19 novembro, 2007

Cap. Nascimento: nascido para matar?


Fascista, apólogo da tortura, defensor do estado policialesco. De todos esses nomes o Capitão Nascimento (em foto menos badalada ao lado), personagem do filme Tropa de Elite, já foi chamado. A crítica se dividiu. Uma parte enxergou o ditador Mussolini como diretor do filme, dada a sua suposta justificação da supressão de direitos pelo Estado. Outra parte concordava com a crítica do filme ao filósofo Michel Foucault e sua classificação do aparato ideológico do Estado. Que lado está certo? Há um lado certo, pelo menos?

Os que chamaram o filme de fascista demonstram desconhecer o que é arte fascista, segundo seus opositores. Qualquer arte subvencionada pelo totalitarismo, seja fascista, nazista, maoísta, revelaria um fascínio pelo exibicionismo físico, um apelo ao nacionalismo e um culto à personalidade. Porém, esses três fatores conjugados estão muito mais reforçados em filmes como Coração Valente, 300 ou qualquer patriotada protagonizada por Chuck Norris e Sylvester Stallone nos anos 80.

Em Coração Valente, Mel Gibson faz do herói escocês uma máquina mortífera que contribui para a mitificação (e culto) de William Wallace, um homem simples que apela aos instintos de nacionalismo de seus homens para defender sua terra. Mas é fascista? Em 300, a Batalha das Termópilas vira um desfile de escola de samba com suas deturpações históricas em favor do enredo e com sua folclorização dos persas de acordo com uma mentalidade anti-oriental ou anti-árabe. Isso está mais próximo de uma arte que se poderia chamar fascista, embora a insistência em enquadrar os peitorais malhados dos soldados esteja mais para homoerotismo que para fascismo.

Comparou-se o Cap. Nascimento e sua violência com o John Rambo de Stallone. Rambo se arma na selva para capturar e executar os opositores do regime norte-americano sejam eles capitalistas ou não (no terceiro filme da série, Rambo vai ao Afeganistão enfrentar os comunistas e não Bin Laden, já que este ainda era aluno na escolinha de Tio Reagan). Por sua vez, o Cap. Nascimento se arma na selva de pedra para capturar e executar os traficantes, estejam eles no morro ou nos apartamentos.

O que alguns críticos notaram é que em Tropa de Elite há manifestação da brutalidade policial, mas ela não viria acompanhada de exibicionismo ou gratuidade. As cenas, em geral, são noturnas e escuras e parecem assinalar as trevas morais que circundam as ações de traficantes e policiais. O tratamento brutal é dispensado tanto às gangues do morro quanto aos estudantes endinheirados que freqüentam as universidades particulares, e o que é pior, matriculados nos cursos de direito.

Também não há no filme um apelo ao nacionalismo. Aliás, a guerra é contra a corrupção policial e a devassidão ética. É aqui que o diretor José Padilha precisou tomar partido. Caracterizando a polícia civil como quase que exclusivamente corrupta, o filme distingue o Bope como um batalhão policial formado por homens de retidão moral. Porém, esses mesmos homens mostram-se divididos quanto à extensão da brutalidade que vai dominando cada vez mais as ações do Cap. Nascimento, chefe das operações anti-tráfico.

As provas para a seleção dos candidatos ao BOPE são cruéis e humilhantes e se assemelham aos testes brutais do filme de Stanley Kubrick, Nascido para matar. Nesse filme, os recrutas passam por privações e provas que supostamente os tornariam aptos a encarar o front de batalha, no caso, o Vietnã. O título do filme em português (que deixou de lado o original, Full metal jacket) viria melhor com um ponto de interrogação no final. Porque, na verdade, observa-se que, apesar do intenso preparo para a guerra, nunca se está realmente preparado para o enfrentamento e o filme parece perguntar: o homem está pronto para a adversidade na guerra? O homem nasceu para matar, para tirar a vida de seus semelhantes por causa da desavença de seus líderes?

A demonstração de que o Cap. Nascimento não nasceu para matar advém do recrudescimento de seu descontrole durante as ações, da gradual insatisfação familiar com sua profissão e seus métodos de ação e da intensificação da violência nos interrogatórios (qual o método sem contra-indicações para conseguir informações vitais em situações-limite? Quando se pode dizer que uma dada circunstância é uma situação-limite?)

Houve parte do público que aplaudiu as cenas de tortura e execução. Mas, alguns críticos perceberam que esse público não teve capacidade de compreender o filme um pouco além do thriller bem-feito que aparenta ser. Isto é, Tropa de Elite não é nenhum tratado de sociologia, mas ao revelar os paradoxos de uma classe média-alta que sustenta o tráfico (crise moral coletiva) e as contradições de um policial à beira de um ataque de nervos (crise moral individual), demonstra que as discussões sobre direitos humanos estão permeadas de sociologismo barato – na desclassificação do dever policial – e que a instituição de defesa do cidadão, a polícia, de tal forma brutaliza seus homens, que estes, que não podem reconhecer a si como seres humanos, nunca poderão reconhecer o outro como semelhante também.

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