvez nem tudo esteja perdido e isso seja apenas uma prova de que viramos arcaicos adultos.

Mas não me façam perder o fio da história que eu estava falando do jogo de quinta à noite entre River Plate e Botafogo, uma partida impressionante até para não-torcedores como eu, que tenho um antigo hábito de tirar lições de tudo. Quem tiver paciência, leia.

O Botafogo começou a partida marcando 1 x 0 e, com esse placar, só perdia a classificação se perdesse por 2 gols de diferença. Não passam nem 15 minutos e o River Plate empata. Tudo bem, podemos levar mais um gol que ainda ganhamos, pensam os atletas do time carioca. Menos de 10 minutos depois, um jogador do Botafogo é expulso. E foi nesse momento que a Lógica deixou o estádio e foi dormir, pois sabemos que é uma Lógica dormir 8 horas por noite, e se a metódica Lógica não dormir suas 8 horas, ela sai da rotina e deixa de ser Lógica.

No segundo tempo da partida, um zagueiro do River Plate é expulso e ambas as equipes ficam com dez jogadores. Don’t cry for me, torcedor argentino que, resignadamente, começa a pegar o caminho de casa. E como o que está ruim sempre pode ficar pior, o time do Botafogo, que não tem mais Didi e tem que se virar com Dodô, faz mais um gol: 2 x 1. Agora, o River só se classifica se fizer 3 gols em menos de 20 minutos.

Para aumentar a síndrome de tragédia dos argentinos, outro jogador do River é expulso. Agora, o Botafogo é que tem dez homens em campo e o River só tem nove. Os argentinos estão perdidos e o melhor que eles podem fazer é dançar um tango. Mais uma leva de torcedores abandona o estádio e os jogadores do Botafogo aproveitam pra ir embora também. Sim, porque o Botafogo virou um time de zumbis em campo, enquanto o time do River tomou uma taça homérica de brio, garra, ganas de vencer. Os argentinos fizeram um gol: 2 x 2. Ah, pensaram os botafoguenses, por que esses argentinos ainda estão a correr ensandecidos, por que eles não dizem um hasta la vista e vão embora? Mais dois gol eles não fazem, é impossível, Deus é brasileiro, lembra?

Mas o time do River está acreditando que aqueles últimos minutos do jogo são a Guerra das Malvinas e marcam seu terceiro gol: 3 x 2. Fizemos três, podemos fazer mais um? Quizás, quizás, quizás. 47 minutos do segundo tempo: uma bola desesperada atravessa imperturbável a pequena área e um jogador do River com nome de ave matadora, Falcão, cabeceia a bola para dentro do gol do Botafogo: 4 x 2. O torcedor que esperou até o apito final assistiu a uma façanha épica dos seus jogadores. Estes, dotados naquela noite de um heroísmo sobrenatural, assombraram o Botafogo e, um River Plate inflexível e incansável como as mães da Plaza de Mayo, com apenas nove jogadores leoninamente indomáveis, tomou conta do jogo, aquele mesmo jogo que só termina quando acaba.

O vídeo abaixo demonstra tanto o "quem espera, sempre alcança" quanto o “nunca conte com o ovo que a galinha ainda não botou”. O ditado depende do time em que você joga.

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