Pular para o conteúdo principal

Cap. Nascimento: nascido para matar?


Fascista, apólogo da tortura, defensor do estado policialesco. De todos esses nomes o Capitão Nascimento (em foto menos badalada ao lado), personagem do filme Tropa de Elite, já foi chamado. A crítica se dividiu. Uma parte enxergou o ditador Mussolini como diretor do filme, dada a sua suposta justificação da supressão de direitos pelo Estado. Outra parte concordava com a crítica do filme ao filósofo Michel Foucault e sua classificação do aparato ideológico do Estado. Que lado está certo? Há um lado certo, pelo menos?

Os que chamaram o filme de fascista demonstram desconhecer o que é arte fascista, segundo seus opositores. Qualquer arte subvencionada pelo totalitarismo, seja fascista, nazista, maoísta, revelaria um fascínio pelo exibicionismo físico, um apelo ao nacionalismo e um culto à personalidade. Porém, esses três fatores conjugados estão muito mais reforçados em filmes como Coração Valente, 300 ou qualquer patriotada protagonizada por Chuck Norris e Sylvester Stallone nos anos 80.

Em Coração Valente, Mel Gibson faz do herói escocês uma máquina mortífera que contribui para a mitificação (e culto) de William Wallace, um homem simples que apela aos instintos de nacionalismo de seus homens para defender sua terra. Mas é fascista? Em 300, a Batalha das Termópilas vira um desfile de escola de samba com suas deturpações históricas em favor do enredo e com sua folclorização dos persas de acordo com uma mentalidade anti-oriental ou anti-árabe. Isso está mais próximo de uma arte que se poderia chamar fascista, embora a insistência em enquadrar os peitorais malhados dos soldados esteja mais para homoerotismo que para fascismo.

Comparou-se o Cap. Nascimento e sua violência com o John Rambo de Stallone. Rambo se arma na selva para capturar e executar os opositores do regime norte-americano sejam eles capitalistas ou não (no terceiro filme da série, Rambo vai ao Afeganistão enfrentar os comunistas e não Bin Laden, já que este ainda era aluno na escolinha de Tio Reagan). Por sua vez, o Cap. Nascimento se arma na selva de pedra para capturar e executar os traficantes, estejam eles no morro ou nos apartamentos.

O que alguns críticos notaram é que em Tropa de Elite há manifestação da brutalidade policial, mas ela não viria acompanhada de exibicionismo ou gratuidade. As cenas, em geral, são noturnas e escuras e parecem assinalar as trevas morais que circundam as ações de traficantes e policiais. O tratamento brutal é dispensado tanto às gangues do morro quanto aos estudantes endinheirados que freqüentam as universidades particulares, e o que é pior, matriculados nos cursos de direito.

Também não há no filme um apelo ao nacionalismo. Aliás, a guerra é contra a corrupção policial e a devassidão ética. É aqui que o diretor José Padilha precisou tomar partido. Caracterizando a polícia civil como quase que exclusivamente corrupta, o filme distingue o Bope como um batalhão policial formado por homens de retidão moral. Porém, esses mesmos homens mostram-se divididos quanto à extensão da brutalidade que vai dominando cada vez mais as ações do Cap. Nascimento, chefe das operações anti-tráfico.

As provas para a seleção dos candidatos ao BOPE são cruéis e humilhantes e se assemelham aos testes brutais do filme de Stanley Kubrick, Nascido para matar. Nesse filme, os recrutas passam por privações e provas que supostamente os tornariam aptos a encarar o front de batalha, no caso, o Vietnã. O título do filme em português (que deixou de lado o original, Full metal jacket) viria melhor com um ponto de interrogação no final. Porque, na verdade, observa-se que, apesar do intenso preparo para a guerra, nunca se está realmente preparado para o enfrentamento e o filme parece perguntar: o homem está pronto para a adversidade na guerra? O homem nasceu para matar, para tirar a vida de seus semelhantes por causa da desavença de seus líderes?

A demonstração de que o Cap. Nascimento não nasceu para matar advém do recrudescimento de seu descontrole durante as ações, da gradual insatisfação familiar com sua profissão e seus métodos de ação e da intensificação da violência nos interrogatórios (qual o método sem contra-indicações para conseguir informações vitais em situações-limite? Quando se pode dizer que uma dada circunstância é uma situação-limite?)

Houve parte do público que aplaudiu as cenas de tortura e execução. Mas, alguns críticos perceberam que esse público não teve capacidade de compreender o filme um pouco além do thriller bem-feito que aparenta ser. Isto é, Tropa de Elite não é nenhum tratado de sociologia, mas ao revelar os paradoxos de uma classe média-alta que sustenta o tráfico (crise moral coletiva) e as contradições de um policial à beira de um ataque de nervos (crise moral individual), demonstra que as discussões sobre direitos humanos estão permeadas de sociologismo barato – na desclassificação do dever policial – e que a instituição de defesa do cidadão, a polícia, de tal forma brutaliza seus homens, que estes, que não podem reconhecer a si como seres humanos, nunca poderão reconhecer o outro como semelhante também.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Lutero e a Reforma da música - parte 1

Andreas Karlstadt acaba de publicar em Wittenberg um panfleto com 53 tópicos condenando a liturgia católica, rejeitando seu formato, seu idioma e sua música inacessível ao canto congregacional. Isso foi manchete em março de 1522. Naquele ano, Martinho Lutero, após seu exílio no castelo de Wartburg, voltava para Wittenberg, onde em 31 de outubro de 1517 ele publicara suas 95 Teses. Isso continua sendo manchete há 499 anos. Esperava-se que o Dr. Lutero, o reformador protestante, apoiasse Karlstadt. Mas ao chegar na cidade, Lutero profere uma série de oito sermões com o intuito de corrigir a reforma litúrgica radical de Karlstadt. A reforma luterana deveria ser mais cautelosa e mais conservadora devido 1) à necessidade de reformar o ensino bíblico antes de modificar o ritual e 2) ao apreço de Lutero pelo canto tradicional polifônico. As proposições reformadoras de Lutero cuidaram de preservar o aparato cerimonial da missa católica, cuja música, linguagem e ornamentações possuíam alto valor …

uma imagem que vale mil canções: história da música dos adventistas

A história da música adventista no Brasil passa obrigatoriamente pelos músicos nessa foto, tirada num encontro de músicos no Rio de Janeiro: 1ª fila, da esq. para direita: Mário Jorge Lima, Williams Costa Junior, Jader Santos 2ª fila: Evaldo Vicente, Valdecir Lima, Lineu Soares, Flávio Santos 3ª fila, à direita: Alexandre Reichert Filho
[Não conheço o trabalho de Wilson Almeida e Horly de Oliveira, na 3ª fila, da esquerda para direita. Por isso, vou mencionar somente os demais músicos].
No final dos anos 1970 e início dos anos 80, tendo como epicentro o Instituto Adventista de Ensino (hoje, UNASP-SP), eles viabilizaram uma mudança de paradigma sacro-musical que impactou a estrutura musical e poética tradicional e mobilizou um novo modelo de prática musical para as igrejas adventistas no Brasil.

Trata-se de uma foto carregada de capital simbólico, visto que reúne uma geração espetacular de letristas, maestros, instrumentistas, compositores e arranjadores que deram novos rumos à música…

quando a teologia canta