21 outubro, 2007

A morte e a morte de Che Guevara


Primeiro, a revolução era dourada e se cantava que as flores venceriam o canhão. Depois, os tempos eram rebeldes e a viola passou a abrigar o fuzil. Logo vieram os meninos barulhentos e as mocinhas que amavam um mártir barbado. E então chegaram os canalhas adultos, essa espécie de gente que, por não ter mais condições de dar maus exemplos, se põe a distribuir bons conselhos. Esses adultos 'corruptores de ídolos' aplicaram o infalível método de destruir o sonho dos mais novos: “Raspem o cabelo deles! Tosem essas barbas incompletas!”, ordenavam, como aquela rainha degoladora de Alice no País das Maravilhas.
Eram tempos em que a cabeleira crescia e não tinha partido, pois tanto Caetano quanto Roberto Carlos balouçavam suas melenas e caracóis nos festivais e bailes da vida. Porém, nem sempre o pêlo que descia da costeleta encontrava os tufos do cavanhaque que, por sua vez, nunca alcançavam a terra prometida do bigode e, assim, as costeletas ficavam ali, indecisas numa encruzilhada à meia polegada de fartar-se em barba.

Mas, antes ser barbicas do que cara limpa, afinal como que é se vai a uma barricada com esse rostinho de Sundance Kid, com essas bochechas descobertas de Chico Buarque, quando ontem mesmo morreu o camarada Che, um barbaçudo que amava os homens acima das posses e que deu a própria vida em favor dos seus semelhantes, não ninguém tem mais amor do que ele, que foi cruci-fuzilado pelos fariseus do capitalismo e no dia seguinte ressuscita como Cristo nas ruas povoadas de sonhos desmanchados pelo cassetete. Claro, não é à toa que ele, na morte, se parece tanto com o Filho do Homem.

As mocinhas, rezando em seus leitos com as mãos apoiadas nos pergaminhos do profeta Marx, não tinham pêlos para esconder os rostos em flor, mas agradeciam por não se parecer com a noviça rebelde e pediam que seus cachos de graúna crescessem em desmazelada formosura como os de Violeta Parra e que fossem compridos como suas saias e simples como suas sandálias de Maria Bonita.

A Paixão de Che, sua vida amada, sua morte em batalha e sua ressurreição em espírito e em verdade estiveram na ordem dos anos até que ele morresse de novo. O segundo golpe seria dado pelo tempo, esse insidioso manchador de reputações ilibadas, esse crápula perseguidor dos apóstolos leninistas.

Pois o tempo se encarregou de repartir a cicuta que borbulhava dos diários do mui amado Che. Dessas páginas amarelas surge um homem com as mãos sujas de sangue, um ser que amava mais a causa que as pessoas, um homem que endureceu e perdeu a ternura, um exterminador que matava de madrugada, sem esperar o dia amanhecer porque também achava que quem sabe faz a hora e não espera acontecer. Testemunhas oculares desmentem seus milagres, suas parábolas e ditos se tornam apócrifos, e a Paixão de Che, sua vida armada, sua morte glorificada e sua ressurreição em camisetas de grife estarão na ordem das manchetes por uma semana, e Che será enterrado de novo, desta vez, humanamente morto.

Os meninos e meninas que assistiram a sua primeira morte não têm mais canção, nem samba, nem violão, nem roseira, foi tudo ilusão passageira que o primeiro financiamento levou. Hoje, Bush e Bin Laden, os irmãos gêmeos da intolerância, também crêem que o sangue derramado (não o deles, claro) trará a redenção social ao planeta. Mas hoje também, o comunismo - o ópio das revoluções sangrentas, a religião com mais mártires e celebridades nos livros de História -, passa a ser exorcizado como o mal do século XX. Pior (ou melhor) para Cuba, a Graceland dos socialistas e Meca dos comunistas, onde só Fidel é deus e Che era seu profeta.

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